Mesmo com chance “muito, muito baixa”, o cometa 3I/ATLAS e outros objetos interestelares poderiam atingir a Terra a cerca de 72 km/s, com impactos mais prováveis no inverno do Hemisfério Norte e vindos do ápice solar e do plano galáctico
Um novo estudo aplicou simulações em larga escala para estimar como seriam os padrões de chegada de objetos interestelares caso algum deles, como o cometa 3I/ATLAS, colidisse com a Terra. A pesquisa não calcula a frequência desses eventos, mas descreve onde, quando e sob quais condições seriam mais prováveis.
Os resultados indicam que, embora o risco seja considerado “muito, muito baixa”, as velocidades envolvidas seriam extremamente altas. A velocidade mais provável no momento do impacto seria de cerca de 72 km/s, um valor superior ao da maioria dos meteoros que se originam no próprio Sistema Solar. Isso significa que mesmo objetos pequenos poderiam causar estragos significativos ao atingir o planeta.
Para chegar a essas conclusões, os autores criaram uma população virtual gigantesca de visitantes interestelares, totalizando 2,6 × 10¹⁰ objetos sintéticos, e rodaram milhões de trajetórias possíveis, levando em conta o movimento típico de estrelas anãs M, as mais comuns na Via Láctea.
Impacto hipotético do cometa 3I/ATLAS: o que o estudo permite inferir
O cometa 3I/ATLAS foi confirmado em 2025 como um visitante de fora do Sistema Solar, exibindo trajetória hiperbólica e velocidade muito alta, da ordem de 58 km/s. Embora o estudo não modele especificamente o 3I/ATLAS caindo na Terra, ele mostra que, em um cenário hipotético de impacto, objetos interestelares tendem a chegar em velocidades altíssimas, com probabilidade concentrada em cerca de 72 km/s no choque.
Essa energia cinética elevada é o principal fator de risco. Segundo o trabalho, “mesmo que a chance de colisão seja considerada ‘muito, muito baixa’, a velocidade desses objetos é tão alta que até um pequeno poderia causar um estrago significativo”. Em termos práticos, a consequência é que tamanho não é tudo quando se trata de impacto interestelar, já que a velocidade multiplica o dano potencial.
Outro ponto relevante é a geometria da chegada. As simulações sugerem que esses impactos se concentrariam em baixas latitudes, especialmente perto da Linha do Equador, onde a configuração orbital favorece encontros mais diretos. Há ainda uma leve preferência pelo Hemisfério Norte, pois o ápice solar fica acima do plano equatorial.
De onde e quando viriam: ápice solar, plano galáctico e sazonalidade
Os objetos que conseguiriam atingir a Terra não chegam de forma totalmente aleatória. A simulação revelou um padrão direcional influenciado pelo movimento do Sol na galáxia e pela distribuição estelar da Via Láctea. O fluxo de visitantes com potencial de impacto é “cerca de duas vezes maior” em duas regiões específicas do céu: a direção do ápice solar, para onde o Sol se desloca, e o plano galáctico, onde se concentra a maior parte das estrelas.
Além disso, o risco, ainda que muito baixo, varia com a estação. No inverno do Hemisfério Norte, os impactos são mais prováveis, já que a Terra fica voltada para a direção do antápice, o ponto oposto ao movimento do Sol. Essa configuração aumenta o tempo em que os objetos ficam “focalizados” pela gravidade solar, ampliando as chances de cruzarem a órbita terrestre.
Curiosamente, não é no inverno que ocorreriam os impactos mais violentos. Os objetos mais rápidos, que carregam mais energia, tendem a chegar na primavera do Hemisfério Norte, quando a Terra se move em direção ao ápice solar e encontra esses visitantes de frente, elevando a velocidade relativa no impacto.
Por que os mais lentos acertam mais: foco gravitacional e pistas dos “3 interestelares”
Um dos achados mais interessantes do estudo é que os objetos interestelares que conseguiriam atingir a Terra tendem a ser mais lentos do que a população geral. O motivo é o foco gravitacional: a gravidade do Sol curva a trajetória principalmente dos objetos mais lentos, aumentando a chance de cruzarem a órbita terrestre. Com isso, a maioria passa pelo periélio, o ponto de maior aproximação do Sol, perto de 1 unidade astronômica, a mesma distância média da Terra ao Sol.
Os dados observacionais recentes reforçam a diversidade desses visitantes. Nos últimos anos, três objetos interestelares foram confirmados: 1I/‘Oumuamua (2017), 2I/Borisov (2019) e 3I/ATLAS (2025). Todos exibiram trajetórias hiperbólicas e altas velocidades: cerca de 26 km/s para ‘Oumuamua, 32 km/s para Borisov e 58 km/s para 3I/ATLAS.
O comportamento também foi distinto. ‘Oumuamua não mostrou coma visível, mas apresentou aceleração não gravitacional típica de cometas. Já Borisov exibiu uma coma rica em poeira e monóxido de carbono. Seus núcleos eram pequenos, cerca de 80 m no caso de ‘Oumuamua e aproximadamente 400 m em Borisov.
Essa variedade torna difícil prever o comportamento de um objeto específico, como o cometa 3I/ATLAS, em uma aproximação extrema. Ainda assim, o novo estudo ajuda a mapear velocidades esperadas, direções preferenciais e janelas do ano em que um impacto seria mais plausível. No fim das contas, os autores ressaltam que o trabalho não calcula quantos impactos realmente ocorreriam, limitando-se a estimar “como seria a distribuição esperada desses impactos”.
Em resumo, se um dia o cometa 3I/ATLAS ou outro objeto interestelar viesse a colidir com a Terra, as simulações indicam um cenário de altíssima velocidade, padrões de chegada previsíveis e efeitos potencialmente severos, ainda que a probabilidade de isso acontecer permaneça muito baixa.

