Por que a Igreja do Santíssimo Redentor de Las Chumberas, financiada por fiéis, virou marco urbano e levou o prêmio máximo do Festival Mundial de Arquitetura em Miami Beach
A Igreja do Santíssimo Redentor de Las Chumberas, em Tenerife, foi consagrada pelo Festival Mundial de Arquitetura, em Miami Beach, com o título de “Edifício do Ano” de 2025. Concebida pelo arquiteto espanhol Fernando Menis, a obra se tornou referência ao unir espaço religioso, centro comunitário e praça pública, oferecendo um ponto de encontro para moradores de um bairro antes negligenciado nos arredores de La Laguna e Santa Cruz de Tenerife, na Espanha.
De acordo com a organização do festival, “A Igreja do Santíssimo Redentor de Las Chumberas catalisa a renovação urbana em seu bairro periférico negligenciado, erguendo-se como um marco em uma paisagem construída fragmentada.” O conjunto foi erguido em fases, resultado de um financiamento orgânico, vindo de doações de paroquianos, vizinhos e organizações locais, o que acabou ditando o ritmo e a entrega de quatro módulos independentes ao longo de 15 anos.
Arquitetura incrustada no terreno e pensada para a comunidade
A Igreja do Santíssimo Redentor de Las Chumberas se destaca por uma linguagem arquitetônica inspirada na geologia local. Segundo os organizadores, o edifício “parece estar incrustado no solo, erguendo-se com seus quatro volumes maciços que lembram grandes rochas, cuja textura áspera contrasta fortemente com o entorno”. Entre esses volumes, fendas estreitas, protegidas por estruturas esculturais de metal e vidro, filtram luz natural e reforçam a sensação de recolhimento.
O complexo inclui não apenas a igreja, mas também um centro comunitário e uma praça pública, concebidos para intensificar os laços de vizinhança. O Centro Paroquial, distribuído em dois dos quatro edifícios, foi finalizado em 2008 e está em uso desde então, enquanto novas captações viabilizavam a conclusão do restante. A opção pelo concreto, produzido localmente, reforçou a busca por durabilidade, eficiência energética e versatilidade para estrutura, forma, textura e desempenho acústico.
Na avaliação técnica do júri de prêmios anteriores, há uma síntese do impacto sensorial do projeto. Como registra o Prêmio Internacional de Arte e Arquitetura Religiosa da AIA, “É uma obra impressionante. Parece que os blocos de pedra foram esculpidos e escavados para criar espaços espirituais por meio do uso da luz e da textura. Intimidade e aconchego são alcançados. As texturas internas também aprimoram a acústica. Os componentes estruturais são expressivos. Atenção especial é dada à acústica e à iluminação natural”.
Luz natural como elemento sagrado e desenho acústico de alto desempenho
Na Igreja do Santíssimo Redentor de Las Chumberas, a luz é entendida como material de projeto. Os organizadores destacam que o espaço é “austero e livre de elementos supérfluos”, sem janelas aparentes, e que a iluminação natural entra de modo dramatúrgico por rasgos e claraboias estrategicamente posicionados. O amanhecer, por exemplo, marca uma cena simbólica: “Ao amanhecer, a luz inunda o espaço através da cruz, simbolizando a entrada da gruta onde Jesus foi sepultado, e ilumina a pia batismal na extremidade oposta”. Ao meio-dia, o ciclo solar realça o altar, a confirmação e a comunhão, e, mais tarde, um feixe incide sobre o confessionário. Claraboias iluminam ainda a unção, o matrimônio e o sacerdócio.
Além da luz, o desempenho sonoro mereceu atenção especial. A equipe destaca uma solução material que alia o concreto a agregados locais, potencializando a absorção e o controle das reverberações. Conforme descreve a organização, “Utilizado de forma inovadora para acústica, o concreto britado misturado com pedras vulcânicas absorve o som e, juntamente com o concreto aparente liso ou áspero, proporciona um controle sonoro sofisticado, comparável ao de uma casa de ópera — ideal para palavra falada e música.” Esse cuidado reforça a vocação multifuncional do espaço, que acolhe celebrações, concertos e atividades comunitárias.
Da periferia ao mundo: 15 anos de obra e reconhecimento internacional
O caminho até o topo foi pavimentado por etapas e por uma rede de apoio local. O financiamento vindo de fiéis e de entidades comunitárias permitiu que a Igreja do Santíssimo Redentor de Las Chumberas avançasse de forma gradual, refletindo a própria história do bairro. Esse processo, somado a uma linguagem formal robusta, fez do conjunto um novo farol urbano, capaz de articular fé, cultura e convivência.
Antes do título de “Edifício do Ano” 2025 no Festival Mundial de Arquitetura, o projeto acumulou distinções importantes. Recebeu o Prêmio de Honra Inter-religiosa Faith & Form-AIA para Arquitetura Sacra e Arte Religiosa, além do Prêmio de Inovação em Concreto da Fundação Ambuja Knowledge, Índia. Também foi incluído na coleção permanente de arquitetura do Museu de Arte Moderna de Nova York (MoMA), evidenciando o alcance internacional de sua proposta.
Ao celebrar uma obra que nasce da participação popular e da leitura sensível do território, o reconhecimento do Festival Mundial de Arquitetura reforça tendências contemporâneas na área: integração entre arquitetura e espaço público, valorização de materiais locais, desenho ambiental com luz natural e acústica apurada, e prioridade a usos comunitários. A Igreja do Santíssimo Redentor de Las Chumberas sintetiza essas frentes, ao mesmo tempo que projeta Tenerife e o trabalho de Fernando Menis no mapa das referências globais da arquitetura contemporânea.
Para quem acompanha os grandes prêmios e as obras que alimentam o radar do público, a vitória do conjunto em Miami Beach funciona como um convite para revisitar a potência da arquitetura quando ela nasce da escuta, do tempo e da colaboração. Em Las Chumberas, a comunidade não apenas financiou a obra, como também ajudou a moldar um lugar de encontro, contemplação e pertencimento.

