Inteligência artificial já influencia nosso pensamento crítico: alerta de pesquisadores expõe impactos no cotidiano e o poder das big techs

Como a inteligência artificial já influencia nosso pensamento crítico, alertam pesquisadores

O que muda quando a inteligência artificial deixa de ser só uma ferramenta

A rápida expansão da inteligência artificial está reconfigurando hábitos, expectativas e decisões, com efeitos diretos sobre o pensamento crítico. Pesquisadores ouvidos pelo TechXplore, em conteúdo repercutido pelo Olhar Digital, apontam que a popularização da IA generativa não é apenas um salto tecnológico, é uma transformação cultural. Na prática, sistemas como o ChatGPT já atuam como mediadores entre pessoas e informação, o que altera a forma como lemos, escrevemos, estudamos e até como nos relacionamos.

Petter Bae Brandtzæg, professor de inovação em mídia na Universidade de Oslo e cientista-chefe na SINTEF Digital, liderou o projeto “Uma Sociedade Impulsionada por IA”, que investiga justamente esses efeitos. Em suas palavras, a inteligência artificial está entranhada em plataformas e serviços essenciais, o que torna quase impossível ignorá-la enquanto formamos opiniões e tomamos decisões.

Para além da ferramenta, a IA como parceira constante

Brandtzæg resume a onipresença da inteligência artificial em uma declaração que ajuda a entender a escala da mudança: “Podemos evitar as mídias sociais em grande parte, mas não a IA. Ela está integrada às redes sociais, ao Word, aos jornais online, aos programas de e-mail e a outros serviços. Todos nos tornamos parceiros da IA – quer queiramos ou não.” A frase sintetiza o que os pesquisadores chamam de mudança de paradigma, na qual a IA deixa de ser um recurso opcional para se tornar um componente estrutural do ecossistema informacional.

Essa presença discreta, porém contínua, afeta como filtramos e priorizamos dados. Em pesquisas com estudantes, por exemplo, cresce a preferência por respostas prontas, rápidas e personalizadas, algo que sistemas generativos entregam com facilidade. O resultado é um deslocamento do esforço analítico, já que a consulta a fontes primárias e a comparação entre perspectivas cedem espaço à confiança na síntese automatizada, o que pode enfraquecer a capacidade de pensamento crítico.

Do “individualismo em rede” ao “individualismo em IA”

O estudo propõe o conceito de “individualismo em IA”, uma evolução do antigo “individualismo em rede”. Se antes celulares e redes sociais permitiam construir redes personalizadas de contatos e conteúdos, agora a inteligência artificial incorpora traços de uma “parceira” que aconselha, conforta e até orienta escolhas, misturando as fronteiras entre pessoas e sistemas.

Entre estudantes do ensino médio, relatos coletados mostram a preferência por chatbots em vez de livros ou pesquisas manuais. Um depoimento ilustra a dimensão emocional dessa dependência: “o ChatGPT me ajuda com problemas, posso me abrir e falar sobre coisas difíceis, receber conforto e bons conselhos”. Ao oferecer autonomia personalizada e respostas imediatas, a IA reforça a sensação de entendimento e proximidade, porém reduz a necessidade de interação humana, o que pode enfraquecer vínculos comunitários e a construção coletiva de conhecimento.

Essa substituição progressiva de interações sociais por conversas com sistemas tem implicações culturais. Quando nos acostumamos a obter explicações unificadas e consistentes, tende a diminuir a tolerância a ambiguidade e a disposição para investigar versões conflitantes dos fatos, justamente o terreno onde o pensamento crítico floresce.

Dependência, “poder do modelo” e o peso das big techs

Brandtzæg chama a atenção para o avanço do chamado “poder do modelo”, a ideia de que, na falta de alternativas, a sociedade adota a visão dominante, hoje fortemente moldada por modelos de inteligência artificial. Esses sistemas já permeiam relatórios públicos, buscas, pesquisas acadêmicas e notícias, o que cria, segundo o pesquisador, um potencial monopólio da interpretação da realidade. Ele observa ainda que usuários seguem orientações de IA mesmo quando acreditam agir de forma crítica, um diálogo que descreve como “unilateral”.

Há também uma dimensão geopolítica e de valores. De acordo com Brandtzæg, “cerca de 99,9% das IAs usadas na Noruega têm origem nos EUA”, o que concentra poder e influência nas big techs e pode afetar padrões culturais e escolhas de design algorítmico. Como são empresas privadas, sem compromissos democráticos formais, a transparência sobre vieses, curadorias e critérios de segurança permanece limitada, enquanto sua participação em serviços essenciais cresce.

O pesquisador relembra ainda que o relatório nacional sobre liberdade de expressão, apresentado pela Comissão Norueguesa para a Liberdade de Expressão em 2022, não considerou o impacto da IA generativa, lacuna que ficou evidente meses depois, com o lançamento do ChatGPT e a aceleração do uso cotidiano. A partir dali, a inteligência artificial passou a participar de decisões práticas, como a forma de estudar, o que ler e que temas priorizar, e também de dimensões subjetivas, como a busca por acolhimento e orientação.

Para o leitor, o ponto central é compreender que o ganho de eficiência vem acompanhado de novos riscos, entre eles a dependência de respostas automatizadas, a redução do esforço comparativo e a delegação das lentes com as quais interpretamos fatos. Ao reconhecer que a inteligência artificial já medeia conversas, consultas e escolhas, abre-se espaço para recuperar rotinas que preservem o pensamento crítico, como checagem de múltiplas fontes, investigação de contextos e debate com outras pessoas. É nesse equilíbrio que a tecnologia pode ampliar, e não estreitar, a nossa capacidade de compreender o mundo.

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