ENIAC, apresentado em 1946, foi criado para acelerar cálculos balísticos, pesava 30 toneladas e consumia 150 kW; entenda por que ele é considerado o primeiro computador eletrônico
O que é ENIAC e por que ele ainda importa? O ENIAC, sigla de Electronic Numerical Integrator and Computer, é amplamente considerado o primeiro computador eletrônico da história, apresentado oficialmente em 1946. Concebido para fins militares, ele provou que era possível automatizar cálculos complexos em uma escala e velocidade que nenhum humano, mesmo com calculadora, conseguiria atingir.
Desenvolvido nos Estados Unidos por John Mauchly e J. Presper Eckert, o ENIAC nasceu em plena Segunda Guerra Mundial para resolver um gargalo vital: cálculos balísticos lentos e trabalhosos. Como reforça o Tecnoblog, “O ENIAC foi criado para acelerar os cálculos balísticos em meio à Segunda Guerra Mundial, com o objetivo de auxiliar tropas dos EUA”.
História do ENIAC: da guerra às universidades
Nos anos 1940, um grupo de mulheres, conhecidas como “computadoras”, fazia à mão equações complexas para calcular velocidades e trajetórias de bombas e mísseis. Com a demanda crescente e a variabilidade das condições de tiro, o físico John Mauchly e o engenheiro J. Presper Eckert propuseram uma máquina eletrônica para acelerar esse trabalho.
Em 1943, o projeto do ENIAC foi contratado pelo Laboratório de Pesquisa Balística (BRL) das Forças Armadas dos EUA e iniciado na Escola Moore de Engenharia Elétrica da Universidade da Pensilvânia. Mauchly concentrou-se em tecnologias mecânicas e em válvulas eletrônicas, enquanto Eckert liderou a engenharia para garantir a confiabilidade do sistema.
Seis programadoras foram decisivas na concepção e operação, as célebres “seis do ENIAC”: Kathleen McNulty Mauchly Antonelli, Jean Jennings Bartik, Frances (Betty) Snyder Holberton, Marlyn Wescoff Meltzer, Frances Bilas Spence e Ruth Lichterman Teitelbaum. Elas migraram dos cálculos manuais para o desenvolvimento e a programação da máquina.
O anúncio oficial veio em 14 de fevereiro de 1946. Como registra o Tecnoblog, “Em 14 de fevereiro de 1946, o ENIAC foi oficialmente anunciado como uma máquina capaz de executar cálculos matemáticos complexos com velocidades eletrônicas”. Embora tenha sido apresentado após o fim da guerra, o ENIAC operou por nove anos, até ser desativado e desmontado em 1955.
Como o ENIAC funcionava: hardware, programação e números
O ENIAC ocupava cerca de 135 m², com 40 painéis em forma de U somando aproximadamente 24 metros de comprimento. A estrutura pesava cerca de 30 toneladas e consumia 150 quilowatts. Em seu interior havia 18 mil válvulas eletrônicas, 70 mil resistores e 10 mil capacitores, um arranjo que exigia manutenção constante e uma infraestrutura elétrica robusta.
Antes de qualquer execução, as programadoras mapeavam as instruções no papel, um trabalho que podia levar semanas. Em seguida, vinham os ajustes físicos: era necessário configurar interruptores e realizar conexões cabeadas para que o computador obedecesse ao fluxo de instruções.
Os dados entravam por meio de um leitor de cartões perfurados da IBM, que traduzia números e variáveis para a “linguagem do ENIAC” e, ao final, gerava saídas também em cartões. A “memória interna” incluía vinte acumuladores de 10 dígitos e cerca de seis mil interruptores, além de cabos, acumuladores e transmissores constantes. O processamento ocorria via impulsos elétricos, numa arquitetura totalmente programada por hardware.
A cada novo problema, o ENIAC precisava ser reprogramado manualmente, repetindo todo o ciclo. Isso o tornava poderoso para sua época, porém trabalhoso e pouco flexível sob a ótica atual.
Capacidades, limitações, primeiros programas e legado para os PCs
Em termos de operações, o Tecnoblog ressalta que “O ENIAC era restrito a cálculos de soma, subtração, multiplicação e divisão”. Ainda assim, a máquina realizava cerca de 5.000 adições por segundo e resolvia cálculos balísticos que levavam 12 horas em uma calculadora em apenas 30 segundos.
Suas limitações eram claras: a memória interna armazenava cerca de 20 números de 10 dígitos, valor minúsculo quando comparado a qualquer hardware atual. Além disso, a reprogramação manual a cada novo cálculo exigia planejamento detalhado e semanas de preparação, da validação no papel aos ajustes de chaves e cabos.
O primeiro programa do ENIAC simulou explosões termonucleares. Importa frisar que a máquina não rodou um software no sentido moderno, mas foi configurada fisicamente para executar cálculos de fissão nuclear. Ao longo dos anos, também contribuiu com previsão do tempo, estudos de raios cósmicos e números aleatórios, além de pesquisas sobre energia atômica e ignição térmica.
O impacto do ENIAC foi abrir caminho para a computação eletrônica, provando a viabilidade de máquinas capazes de automatizar tarefas críticas. Seu legado inspirou o desenvolvimento de computadores menores, baratos e confiáveis, culminando nos computadores pessoais. Um marco dessa transição foi o Kenbak-1, considerado o primeiro PC da história, criado em 1971, com um processador de oito bits e foco no uso individual, em forte contraste com o tamanho e a operação baseada em switches e cabos do ENIAC.
Embora desativado, o ENIAC ainda pode ser visto parcialmente: painéis originais estão expostos no Edifício Moore, na Universidade da Pensilvânia, e outras partes foram para instituições como o Instituto Smithsonian e a Academia Militar de West Point. Para quem busca entender a origem dos PCs, olhar para o ENIAC é revisitar o momento em que a computação deixou o papel e, pela primeira vez, ganhou velocidade eletrônica e escala.

