Pesquisadores avançam na criação em laboratório do sangue dourado, o raríssimo Rh nulo, com CRISPR, células-tronco e ensaios clínicos que podem transformar as transfusões
O sangue dourado, nome popular do Rh nulo, é o tipo sanguíneo mais raro do planeta. Estima-se que apenas cerca de 50 pessoas no mundo tenham esse fenótipo, o que equivale a uma a cada seis milhões de pessoas. A raridade extrema convive com um potencial clínico enorme, já que a ausência completa de antígenos do sistema Rhesus confere ao sangue dourado uma compatibilidade quase universal dentro deste sistema. As informações são da BBC.
Esse horizonte de compatibilidade amplia a utilidade em emergências, quando o tipo do paciente é desconhecido, reduzindo o risco de reações. Ao mesmo tempo, quem nasce com Rh nulo enfrenta um paradoxo, não pode receber transfusão de nenhum outro tipo, o que leva muitos a congelar o próprio sangue para uso futuro. Entre a urgência clínica e a oportunidade científica, laboratórios em vários países correm para fabricar sangue compatível de forma segura e escalável.
O que é o sangue dourado e por que ele é tão valioso
O sangue humano é classificado pela presença ou ausência de antígenos nas hemácias. Quando o sangue do doador traz antígenos que o receptor não possui, o sistema imunológico reage contra essas proteínas. No sangue dourado, a ausência total dos 50 antígenos do sistema Rhesus evita esse conflito, o que explica a compatibilidade ampliada no contexto do sistema Rh e o interesse em usá-lo como base para transfusões mais seguras.
Geneticamente, estudos indicam que o Rh nulo resulta de mutações na RHAG, uma glicoproteína associada ao Rhesus que é essencial para a expressão dos antígenos Rh. Alterações nessa proteína impedem a presença dos demais antígenos, dando origem ao fenótipo raríssimo. Esse fenômeno genético, extremamente incomum, ajuda a entender por que o sangue dourado desperta tanto interesse para criar hemácias universais e viabilizar terapias transfusionais mais seguras.
Como a ciência tenta fabricar sangue compatível em laboratório
Nos últimos anos, equipes em diferentes países vêm combinando edição genética, células-tronco e bioprocessos para produzir hemácias em laboratório. Em 2018, pesquisadores da Universidade de Bristol, no Reino Unido, conseguiram recriar o sangue Rh nulo em laboratório usando a técnica de edição genética Crispr-Cas9. De acordo com os relatos, eles removeram genes responsáveis pelos principais antígenos que causam incompatibilidades em transfusões, incluindo os sistemas ABO, Rh, Kell, Duffy e GPB. O resultado relatado foi um tipo de sangue com compatibilidade ampliada, inclusive com grupos raros como o Rh nulo e o fenótipo Bombaim.
Paralelamente, a startup Scarlet Therapeutics trabalha na criação de linhagens celulares raras a partir de doadores pouco comuns, buscando expandir a produção de hemácias cultivadas. Universidades e centros dos Estados Unidos, Canadá e Espanha apostam em células-tronco pluripotentes, que podem se transformar em diversos tecidos, com genes editados para remover antígenos indesejados. No Reino Unido, o ensaio clínico RESTORE já testa em humanos hemácias produzidas em laboratório, avaliando segurança, comportamento na circulação e eficiência transfusional.
Em todos esses esforços, a meta é aproximar a produção artificial das condições naturais da medula óssea, onde as hemácias amadurecem e ganham as propriedades adequadas para transportar oxigênio com estabilidade e durabilidade. Se esse processo se tornar reprodutível em escala, a oferta de sangue dourado e de hemácias com antígenos minimizados poderá mudar o padrão das transfusões, especialmente para quem vive com tipos raros e enfrenta filas por compatibilidade.
Desafios, próximos passos e o impacto para pacientes
Apesar do avanço acelerado, os cientistas reconhecem barreiras importantes. A principal limitação é a eficiência da produção, já que, mesmo com CRISPR e protocolos de diferenciação, as células podem não amadurecer totalmente ou se mostrar instáveis. Há ainda o custo elevado e a necessidade de anos de testes regulatórios antes de qualquer uso em larga escala. Reproduzir com fidelidade o microambiente da medula, com todos os sinais bioquímicos e mecânicos, segue como um dos maiores desafios técnicos.
Mesmo assim, cresce o consenso de que o sangue dourado pode inaugurar uma nova fase nas práticas de transfusão, com bancos de sangue raros cultivados em laboratório que atendam pacientes sem doadores compatíveis. Enquanto a produção escalável não chega, especialistas reforçam a importância das doações tradicionais para manter estoques seguros. Como resume um dos líderes das pesquisas, “Ainda dependemos de doadores humanos, mas a possibilidade de cultivar sangue raro em laboratório representa um avanço empolgante”, afirma Ash Toye.
O interesse científico também tem um fator social claro, reduzir riscos em emergências, ampliar a segurança em cirurgias complexas e oferecer alternativas para pessoas com fenótipos raríssimos. À medida que ensaios como o RESTORE acumulem dados e que empresas aperfeiçoem biorreatores e protocolos, a expectativa é que as primeiras indicações clínicas surjam em contextos específicos, como pacientes com imunização múltipla ou sem opções de doadores.
Na confluência entre genética, engenharia de tecidos e medicina transfusional, o sangue dourado se torna um símbolo do que a biotecnologia promete entregar, mais segurança, mais compatibilidade e respostas para desafios que a doação convencional não resolve sozinha. Se o ritmo atual se mantiver, fabricar hemácias com perfis antigênicos personalizados pode deixar de ser uma curiosidade de laboratório e se transformar em uma ferramenta clínica que salva vidas.

