Devastação e alerta, por que o tornado no Centro-Sul do Paraná acendeu um sinal vermelho para o país
Fenômeno no Centro-Sul do estado deixou seis mortos e mais de 700 feridos, destruiu 90% de Rio Bonito do Iguaçu e foi ligado a ciclone extratropical, segundo Simepar e g1
O tornado no Paraná mobiliza autoridades, pesquisadores e a população por sua intensidade rara e pelos impactos humanos e materiais já confirmados. Em entrevista ao g1, o pesquisador Daniel Henrique Cândido, doutor em geografia pela Unicamp, avaliou a relevância do evento e os riscos que o país enfrenta. “O tornado que atingiu a região Centro-Sul do Paraná na noite de sexta-feira (7) pode ser um dos mais fortes do Brasil”. Ele acrescenta que “O evento é consequência de um ciclone extratropical que afetou a Região Sul do país e já deixou seis mortos”.
A análise de Cândido reforça a preocupação sobre a severidade desse tipo de fenômeno na Região Sul e levanta um debate sobre a cultura de prevenção, a urbanização e a reconstrução pós-desastre no Brasil. No curto prazo, a prioridade segue sendo o atendimento às vítimas, a restauração de serviços e a avaliação técnica dos danos causados pelo tornado no Paraná.
O que já se sabe sobre a intensidade do fenômeno
De acordo com o Simepar, “O Sistema de Tecnologia e Monitoramento Ambiental do Paraná (Simepar) classificou o tornado como de categoria F3, numa escala que vai até 5”. A força dos ventos foi excepcional, e o balanço preliminar confirma a gravidade do episódio. “Os ventos chegaram a 250 km/h e deixaram seis vítimas”.
Os danos materiais se concentram especialmente em Rio Bonito do Iguaçu, município mais atingido. Conforme o relato das equipes locais e as informações de Cândido, o cenário é de alta destruição e interrupção de serviços essenciais. “A cidade mais afetada foi Rio Bonito do Iguaçu, com 90% do município destruído e o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) adiado neste domingo (9)”.
O volume de atendimentos de saúde também ilustra a dimensão da tragédia no tornado no Paraná. Segundo os dados informados, “Até sábado, 750 pessoas feridas foram atendidas no Paraná em decorrência do tornado”. Esses números, somados à classificação F3 e à velocidade dos ventos, sustentam a avaliação do pesquisador sobre a posição do evento no histórico nacional. “Segundo Daniel Henrique Cândido, o tornado pode estar entre os 10 piores já registrados no Brasil”.
Brasil é área crítica para tornados, entenda
O tornado no Paraná não é um caso isolado na climatologia do país. Conforme Cândido, “Cândido revelou ao g1 que o Brasil tem um histórico de tornados e, inclusive, é destaque mundial nesse assunto”. O pesquisador aponta que a região do Centro-Sul da América do Sul, abrangendo Brasil, Paraguai e norte da Argentina, reúne condições geográficas que favorecem tempestades severas, como a extensa planície e o encontro de massas de ar. Não por acaso, “Segundo ele, a região é a “segunda área de risco mais intenso de ocorrência de tornados no mundo”, atrás apenas do corredor dos tornados nos Estados Unidos”.
O histórico científico do especialista reforça essa leitura. “Em tese de doutorado defendida em 2012, o pesquisador catalogou 205 desses eventos entre 1990 e 2011”. À luz desse banco de dados, o atual tornado no Paraná se encaixa entre os episódios mais destrutivos, justificando a discussão sobre métricas adaptadas à realidade brasileira. Na proposta de Cândido, a Escala Brasileira de Ventos (Ebrav) amplia a leitura dos danos e da intensidade conforme especificidades locais. “No caso do tornado no Paraná, a escala Ebrav o classificaria como nível 6”.
Essa classificação se baseia no tipo de destruição observada e no potencial de colapso estrutural em áreas urbanas. “Isso porque há potencial de desabamento de casas de alvenaria, levantamento de automóveis pelo vento, quebra de postes de cimento e queda de torres de alta tensão, e quebra de vidros em edifícios altos”. Além do efeito do ciclone extratropical que deu origem às condições para a tempestade, a própria configuração do relevo, com a Cordilheira dos Andes a oeste e a Serra do Mar no litoral, cria corredores de vento que intensificam a formação de sistemas convectivos severos.
Prevenção, reconstrução e impactos imediatos
Para além da medição técnica, especialistas defendem que o Brasil fortaleça uma cultura de prevenção diante de eventos extremos. Cândido observa que, embora os tornados por aqui não sejam tão frequentes quanto na América do Norte, eles também são graves e exigem práticas de segurança, alerta e preparo comunitário. No contexto do tornado no Paraná, isso significa desde acompanhar boletins meteorológicos, até planejar abrigos seguros e rotas de fuga em municípios mais expostos.
O pesquisador também chama atenção para as diferenças de tipologia construtiva entre países. Nos Estados Unidos, a prevalência de casas de madeira, apesar de mais frágeis, facilita a reconstrução rápida. No Brasil, predominam estruturas de alvenaria e concreto, que, quando colapsam, geram entulho pesado, danos mais complexos e maior risco às pessoas. Esse contraste precisa orientar políticas públicas, códigos de obra em áreas de risco e treinamentos para resposta a desastres.
Enquanto o poder público atua na assistência, a população impactada enfrenta desafios imediatos, como restabelecimento de energia, água, telecomunicações e a retomada de serviços essenciais, caso do Enem adiado em Rio Bonito do Iguaçu. O episódio, associado a um ciclone extratropical e classificado como F3 pelo Simepar, reforça que o país deve combinar monitoramento meteorológico, educação em risco e planejamento urbano para reduzir danos quando novos eventos ocorrerem.
À medida que os levantamentos avançam, a tendência é consolidar o tornado no Paraná como um marco recente na climatologia brasileira, tanto pela força dos ventos, de 250 km/h, quanto pelo número de vítimas e o rastro de destruição, com 90% de um município afetado. O consenso entre especialistas e autoridades é que aprender com este evento é essencial para salvar vidas no futuro.

