Debate sobre vida em Marte ganha força com reanálise de dados da Viking 1, carta de quatro pesquisadores à Science e indícios recentes do rover Perseverance
A discussão sobre vida em Marte voltou ao centro das atenções. Quase cinquenta anos após os primeiros pousos bem-sucedidos, um grupo de pesquisadores defende que a missão Viking 1, da NASA, pode ter detectado sinais biológicos em 1976, os interpretou de forma equivocada e, pior, pode ter destruído parte do que procurava. A nova leitura surge em uma carta à revista Science, ganha respaldo em estudos posteriores sobre a química marciana e dialoga com possíveis bioassinaturas reunidas recentemente pelo rover Perseverance.
No contexto atual, em que a busca por vida em Marte ganhou novo fôlego com amostras que o Perseverance coleta na cratera Jezero, revisitar os dados da Viking 1 ajuda a entender lacunas históricas. Segundo o site IFLScience, os testes biológicos dos anos 1970 não foram totalmente convergentes, o que levou a comunidade a descartar, à época, a hipótese biológica. Agora, quatro autores pedem que essa conclusão seja reavaliada com o conhecimento acumulado desde então.
O que os experimentos da Viking 1 realmente registraram
Lançada para responder se existe vida em Marte, a Viking 1 pousou em Chryse Planitia em 20 de julho de 1976 e realizou experimentos inéditos. Em um deles, os instrumentos adicionaram água com nutrientes marcados com carbono-14 ao solo marciano. Se microrganismos estivessem vivos, deveriam metabolizar os nutrientes e liberar um gás radioativo como subproduto, algo que, segundo os autores da carta, foi exatamente o que ocorreu na primeira tentativa, com liberação significativa de dióxido de carbono radioativo.
Outro resultado intrigante apareceu quando a amostra foi umidificada, o que teria levado à liberação de oxigênio e a uma troca de CO₂. Na interpretação dos pesquisadores que revisitaram o tema, esse conjunto de respostas químicas seria compatível com atividade microbiana. Nas palavras reportadas nas fontes, eles afirmam que a “preponderância das evidências” favorece a presença de vida, ao menos naquele primeiro ensaio.
O problema é que as injeções seguintes de nutrientes não reproduziram a mesma resposta gasosa, o que levou, na época, a descartar a hipótese biológica. A explicação que ganhou força nas décadas seguintes foi a de que um oxidante do solo, como o perclorato, teria gerado reações abióticas semelhantes, sem envolver vida.
Por que os resultados foram descartados e o que muda agora
A revisão proposta lembra que o perclorato de fato foi confirmado em Marte pela missão Phoenix muitos anos depois, o que torna plausível um cenário químico ativo. Ainda assim, os autores argumentam que a combinação de respostas observadas pela Viking 1, logo de início, não deveria ter sido abandonada tão rapidamente. Um dos signatários, o astrobiólogo Dirk Schulze-Makuch, também destacou em artigo no Big Think que o primeiro teste em Chryse sugeriu síntese orgânica com alta confiança estatística, algo que merecia uma análise mais cuidadosa, e que o teste de troca gasosa, apesar de controverso, registrou liberação de oxigênio sem consenso quanto à origem.
Nessa nova leitura, ganha espaço a hipótese de que microrganismos locais pudessem ser extremamente sensíveis à água líquida. Em ambientes muito secos na Terra, como o Deserto do Atacama, certas comunidades microbianas vivem protegidas em halitas, e a exposição súbita a água pode ser letal. Se algo assim existisse no solo de Marte, a primeira injeção de nutrientes poderia ter captado um sinal biológico, e as seguintes, já sobre organismos mortos, não mostrariam nada.
Outra hipótese citada por Schulze-Makuch é a de organismos marcianos com peróxido de hidrogênio em suas células, uma adaptação que reduziria o ponto de congelamento, forneceria oxigênio e captaria umidade do ar. Ao serem aquecidas pelos instrumentos da Viking, essas amostras reagiriam violentamente, quebrando moléculas orgânicas e liberando grandes quantidades de CO₂, efeito registrado pelos sensores. A combinação de cenários não prova a existência de vida em Marte, mas sugere que a interpretação original pode ter sido precipitada.
Implicações para missões futuras e proteção planetária
Com missões tripuladas ao planeta vermelho no horizonte e a coleta de amostras avançando, os autores da carta defendem uma mudança de postura. Eles pedem uma reavaliação formal da leitura que dominou a literatura por décadas, inclusive para reforçar protocolos de proteção planetária previstos no Tratado do Espaço Exterior. Em síntese, argumentam que a comunidade deve reexaminar os dados da Viking 1 à luz do que aprendemos desde então.
O apelo é resumido em uma formulação direta, citada nas fontes: “Cientistas pedem revisão de dados da sonda Viking 1, da NASA, que pousou em Marte em 1976 e pode ter destruído microrganismos acidentalmente”. A frase captura a urgência de uma revisão científica, mais do que uma conclusão definitiva. Em comunicação científica, revisar não significa reescrever a história, e sim testar novamente hipóteses com novos dados e melhores modelos.
Enquanto isso, a busca por vida em Marte segue com pistas promissoras. Em julho de 2024, o Perseverance coletou a 25ª amostra, batizada de Cânion Safira, que contém possíveis bioassinaturas. Esses materiais podem, no futuro, ser trazidos à Terra, oferecendo um teste crítico para hipóteses antigas e novas. Se há meio século podemos ter passado ao lado da resposta, agora a chance de esclarecer o enigma cresce com cada amostra arquivada, cada análise refinada e cada revisão honesta do que pensamos saber sobre vida em Marte.

