Após semanas ofuscado pelo Sol, o cometa interestelar 3I/ATLAS volta a ser detectado da Terra, com registros de observatórios nos EUA, Áustria e Itália, e tende a ficar mais fácil de ver nos próximos dias
O cometa interestelar 3I/ATLAS voltou a ser visto da Terra, reacendendo o entusiasmo de astrônomos e do público. Depois de semanas mergulhado no brilho solar, o visitante cósmico reapareceu em registros ópticos feitos a partir do solo, marcando uma nova fase de observações após sua passagem pelo periélio, o ponto mais próximo do Sol.
A primeira captura dessa nova etapa veio na noite de Halloween, com um registro do astrônomo Qicheng Zhang, do Observatório Lowell, utilizando o Telescópio Discovery, instalado a mais de 2.300 metros de altitude na cadeia de montanhas de Happy Jack, no norte do Arizona. Segundo os pesquisadores, tudo indica que a imagem representa o primeiro retrato óptico do 3I/ATLAS após o periélio, um feito que exigiu condições muito específicas de visibilidade no horizonte leste.
Desde então, novos flagrantes do cometa interestelar 3I/ATLAS foram obtidos em diferentes países, reforçando que o objeto, embora ainda discreto, deve ficar mais visível a cada dia conforme se afasta do ofuscante brilho solar.
Primeiras imagens pós-periélio captadas no Arizona
Na foto feita por Zhang, o 3I/ATLAS aparece como um ponto branco brilhante, enquanto uma estrela logo acima surge ligeiramente distorcida, efeito do movimento do cometa durante a exposição. O astrônomo destacou que o Telescópio Discovery é um dos poucos instrumentos de grande porte capazes de observar tão perto do horizonte, condição crítica para registrar o objeto logo após o periélio. O clique foi feito quando o cometa estava a apenas 16 graus do Sol, pouco acima do horizonte, aproveitando uma curta janela em que o céu ainda permanecia escuro o suficiente.
Antes de cada sessão oficial, Zhang costuma testar o céu usando um telescópio menor, com lente de 15 cm, para refinar o tempo de exposição. Em seu blog Cometary, ele mostrou uma imagem obtida com um telescópio de 152 mm em 1º de novembro de 2025 e informou que astrônomos amadores do Hemisfério Norte já poderiam tentar observar o 3I/ATLAS. Como recomendação, o pesquisador afirmou ao site Live Science: “Tudo o que é preciso é um céu limpo e um horizonte leste baixo”. Segundo ele, o cometa deve aparecer como uma pequena mancha no céu, ganhando contraste com o passar dos dias.
Embora possam existir registros por radiotelescópios ou instrumentos menores, os especialistas apontam que a captura de Zhang parece ser a primeira foto óptica do cometa após o periélio, um marco para a campanha de acompanhamento do objeto.
Novos registros na Pensilvânia, na Áustria e na Itália
Depois das imagens feitas no Arizona, outros registros começaram a pipocar. Na Pensilvânia, EUA, o astrofotógrafo Terry Pundiak compartilhou uma foto em que o 3I/ATLAS surge quase imperceptível, ressaltando a dificuldade de observar o objeto tão baixo no céu e em meio ao amanhecer. Ele descreveu a experiência: “Cometa 3i/ATLAS! Estava muito perto do horizonte e do brilho do amanhecer”. Em seguida, detalhou o desafio técnico: “Criei um conjunto de coordenadas manualmente, mas cometi um pequeno erro ao inverter os números. A posição do cometa está fora do centro. Devido ao rápido amanhecer, só consegui capturar uma imagem de 20 segundos, e depois disso, a luz do Sol causou falhas nas demais fotos”.
Na Áustria, o Observatório Aéreo de Martinsberg também reportou sucesso. Michael Jäger, que opera o observatório em parceria com Gerald Rhemann, explicou: “Após a dissipação das nuvens, conseguimos tirar uma pequena série de fotos com um filtro verde e um RASA ao amanhecer”. Segundo Jäger, o cometa apresenta uma coma de 2,5′ e uma cauda apontando para o norte, com ângulo de posição de cerca de 334° e extensão aproximada de 17°. Para efeito de escala, como a Lua cheia ocupa 0,5° no céu, a cauda teria aproximadamente 34 vezes o diâmetro lunar. Jäger ponderou que, devido à baixa altura do cometa no céu, os dados ainda são preliminares e exigem confirmação, mas que, por ora, “tudo parece normal.”
Em 5 de novembro de 2025, o Projeto Telescópio Virtual, em Manciano, na Itália, liderado pelo astrofísico Gianluca Masi, também capturou o cometa interestelar 3I/ATLAS, somando mais uma prova de que o objeto voltou a se destacar no céu crepuscular do Hemisfério Norte.
O que é o cometa interestelar 3I/ATLAS, como observar e o que a ciência já mediu
Descoberto em julho, o 3I/ATLAS é apenas o terceiro objeto interestelar já detectado passando pelo Sistema Solar, isto é, veio de fora e segue uma trajetória que não o prenderá ao Sol. De acordo com os cálculos, o cometa viaja a mais de 210 mil km/h em uma trajetória praticamente retilínea, o que indica que está apenas de passagem, ao contrário dos cometas periódicos que retornam ao entorno solar.
Para quem pretende tentar observá-lo, as melhores chances relatadas até agora concentram-se no Hemisfério Norte, perto do amanhecer e muito baixo no horizonte leste. Conforme relatou Zhang, o 3I/ATLAS pode aparecer como uma mancha difusa, mas tende a ficar gradualmente mais evidente à medida que a separação angular em relação ao Sol aumenta. Céu limpo, ausência de obstáculos no horizonte e breve janela antes do brilho da manhã são fatores decisivos para o sucesso.
No front científico, um artigo no servidor arXiv, ainda aguardando revisão por pares, reporta que o cometa interestelar 3I/ATLAS mudou de cor e apresenta indícios de aceleração por fatores além da gravidade, o que em cometas costuma estar ligado a jatos de gás e poeira que funcionam como pequenos foguetes naturais. O estudo analisou dados dos instrumentos STEREO, da NASA, do SOHO, projeto conjunto da NASA e ESA, e do satélite meteorológico GOES-19, da NOAA, que acompanharam o objeto pouco antes do periélio.
Mesmo com a aura de mistério típica de visitantes interestelares, os especialistas reforçam que o 3I/ATLAS não é uma nave alienígena. Por ora, as medições e imagens coletadas ajudam a decifrar sua atividade, cor e dinâmica enquanto ele se afasta do Sol, oferecendo uma rara oportunidade de estudar, a partir da Terra, um objeto que veio de outra estrela.

