Melatonina faz mal ao coração? Estudo associa uso longo à insuficiência cardíaca, porém especialistas ressaltam cautela; entenda os dados, as doses liberadas no Brasil e quem deve evitar
A pergunta “melatonina faz mal ao coração?” ganhou força nas últimas semanas após a apresentação de um estudo, nos Estados Unidos, que ligou o uso prolongado do suplemento a um risco maior de insuficiência cardíaca. A notícia gerou preocupação entre brasileiros, especialmente porque, desde 2021, o consumo do hormônio do sono disparou após a liberação de venda como suplemento pela Anvisa. Mas o que realmente se sabe até agora?
Antes de tudo, vale lembrar que a melatonina é produzida pelo próprio corpo, ajudando a sincronizar o relógio biológico com o ciclo claro-escuro. Por aqui, o interesse cresceu com a promessa de melhorar a qualidade do sono, reduzir sintomas de insônia e auxiliar em situações como jet lag e trabalho noturno. A dúvida que resta é se, em alguma medida, a melatonina faz mal ao coração quando usada por muito tempo ou em doses elevadas.
O que é melatonina e por que tanta gente usa
Segundo especialistas, a melatonina atua como um sinalizador, indicando ao organismo que é hora de descansar. Como sintetiza a literatura, “A melatonina é, antes de tudo, um neuro-hormônio que o nosso próprio corpo produz.” A produção ocorre na glândula pineal e aumenta quando escurece, favorecendo a sonolência e a regulação do ciclo circadiano.
O acesso ao suplemento ficou mais simples no Brasil após a decisão regulatória: “Em outubro de 2021, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) autorizou sua comercialização como suplemento alimentar sem necessidade de receita médica.” Na prática, a versão sintética imita a ação do hormônio e se liga a receptores cerebrais que sinalizam o início da noite, o que ajuda quem tem dificuldade para iniciar o sono ou precisa “acertar o relógio” em fases pontuais.
Apesar da popularidade, perguntar se melatonina faz mal ao coração continua pertinente, principalmente quando se considera o tempo de uso e a dosagem. É aqui que entram os dados recentes e por que eles exigem interpretação cuidadosa.
O que o novo estudo nos EUA realmente encontrou
Durante as Sessões Científicas da American Heart Association, pesquisadores apresentaram dados observacionais que correlacionam o uso prolongado de melatonina com eventos cardíacos. Segundo a apresentação, “Ao analisar dados de mais de 130 mil adultos, os cientistas observaram que o uso prolongado de melatonina estava associado a um risco maior de insuficiência cardíaca.”
Os resultados chamaram atenção pelo tamanho do efeito relatado. Como descrito, “Os números apresentados foram impactantes: o grupo que utilizou melatonina por mais de 12 meses apresentou uma probabilidade 90% maior de desenvolver insuficiência cardíaca em comparação com quem não usava o suplemento.” Além disso, o estudo aponta que “o risco de hospitalização por problemas do coração foi quase 3,5 vezes maior entre os usuários recorrentes.”
Esses achados motivaram a pergunta: afinal, melatonina faz mal ao coração? A própria equipe enfatiza a natureza do trabalho: “O estudo é observacional, o que significa que ele aponta uma correlação, mas não prova necessariamente causa e efeito.” Especialistas sugerem ainda que “pode haver uma “causalidade reversa”, já que pessoas que usam melatonina com frequência tendem a ter insônia crônica, e a privação de sono por si só é um fator de risco conhecido para doenças cardiovasculares.
Mesmo assim, alguns médicos lembram hipóteses de mecanismos que merecem investigação, como possíveis efeitos em pressão arterial ou interações com anti-hipertensivos, especialmente quando o consumo ocorre em doses muito acima das fisiológicas e por longos períodos.
Quem deve se preocupar, as doses no Brasil e como usar com segurança
No mercado brasileiro, há uma diferença crucial em relação a países como os EUA. Aqui, “No Brasil, a Anvisa liberou suplementos com dosagem máxima de 0,21 mg.” Lá fora, são comuns cápsulas de 3 mg, 5 mg e até 10 mg, doses dezenas de vezes superiores às fisiológicas. Essa diferença ajuda a contextualizar por que os achados estrangeiros não se traduzem automaticamente para a realidade local, embora sirvam de alerta.
O sinal vermelho parece maior para quem usa melatonina todos os dias por meses a fio, sobretudo em concentrações altas, e para grupos com condições pré-existentes. Como orienta o material consultado, pessoas com histórico de problemas cardíacos ou em tratamento para pressão devem redobrar a cautela, já que “pode haver interação medicamentosa que afeta o ritmo cardíaco.” Nessas situações, a recomendação é discutir o uso com o médico, avaliar alternativas para dormir melhor e, se mantido o suplemento, ajustar dose, horário e duração.
Também é importante considerar que o trabalho apresentado ainda é preliminar e passará por revisão adicional. Até lá, a síntese é clara e equilibrada: “melatonina não é balinha.” Usar de modo consciente, com foco em baixas doses e por períodos limitados, tende a minimizar riscos enquanto se ataca a causa da insônia com higiene do sono, terapia cognitivo-comportamental e outros hábitos saudáveis.
Para quem recorre ao suplemento apenas em situações pontuais, os dados disponíveis são tranquilizadores. Como resume a fonte, “Se você utiliza a dosagem baixa aprovada pela Anvisa de forma pontual para corrigir o jet lag ou fases agudas de insônia, o risco parece ser mínimo.” Em outras palavras, não há motivo para pânico, mas sim para uso responsável. Investigar a origem do problema de sono e manter acompanhamento médico é a melhor estratégia para dormir melhor sem descuidar do coração.

