Pedra do Destino: nova pesquisa revela para onde foram os fragmentos após o roubo de 1950 e como eles rodaram o mundo

Pedra do Destino: enfim sabemos o que aconteceu após o roubo de 1950

Universidade de Stirling rastreia 34 fragmentos distribuídos por Robert Gray e reconstrói a jornada da Pedra do Destino, de joias a museus e à política

A história da Pedra do Destino, também conhecida como Pedra de Scone, ganhou um novo capítulo. Uma investigação liderada pela Universidade de Stirling, na Escócia, reuniu pistas espalhadas por arquivos, coleções e relatos familiares para revelar o caminho de fragmentos do artefato após o famoso roubo de 1950. O estudo explica como pedaços gerados no reparo da pedra, que se partiu ao ser retirada da Abadia de Westminster, foram numerados, distribuídos e preservados como relíquias, alguns transformados em joias e outros guardados em instituições culturais.

Na manhã de Natal de 1950, estudantes nacionalistas escoceses removeram a Pedra do Destino da Cadeira da Coroação, em Londres. No transporte, o bloco se quebrou em dois, e o conserto gerou pequenos fragmentos. Em abril de 1951, por decisão dos envolvidos, a pedra foi devolvida às autoridades na Abadia de Arbroath, mas o paradeiro das lascas menores permaneceu envolto em mistério por décadas.

A nova pesquisa indica que o escultor de monumentos e político liberal Robert Gray, que teria incentivado o roubo, conduziu uma restauração e catalogou parte desses resíduos. O trabalho agora detalha quem recebeu os fragmentos, por que eles foram ofertados e como acabaram se espalhando entre famílias, museus e figuras públicas, dentro e fora da Escócia.

Como os fragmentos foram parar pelo mundo

De acordo com a investigação, Robert Gray numerou e selecionou cuidadosamente 34 fragmentos gerados na reparação da Pedra do Destino, além de separar outras lascas não numeradas. Ele presenteou essas peças a familiares, aliados políticos e jornalistas, muitas vezes acompanhando o gesto com cartas de autenticidade. Ao longo do tempo, os fragmentos passaram de geração em geração, alguns moldados em joias e outros preservados como relíquias domésticas.

Um dos estudantes envolvidos no furto, Ian Hamilton, recebeu um fragmento e o incorporou em um broche de prata oferecido à esposa, Sheila, como presente de aniversário. Em outro caso, Gray deu um pedaço a uma turista australiana, Catherine Milne, com a intenção declarada de espalhar a “missão” por todos os continentes. Após a morte de Milne, em 1967, o fragmento foi doado ao Museu de Queensland, na Austrália, onde permanece documentado.

A rede política do pós-guerra também surge no rastreamento. Gray era braço direito de John MacCormick, liderança do Pacto Nacional pela independência escocesa. O filho de MacCormick presenteou, em 2008, o ex-primeiro-ministro escocês Alex Salmond com um fragmento que pertencia à sua mãe. A peça foi exibida na sede do SNP, o Partido Nacional Escocês, e entregue em 2014 aos Comissários para a Salvaguarda das Insígnias Reais, que, segundo o estudo, ainda não decidiram seu destino.

Outras histórias ajudam a dimensionar o alcance simbólico desses fragmentos da Pedra do Destino. A política nacionalista Winnie Ewing usou um medalhão com um chip em uma entrevista de 1967 ao apresentador David Frost, declarando que não se importaria em ser presa por portar “propriedade roubada”. Já o jornalista canadense Dick Sanburn, editor do Calgary Herald, mantinha seu fragmento exposto sobre a mesa como um troféu.

Por que a Pedra do Destino importa

As origens da Pedra do Destino são incertas, mas sua função é central na história da Escócia. O artefato foi usado nas coroações dos reis escoceses a partir de 1249, até ser confiscado por Eduardo I da Inglaterra, em 1296, e colocado no Santuário de Santo Eduardo, o Confessor, na Abadia de Westminster. Desde o século XIV, o bloco tornou-se parte do rito de coroação britânico, simbolizando a autoridade sobre a Escócia.

A professora Sally Foster, da Faculdade de Artes e Humanidades da Universidade de Stirling, resume o impacto do roubo de 1950: “Esta não é uma pedra qualquer. Quando nacionalistas escoceses a retiraram à força da Cadeira da Coroação e a esconderam da Abadia de Westminster, em Londres, isso causou o fechamento da fronteira anglo-escocesa pela primeira vez em 400 anos, porque, desde o século XIV, quase todos os monarcas ingleses, posteriormente britânicos, sentavam-se sobre a Pedra durante sua coroação, em um ato que simbolizava a subjugação dos escoceses”.

O uso da Pedra do Destino na coroação do Rei Charles reacendeu o interesse acadêmico e público, levando a uma onda de novos estudos históricos e científicos. Foi nesse movimento que os pequenos fragmentos, por muito tempo negligenciados, voltaram ao centro do debate.

Onde está a Pedra do Destino hoje e o que vem a seguir

Atualmente, a Pedra do Destino está no Castelo de Edimburgo, na Escócia, embora seja transportada a Londres sempre que um novo monarca é coroado. O roubo de 1950 não gerou processos criminais, segundo os registros, porque foi decidido que não seria do interesse público levar o caso adiante.

No curso da pesquisa sobre os fragmentos, a professora Sally Foster relatou uma mobilização espontânea: “Desde que minhas descobertas começaram a surgir, muitos membros do público entraram em contato comigo compartilhando o conhecimento de suas famílias sobre fragmentos de pedra que considero confiáveis, frequentemente acompanhados de evidências que as corroboram.” Com isso, a equipe ampliou o mapeamento, cruzando documentos, relatos orais e acervos de museus para consolidar uma base de evidências.

Embora parte das peças com procedência conhecida tenha sido encaminhada para coleções e órgãos oficiais, como no caso do fragmento ligado a MacCormick e a Alex Salmond, ainda há incertezas sobre o destino de outros. A continuidade do estudo promete revelar novas conexões entre famílias, instituições e a própria história nacional, reforçando por que a Pedra do Destino continua sendo um símbolo carregado de memória, identidade e disputa política.

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