OpenAI quer incluir servidores, componentes elétricos e data centers de IA no crédito fiscal de 35% do Chips Act, defende licenciamento ambiental mais ágil e descarta garantias públicas
A OpenAI intensificou o debate em Washington ao defender, em carta enviada no fim de outubro à Casa Branca, a ampliação dos incentivos do Chips Act para cobrir infraestrutura de inteligência artificial, como servidores, componentes elétricos e data centers. A empresa afirma que a medida reduziria custos de capital, atrairia investimentos privados e aceleraria a expansão da infraestrutura de IA nos Estados Unidos, ao mesmo tempo em que nega buscar qualquer tipo de garantia pública ou “resgate”.
Assinada por Chris Lehane, diretor de assuntos globais da OpenAI, e endereçada a Michael Kratsios, diretor de ciência e tecnologia da Casa Branca, a carta pede que o Advanced Manufacturing Investment Credit (AMIC), crédito fiscal de 35% criado pelo Chips Act, passe a contemplar itens essenciais à operação de IA que hoje estão fora do escopo da lei de semicondutores.
Após a repercussão, executivos da OpenAI, incluindo o CEO Sam Altman, reforçaram que a companhia não busca garantias do governo para seus projetos. Segundo a empresa, o objetivo é fomentar políticas que destravem capital privado e fortaleçam a competitividade dos Estados Unidos.
Por que a OpenAI quer mudar o Chips Act
No documento, publicado em 27 de outubro, a OpenAI defende que ampliar o alcance do AMIC para servidores, componentes elétricos e data centers de IA ajudaria a aliviar gargalos de oferta e reduzir riscos para investidores, o que aceleraria a construção de novas instalações críticas para o desenvolvimento de modelos avançados.
Além dos incentivos fiscais, a empresa propõe simplificar o licenciamento ambiental de obras e criar uma reserva estratégica de insumos, como cobre, alumínio e terras raras, para garantir o fornecimento estável de matérias-primas essenciais à expansão de redes de energia e centros de dados, segundo o TechCrunch. A ideia, argumenta a OpenAI, é manter os EUA competitivos frente a países que subsidiam amplamente suas cadeias de tecnologia avançada.
Em termos de política industrial, a companhia sustenta que um incentivo fiscal mais abrangente no âmbito do Chips Act funcionaria como catalisador, reduzindo o custo de capital e destravando empreendimentos que exigem investimentos bilionários em infraestrutura de inteligência artificial.
Reação em Washington e no Vale do Silício
A discussão ganhou fôlego após declarações públicas de executivos. Em um evento do Wall Street Journal, a diretora financeira Sarah Friar sugeriu que o governo poderia “respaldar” parte dos empréstimos da OpenAI, o que foi interpretado como um pedido de socorro estatal. Posteriormente, ela se retratou, afirmando que “usou a palavra errada” e que a OpenAI “não busca garantias governamentais”, apenas políticas que acelerem o investimento privado.
A fala provocou reação imediata entre aliados do presidente dos EUA, Donald Trump. No X/Twitter, o investidor David Sacks, que preside o Conselho Consultivo de Ciência e Tecnologia do governo, escreveu que “não haverá resgate federal para IA”. Para Sacks, o país já conta com diversas líderes do setor, e, se uma falhar, outras ocuparão o seu lugar.
O CEO Sam Altman também buscou encerrar a polêmica. Em suas palavras, a empresa “não quer garantias para seus data centers” e “governos não devem escolher vencedores nem salvar companhias que falham”. Segundo Altman, a carta à Casa Branca foi concebida para incentivar uma infraestrutura de IA “a mais americana possível”, sem subsídios diretos, mas com instrumentos pró-inovação, como os créditos do Chips Act.
O que está em jogo para a infraestrutura de IA nos EUA
A proposta da OpenAI ocorre em um momento de forte escalada de custos para treinar e operar modelos de inteligência artificial. A demanda por data centers, equipamentos de alta densidade elétrica e insumos críticos vem pressionando a cadeia de suprimentos, encarecendo projetos e alongando prazos. Um crédito fiscal de 35% aplicável a servidores, componentes e centros de dados, se aprovado, poderia reequilibrar contas e acelerar cronogramas, ao mesmo tempo em que atraísse mais capital privado para o setor.
Nos bastidores, a OpenAI sinaliza confiança na própria capacidade de financiar a expansão. A empresa pretende encerrar 2025 com receita superior a US$ 20 bilhões e projeta crescimento para centenas de bilhões até 2030, sustentando planos de investimento de cerca de US$ 1,4 trilhão até o fim da década. Esses números, se confirmados, criariam uma base financeira mais robusta para construir e operar a próxima geração de infraestrutura de IA em território americano.
Enquanto a discussão avança, executivos da OpenAI repetem que não pedem “resgates federais” nem garantias de empréstimos. A prioridade, dizem, é a criação de um ambiente regulatório e fiscal que estimule a iniciativa privada, simplifique o licenciamento, garanta oferta de insumos estratégicos e viabilize o scale-up de data centers de inteligência artificial nos Estados Unidos.
O resultado dessa disputa de narrativas, entre incentivo à inovação e aversão a socorros estatais, deve moldar a política industrial de alta tecnologia nos próximos anos. Caso a proposta avance, o Chips Act poderá deixar de ser apenas um guarda-chuva para semicondutores e se tornar uma engrenagem-chave para financiar a infraestrutura que sustenta a corrida global da OpenAI e de todo o ecossistema de IA norte-americano.

