Nexperia retoma exportações de chips com aval da China, e Holanda avalia suspender intervenção: impactos para montadoras e para a Europa

Nexperia volta a exportar chips e Holanda pensa em suspender intervenção

China autoriza exportações, Haia recua do controle

A Nexperia, fabricante de semicondutores, voltou a exportar chips a partir da China, segundo fontes da Bloomberg, abrindo caminho para que o governo da Holanda suspenda a intervenção temporária sobre a companhia no país. A medida de controle havia sido adotada no mês passado, com a justificativa de “garantir que um suprimento suficiente de seus chips permaneça disponível na Europa“. Com a normalização gradual das exportações de semicondutores, Haia deve, em breve, arquivar o instrumento que permitia alterar decisões corporativas importantes.

O episódio começou quando a Holanda assumiu controle temporário da Nexperia, provocando a reação de Pequim. Assim que a intervenção foi anunciada, a China suspendeu as exportações de chips das fábricas da empresa no país asiático. As tensões passaram a arrefecer no fim de outubro, após um acordo comercial entre China e Estados Unidos, abrindo espaço para a retomada dos embarques e para a possível normalização do comércio global do setor de chips.

De acordo com o ministro da Economia holandês, Vincent Karremans, que acionou a Lei de Disponibilidade de Bens, uma norma da época da Guerra Fria, o tom agora é de distensão. “Dada a natureza construtiva de nossas conversas com as autoridades chinesas, a Holanda confia que o fornecimento de chips da China para a Europa e o resto do mundo chegará aos clientes da Nexperia nos próximos dias“.

No contexto atual, o restabelecimento do fluxo de exportações da Nexperia ocorre em um mercado sensível. Segundo as fontes, várias montadoras relataram que os chips já voltaram a ser embarcados a partir das unidades da empresa na China, o que reduz o risco imediato de gargalos na cadeia de suprimentos automotiva europeia.

Impacto imediato: montadoras aliviam risco e ações disparam

A reabertura parcial da válvula de semicondutores trouxe alívio para fornecedores e montadoras. O CEO da Aumovio SE, Philipp Von Hirschheydt, disse que a companhia voltou a despachar semicondutores da Nexperia e componentes relacionados, mas alertou para uma transição com ajustes. “Levará algum tempo até que todos os procedimentos e processos voltem ao normal”, afirmou. Ele acrescentou que há chance de interrupções entre quatro e seis semanas, mas, “se tudo o que sei hoje estiver correto, não seremos afetados“.

No mercado, a notícia impulsionou ações do setor. Os papéis da Wingtech, controladora da Nexperia, dispararam minutos antes do fim do pregão chinês e fecharam com alta de quase 10%. Em Frankfurt, as ações da Volkswagen subiram até 2,7%, enquanto BMW, Mercedes-Benz e Stellantis também avançaram depois da sinalização positiva sobre o fornecimento de chips.

A Honda declarou que espera reativar a produção na semana de 21 de novembro, segundo o vice-presidente executivo Noriya Kaihara, que falou nesta sexta-feira, dia 7. Já a Robert Bosch, uma das maiores fornecedoras de autopeças do mundo, voltou a receber chips da Nexperia, de acordo com fontes, embora um porta-voz tenha preferido não comentar. Até a manhã desta sexta-feira, a companhia ainda sofria interrupções temporárias em fábricas que produzem eletrônicos automotivos.

O retorno dos embarques é crucial porque, hoje, a chinesa responde por cerca de 40% de todo o mercado mundial, que fornece esses chips para os veículos flex. Essa participação torna a Nexperia um elo estratégico para a indústria automotiva, que depende de fornecimento contínuo para manter linhas de produção e lançamentos no calendário.

Próximos passos: normalização gradual e incertezas na cadeia

Mesmo com o sinal verde de Pequim e a provável retirada do controle por Haia, a normalização não é imediata. O Ministério do Comércio chinês, segundo relatos citados por executivos do setor, suspendeu o embargo mais amplo às exportações da fabricante, mas os processos administrativos e logísticos ainda exigem “tempo para voltar ao normal”, como ressaltou Hirschheydt.

Do lado europeu, parte da cadeia ainda trabalha com planos de contingência. A ZF Friedrichshafen informou que se prepara para eventuais paradas de produção e suspensões temporárias de funcionários, caso a retomada não avance no ritmo esperado. “Não está claro em que medida e em que velocidade as entregas da China poderão ser retomadas. A situação permanece muito tensa em todo o setor”, disse uma porta-voz.

No campo regulatório, o governo holandês indicou que pretende arquivar a medida que permitia intervir em decisões corporativas da Nexperia, adotada como salvaguarda para o abastecimento europeu. A expectativa é que, com as exportações de semicondutores retomadas e o diálogo com Pequim estabilizado, o fluxo para a Europa e demais mercados se normalize nas próximas semanas.

Para as montadoras, o quadro aponta para um alívio progressivo na crise de chips, embora ainda possa haver interrupções entre quatro e seis semanas durante a recomposição de estoques, a reativação de contratos e a regularização logística nos portos chineses e europeus. Em um setor marcado por ciclos apertados e estoques enxutos, a velocidade dessa recomposição será decisiva para consolidar a recuperação da produção.

Com a Nexperia novamente enviando chips da China e a Holanda inclinada a remover o controle temporário, a indústria automotiva vislumbra um fim ordenado para o episódio. Se o cenário descrito por fontes e autoridades se confirmar, a Europa deve ver a distribuição de semicondutores se estabilizar, reduzindo o risco de novos gargalos e dando fôlego à retomada de fábricas e lançamentos no fim do ano.

Rolar para cima