Escassez de energia no Vale do Silício deixa data centers no escuro, Digital Realty e Stack paradas e prazos se alongam até 2028

Vale do Silício: escassez de energia provoca apagão em data centers

Por que a escassez de energia no Vale do Silício trava a expansão de data centers de IA e empurra projetos inteiros para 2028

A escassez de energia no Vale do Silício atingiu um ponto crítico e já compromete a operação e o ritmo de expansão de grandes data centers, especialmente aqueles voltados para cargas de inteligência artificial. Em Santa Clara, Califórnia, instalações inteiras, recém-construídas e de alto padrão, seguem vazias por falta de capacidade elétrica. O caso mais emblemático é o da Digital Realty, maior fornecedora mundial de infraestrutura para chips de IA, que ergueu um prédio de quatro andares e 40 mil m², mas ainda não dispõe de energização suficiente para operar.

Outro exemplo é a Stack Infrastructure, adquirida pela Blue Owl Capital, com uma planta de 48 MW na região, igualmente sem uso. O gargalo recai sobre a Silicon Valley Power (SVP), concessionária local, que não consegue entregar a demanda energética exigida por esses complexos. Segundo a SVP, há um plano de reforço, porém o alívio não será imediato.

O que está travando os data centers em Santa Clara

De acordo com apresentação ao conselho municipal, Santa Clara contabiliza 57 data centers ativos ou em construção, um retrato da intensidade da demanda local. A SVP afirma ter contratos com a Stack e a Digital Realty, avaliando constantemente pedidos extras de energia, mas a modernização da rede leva tempo e altos investimentos. Como explicou a porta-voz da concessionária, Janine de la Vega, “A SVP está realizando uma atualização de sistema de US$ 450 milhões [R$ 2,3 bilhões, na conversão direta] para atender às necessidades desses e de outros clientes, e o projeto está atualmente dentro do cronograma para ser concluído em 2028”.

A pressão é resultado direto da corrida por IA generativa e serviços de nuvem. Segundo a Bloomberg, a restrição de acesso à eletricidade decorre de infraestrutura elétrica obsoleta, da lenta construção de novas linhas de transmissão e de obstáculos regulatórios e de licenciamento. Para Bill Dougherty, executivo da CBRE, a situação é inédita: “A demanda nunca foi tão alta, e o problema que temos é realmente o fornecimento de energia”.

Esse cenário atinge até operações de edge com necessidades de baixa latência, como trading de alta frequência e veículos autônomos, segmentos que precisam manter seus data centers próximos aos grandes centros populacionais. “Há parcelas da demanda por data centers que precisam estar o mais perto possível dos centros populacionais. Essa é a demanda que precisa estar na Califórnia. Eles não conseguem implementá-la por causa das restrições de energia”, complementou Dougherty.

IA acelera a demanda e a infraestrutura não acompanha

A tendência é de pressão contínua. Projeções da BloombergNEF indicam que a demanda exigida pela IA deve mais que dobrar até 2035, apenas nos Estados Unidos. Enquanto isso, concessionárias de várias regiões enfrentam atrasos para conectar grandes cargas. Em 2024, a Dominion Energy alertou que a conexão de grandes data centers à rede elétrica pode levar de um a três anos, chegando a até sete anos em casos específicos, um desafio especialmente sensível na Data Center Alley, no norte da Virgínia, maior polo de computação do mundo.

No Oregon, a Amazon relatou fornecimento abaixo do necessário para quatro de seus sites, apontando que a concessionária da Berkshire Hathaway não estaria liberando a energia requerida. A Digital Realty, com mais de 300 data centers no mundo, classifica uma espera de três anos como “geralmente consistente” com o prazo para garantir fornecimento na maior parte dos EUA, mas reconhece que, em mercados como o Vale do Silício e o norte da Virgínia, o tempo costuma ser maior.

Em Santa Clara, o executivo Jordan Sadler foi direto sobre a dificuldade em ativar novas cargas: “Em Santa Clara, se você encontrar um local hoje e estiver procurando por novas fontes de energia, levará muitos anos para que isso aconteça. Às vezes, nos adiantamos um pouco. Mas, normalmente, não nos atrasamos. E ninguém quer se atrasar”.

Prazos, investimentos e a corrida por energia até 2028

Apesar do quadro adverso, a Digital Realty tenta acelerar a energização de seu prédio de 48 MW em Santa Clara. Segundo Crystal Delany, vice-presidente de gestão de portfólio de data centers, “A Digital Realty continua a colaborar com a SVP para obter a energia restante necessária para atender à carga crítica total de TI [tecnologia da informação] do edifício, de 48 MW, até o final deste ano”. O desafio, porém, é financeiro e operacional. Nos EUA, os centros equipados da companhia têm custo médio de cerca de US$ 13,3 milhões (R$ 70,3 milhões) por MW, com valores ainda mais altos no Vale do Silício. Entre 20% e 25% do gasto final vai para a estrutura básica antes da fase de comissionamento completo.

A Stack Infrastructure também mira 48 MW no local e detalha que a energia virá de uma subestação dedicada, com 12 MW disponíveis para locação imediata e possibilidade de expansão. Em comunicado, a empresa afirmou que o acordo com a SVP “reflete a energia atual e a nova energia que entrará em operação até 2027”, sem comentar a situação de arrendamentos.

Mesmo com gargalos, a demanda aquecida mantém o mercado aquecido e contratos são fechados com grande antecedência. Relatório da CBRE aponta que 74,3% dos projetos em construção nos EUA já estão alugados. A Digital Realty indica ter 61% dos US$ 9,7 bilhões (R$ 51,3 bilhões) de seu portfólio comprometidos com clientes, embora não detalhe o status do site de Santa Clara.

Fora da Califórnia, gigantes aceleram a expansão em mercados com energia mais barata, ainda que em fases de desenvolvimento. A Blue Owl Capital anunciou mais de US$ 50 bilhões (R$ 264,4 bilhões) em aportes recentes, incluindo US$ 30 bilhões (R$ 158,6 bilhões) para a Meta na Louisiana e US$ 20 bilhões (R$ 105,7 bilhões) para a Oracle no Novo México. Para o co-CEO Marc Lipschultz, a vantagem competitiva vem de planejamento e execução: “Não se trata do que você fez hoje. Trata-se do que você fez há dois anos para se posicionar com o terreno certo, o poder certo e o entendimento certo das estruturas regulatórias e de como, de fato, concretizar isso. Porque concretizar isso importa tanto quanto o capital, e nós fazemos os dois”.

O consenso entre executivos é que a escassez de energia no Vale do Silício continuará determinante para onde e quando data centers de IA sairão do papel. Até que reforços de rede e novas linhas de transmissão avancem, o setor seguirá num equilíbrio delicado entre capacidade elétrica, investimentos multibilionários e a urgência de atender a uma demanda que, como indicam as projeções, só cresce.

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