Tempestade solar silenciosa: evento furtivo atinge a Terra, gera auroras em latitudes médias e antecipa virada no ciclo solar de 11 anos

Tempestade solar silenciosa atinge a Terra e antecipa 'virada' no ciclo estelar

NOAA confirma efeitos de uma tempestade solar silenciosa com salto no campo magnético do vento solar, enquanto especialistas veem sinais de aproximação do mínimo solar

Uma tempestade solar silenciosa surpreendeu a Terra em 20 de novembro, chegando sem aviso prévio e deixando um rastro sutil, porém mensurável, no vento solar. O episódio, associado a uma CME furtiva, não desencadeou uma tempestade geomagnética formal, mas ajudou a ampliar a faixa de visibilidade de auroras para latitudes médias e reforçou a leitura de especialistas de que o Sol começa a entrar na fase de declínio do seu ciclo solar de 11 anos, quando o mínimo solar se aproxima.

Segundo relatos técnicos e análises divulgadas por especialistas e pelo portal Space.com, a assinatura do evento só ficou clara quando os instrumentos próximos à Terra detectaram mudanças abruptas nos parâmetros do vento solar, padrão típico das chamadas CME stealth.

O que é uma tempestade solar silenciosa e por que ela passa despercebida

As tempestades solares silenciosas, também conhecidas como ejeções de massa coronal furtivas, são notórias por escapar aos olhos dos coronógrafos e das câmeras solares em ultravioleta extremo. Ao contrário das CMEs tradicionais, que costumam vir acompanhadas de clarões, loops brilhantes e perturbações visíveis na coroa do Sol, as versões furtivas são fracas, lentas e praticamente não deixam pistas até atingirem o ambiente espacial da Terra.

Foi exatamente esse o caso. Em vez de sinais claros no disco solar, os indícios emergiram apenas quando a estrutura atingiu o planeta e alterou o regime do vento solar, algo que, segundo pesquisadores, tende a ocorrer com mais frequência quando o campo magnético solar está mais simples, como na etapa final do ciclo. Um estudo publicado em 2021 já destacava que esse tipo de CME representa um obstáculo significativo para a previsão de clima espacial, exigindo observações em múltiplos comprimentos de onda e de vários ângulos para ser identificada com antecedência.

Sinais na Terra: vento solar, campo magnético e auroras em latitudes médias

De acordo com medições observadas por especialistas da NOAA, a chegada da tempestade solar silenciosa alterou momentaneamente os parâmetros do vento solar. O campo magnético transportado pelo fluxo saltou de valores típicos entre 4 e 6 nanoteslas para 18 nanoteslas, enquanto a velocidade do vento solar se manteve elevada, entre 400 e 500 km/s, acima do padrão nas proximidades da Terra. Houve também indicação de um transiente incorporado, um sinal clássico de CME furtiva.

A combinação dessa CME furtiva com um fluxo de alta velocidade originado de um buraco coronal ampliou discretamente a faixa de visibilidade das auroras. Registros da noite de 20 de novembro mostraram as luzes dançando em locais pouco habituais. O geólogo Jure Atanackov descreveu, em português a partir de seu relato original: ‘A aurora é visível em latitudes médias sobre a América do Norte neste momento, esta é a vista do Maine. Lindos raios e pilares vermelhos e azul/roxo iluminados pelo Sol. Note a Ursa Maior sobre o horizonte norte.’

Na Europa, o fotógrafo Mikhaël Vervoort registrou: ‘Aurora hoje à noite, 20/11, 23h30 CET, perto de Hobro, na Dinamarca.’ Embora o evento não tenha escalado para uma tempestade geomagnética plena, o brilho registrado em estados do norte dos EUA, como o Maine, e em partes da Dinamarca, confirma o alcance incomum do fenômeno.

O que muda no ciclo solar e por que isso importa para as previsões

Para pesquisadores de física espacial, esse comportamento é um indício de que o ciclo está virando a página rumo ao mínimo solar. A cientista Tamitha Skov resumiu o momento ao comentar, em 20 de novembro, que ‘as tempestades solares furtivas estão de volta! Pode parecer contraintuitivo, já que acabamos de ter quase um G5, mas acabamos de ter um sinal precoce da aproximação do mínimo solar! Neste momento, uma verdadeira ‘CME furtiva’ está passando sobre a Terra. Elas são furtivas porque não têm assinatura no disco ou em coronógrafos…’

Em termos práticos, a maior presença de CMEs furtivas na fase descendente do ciclo solar de 11 anos torna a previsão de clima espacial mais complexa. Sem clarões ou loops evidentes para alertar observatórios, aumenta a dependência de redes de monitoramento do vento solar e de modelos que inferem perturbações a partir de dados in situ. Isso ajuda a explicar por que a tempestade solar silenciosa de 20 de novembro chegou praticamente sem aviso, mas ainda assim deixou marcas claras nos instrumentos e no céu noturno.

Por ora, a expectativa é de acompanhamento constante. Apesar de não ter provocado interrupções amplas, o episódio serve de lembrete de que ejeções de massa coronal fracas ainda podem gerar auroras em latitudes médias e, principalmente, funcionar como sinalizadores da virada do ciclo solar. Para quem observa o céu, a mensagem é clara: mais noites fotogênicas podem aparecer, mesmo sem grandes alertas prévios. Para as agências e centros de previsão, o desafio é aprimorar a detecção dessas CME furtivas antes que cheguem ao nosso entorno espacial.

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