Revenda de software usado no Reino Unido: tribunal veta bloqueio da Microsoft e abre caminho para licenças perpétuas, com disputa de £270 milhões

Microsoft não pode barrar revenda de software "usado", decide Reino Unido • Tecnoblog

Decisão do Tribunal de Apelações da Concorrência rejeita alegação de direitos autorais, reforça a revenda de software usado e fortalece o mercado secundário de licenças

A discussão sobre revenda de software usado ganhou um novo capítulo no Reino Unido após o Tribunal de Apelações da Concorrência decidir que a Microsoft não pode impedir a circulação de licenças perpétuas que já foram adquiridas e deixaram de ser utilizadas por organizações. A decisão, que repercute diretamente no mercado secundário de licenças, rejeitou a tentativa da empresa de fundamentar a proibição em direitos autorais, abrindo espaço para a continuidade desse tipo de operação no país.

O caso foi levado aos tribunais pela ValueLicensing, companhia especializada na revenda de software usado e que desde 2021 acusa a Microsoft de impor cláusulas contratuais ilegais que bloqueiam a transferência legítima de licenças já compradas. Além de buscar o reconhecimento do direito de atuar nesse mercado, a empresa também pleiteia uma indenização de 270 milhões de libras esterlinas, valor que, segundo a cobertura, equivale a R$ 1,87 bilhão.

O que está em jogo na decisão

A controvérsia gira em torno de licenças perpétuas, aquelas que não expiram e permitem o uso por tempo indeterminado. Ao contrário de assinaturas, esse modelo viabiliza a revenda de software usado quando uma organização deixa de precisar das licenças e decide realocá-las no mercado.

A ValueLicensing sustenta que as cláusulas que impedem a revenda, incluídas em contratos da Microsoft, são ilegais e causam prejuízos milionários, já que restringem a livre circulação de software adquirido de forma legítima. Após a decisão, a companhia comemorou, afirmando: “a ValueLicensing sempre acreditou que estava conduzindo um negócio legítimo, fundamentado nos princípios da Diretiva Europeia de Software”.

Do ponto de vista concorrencial, a decisão favorece um ambiente mais aberto para o mercado secundário, onde empresas podem otimizar custos, realocar ativos digitais e ampliar o acesso a soluções corporativas. Para compradores, a revenda de software usado pode representar economia, especialmente em suites como Microsoft Office, utilizadas em larga escala com apps como Word e Excel.

Direitos autorais, Office e o que o tribunal rejeitou

No decorrer do processo, a Microsoft alterou sua linha de defesa e passou a sustentar que a revenda de software usado violaria direitos autorais. Segundo a empresa, elementos criativos presentes em ferramentas do Office, como ícones, fontes e arquivos de ajuda, deveriam ser protegidos por copyright, o que justificaria as restrições contratuais impostas.

O tribunal, no entanto, não acolheu essa tese. A decisão indica que não há base suficiente para tratar tais elementos como impeditivos à revenda de licenças já adquiridas, o que enfraquece a estratégia jurídica da Microsoft para manter o bloqueio. Ao mesmo tempo, a decisão não encerra o debate técnico sobre propriedade intelectual em software, mas sinaliza que, no contexto específico do caso, o argumento de copyright não se sustenta como barreira para o mercado de revenda de software usado.

Procurada, a Microsoft afirmou ao veículo que cobre o caso: “discordamos da decisão e pretendemos recorrer”. A resposta deixa claro que a disputa jurídica deve se estender, mantendo o tema em evidência entre empresas que dependem de licenças perpétuas para gerir sua infraestrutura de TI.

Recurso, indenização e impacto para empresas

Mesmo com a vitória processual da ValueLicensing nesta etapa, a batalha está longe do fim. Além do recurso sinalizado pela Microsoft, os tribunais ainda devem avaliar o pedido de 270 milhões de libras esterlinas em indenização, valor descrito como equivalente a R$ 1,87 bilhão. Essa etapa é crucial porque pode estabelecer precedentes financeiros relevantes para o setor, incentivando outras empresas a litigarem por supostos danos causados por cláusulas restritivas.

Para organizações que compram, vendem ou realocam licenças, o cenário atual reforça a viabilidade da revenda de software usado, sobretudo em ambientes corporativos que herdaram bases extensas de licenças perpétuas. A continuidade desse mercado tende a aumentar a oferta e, potencialmente, pressionar preços, o que pode beneficiar especialmente pequenas e médias empresas que buscam reduzir custos sem migrar integralmente para modelos de assinatura.

Do lado da Microsoft, o caso destaca o desafio de equilibrar a proteção de propriedade intelectual com a realidade econômica de licenças já vendidas e não mais utilizadas. A insistência no argumento de direitos autorais evidencia a preocupação da companhia com a integridade de seu ecossistema de software, mas a leitura atual dos tribunais britânicos favorece a liberdade de circulação de produtos legítimos em um mercado secundário consolidado.

Enquanto o recurso não é analisado, a mensagem que chega ao mercado é clara: a revenda de software usado permanece uma prática juridicamente respaldada no Reino Unido, e o desfecho sobre a indenização à ValueLicensing pode redefinir incentivos econômicos para toda a cadeia de licenças corporativas.

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