Xiaomi prevê que o preço dos smartphones subirá no ano que vem, pressionado por chips de memória mais caros, demanda de data centers e corrida da inteligência artificial
A Xiaomi emitiu um aviso direto aos consumidores, apontando que o preço dos smartphones deve aumentar no ano que vem. O motivo central é a escalada de custos dos chips de memória, hoje em situação de oferta apertada diante do avanço dos data centers e da inteligência artificial, que consomem volumes crescentes desses componentes.
O cenário foi confirmado pelo presidente da companhia, Lu Weibing, em teleconferência de resultados com repórteres. Segundo ele, a pressão sobre a cadeia de suprimentos deve ser ainda mais intensa no próximo período em comparação com este ano, o que força ajustes de preço nos aparelhos e desafia as margens de lucro do setor móvel.
Weibing reconheceu que, mesmo com aumento de preços, a conta do insumo pode não fechar. Em suas palavras, “Parte dessa pressão pode ter que ser enfrentada por meio de aumentos de preços, mas esses aumentos por si só não serão suficientes para absorvê-la.”, disse Lu Weibing, presidente da Xiaomi, à Reuters. A fala sintetiza o dilema atual de fabricantes, que disputam componentes críticos com gigantes de nuvem e IA.
Demanda por IA e data centers encarece chips de memória
A expansão acelerada de aplicações de IA generativa e o crescimento dos data centers elevaram a disputa por chips de memória a novos patamares. Esses componentes, essenciais para servidores que treinam e rodam modelos de IA, também equipam celulares, o que cria um choque direto entre o varejo de eletrônicos e a infraestrutura corporativa.
Com a corrida por capacidade computacional em alta, empresas priorizam garantir fornecimento futuro, o que retroalimenta a escassez e empurra os preços dos chips para cima. Nesse contexto, o preço dos smartphones tende a refletir a pressão, já que memória DRAM e NAND representam parcela relevante do custo de produção dos aparelhos.
A perspectiva da Xiaomi é de que essa pressão seja ainda mais forte no próximo ano do que neste, elevando o custo total do dispositivo e exigindo reajustes no varejo. Ainda assim, a empresa indica que a alta dos componentes pode superar o repasse possível ao consumidor, comprimindo margens.
Impacto no varejo, números da Xiaomi e reação do mercado
O efeito imediato deve ser um aumento perceptível no preço dos smartphones vendidos ao público. A própria Xiaomi já enfrentou críticas recentemente após o reajuste do Redmi K90, sinal de que a mudança de patamar de custos vem chegando às prateleiras.
Mesmo sob esse ambiente competitivo, a companhia reporta volume robusto. Foram 43,3 milhões de smartphones vendidos globalmente, crescimento de 0,5% em relação ao ano passado, mantendo a marca na 3ª posição do mercado global. No acumulado mais recente, a receita subiu 22,3%, para 113,1 bilhões de yuans, número abaixo da expectativa de analistas, de 116,5 bilhões de yuans.
Para diluir riscos e capturar novas fontes de receita, a Xiaomi vem reforçando frentes como veículos elétricos e soluções de inteligência artificial. Em comunicado, a empresa atribuiu parte do crescimento a essas linhas, que ganham tração e podem reduzir a dependência exclusiva do ciclo de smartphones.
Outras fabricantes também se movem diante do mesmo choque de oferta. A Samsung, por exemplo, pretende redirecionar capacidade para memórias de alta largura de banda, reduzindo a produção de chips voltados a celulares para atender sobretudo a indústria de IA. A reconfiguração tende a priorizar onde a demanda é mais intensa, reforçando a competição por insumos e, por consequência, o custo.
O que esperar para o próximo ano e como isso afeta o consumidor
Para o consumidor, a tendência é de ver o preço dos smartphones subir em diferentes faixas, dos modelos de entrada aos topo de linha, conforme a pressão dos chips de memória se espalha pela cadeia. O ritmo e a intensidade dos reajustes podem variar por marca e região, mas o consenso entre executivos do setor é de que a correção é inevitável enquanto perdurar a escassez e a corrida por capacidade para IA.
No curto prazo, fabricantes devem calibrar portfólios, priorizando modelos e mercados com melhor equilíbrio entre custo e demanda. Para a Xiaomi, a prioridade é proteger competitividade, mesmo que aumentos de preço não sejam suficientes para absorver integralmente o choque de custos, como reconheceu Lu Weibing. O movimento reforça um novo patamar de preços para parte do mercado.
Em paralelo, o avanço da própria IA nos celulares, com recursos embarcados e processamento on-device, tende a demandar mais memória e armazenamento, o que também influencia custos futuros. Até que a oferta de chips de memória se normalize, a projeção de executivos é de um ambiente de preços firmes e repasses graduais ao consumidor, mantendo o preço dos smartphones em alta no próximo ciclo.

