Descoberta reforça a importância do Forte Bremenium e revela detalhes inéditos sobre a presença romana no norte da Inglaterra
Uma pedra preciosa única, gravada com uma cena de colheita de uvas que remete à mitologia romana, veio à luz durante escavações no Forte Bremenium, no norte da Inglaterra. O achado, considerado o primeiro do tipo na Grã-Bretanha, também é inédito no nordeste da Europa, e amplia o entendimento sobre a circulação de pessoas, símbolos e objetos de prestígio ao longo das fronteiras do Império Romano.
Localizado a 39 quilômetros da Muralha de Adriano, o forte teve papel estratégico entre o fim do século I d.C. e o século III, abrigando guarnições e servindo como ponto de comunicação após a conclusão da muralha em 128 d.C.. Desde 2021, pesquisadores vêm concentrando escavações nas estruturas externas do acampamento principal, que foram construídas e reconstruídas diversas vezes.
O que a gravura revela sobre a vida e a mitologia romanas
O artefato impressiona pela iconografia: duas figuras de cupidos alados aparecem colhendo uvas em uma árvore, enquanto uma criatura semelhante a uma cabra se ergue sobre as patas traseiras para alcançar os cachos. A cena, ligada ao universo de Baco, a colheitas e ao ciclo da abundância, era popular em regiões do Mediterrâneo, mas é rara no norte da Europa. A combinação de elementos mitológicos e agrícolas sugere uma peça de forte valor simbólico, associada a prosperidade, festa e identidade cultural.
Segundo os pesquisadores, a gema, de tom avermelhado, provavelmente compunha um anel de sinete, utilizado para selar correspondências com um carimbo pessoal. Em palavras da cobertura internacional, “De acordo com o portal Live Science, a pedra apresenta um tom avermelhado e provavelmente foi criada como parte de um anel romano usado para o carimbo de correspondência pessoal”. A qualidade do entalhe e a escolha do motivo indicam um proprietário com status e repertório visual ligados ao mundo romano clássico.
Por que a peça é tão rara no norte da Europa
Especialistas destacam que a pedra preciosa única tem paralelos na Itália setentrional e na Croácia, mas quase não aparece em contextos britânicos. Essa distribuição geográfica reforça a hipótese de que o dono do anel tenha vindo do Mediterrâneo, ou ao menos mantido conexões culturais e comerciais com aquela região. O motivo com cupidos, vinhedos e cabra sugere a circulação de artesãos, mercadores ou oficiais romanos que traziam consigo objetos, estilos e crenças.
A raridade no norte europeu aumenta a relevância do achado em Bremenium, pois ajuda a preencher lacunas sobre a vida cotidiana nas fronteiras do império. Em uma síntese fornecida pela cobertura, os pesquisadores enfatizam que o “Artefato apresenta inscrições que retratam a colheita de uvas em uma imagem que remete à mitologia da era romana”, confirmando que não se trata apenas de luxo, mas de um emblema identitário com significado religioso e social.
As escavações em Bremenium e os próximos passos
O Forte Bremenium foi erguido no final do século I d.C. e operou como peça-chave para operações militares na região hoje próxima à fronteira com a Escócia. Com a conclusão da Muralha de Adriano em 128 d.C., o sítio ganhou relevância como posto de comunicações, integrando uma rede de alerta e abastecimento ao longo da fronteira romana.
Desde 2021, a equipe arqueológica concentra esforços nas estruturas periféricas do forte. As intervenções já revelaram, além da pedra preciosa única, um forno antigo possivelmente utilizado na produção de materiais para erguer as muralhas e defesas do complexo. As camadas arqueológicas mostram fases de construção e reconstrução entre o final do primeiro e o terceiro século, sinalizando adaptações às necessidades militares e logísticas.
Os pesquisadores planejam retornar ao local no próximo ano, com foco em áreas que podem guardar novos artefatos e evidências da vida material dos ocupantes do forte. A expectativa é que a continuidade das escavações forneça pistas sobre rotas de aprovisionamento, contatos culturais com o Mediterrâneo e o cotidiano das guarnições estacionadas ao norte da Muralha de Adriano.
Para a arqueologia britânica, a descoberta da pedra preciosa única em Bremenium é um lembrete da amplitude do império e da complexa rede de influências que moldou a fronteira romana. Cada novo achado acrescenta um fragmento de história, permitindo reconstruir com mais precisão a presença de indivíduos, crenças e objetos que conectaram a Grã-Bretanha romana ao vasto mundo mediterrâneo.

