Um novo levantamento realizado pela C de Cultura, em parceria com a Outra Onda Conteúdo e a PUC/RS, mostra que a preocupação com as mudanças climáticas já está consolidada entre os brasileiros. Segundo o estudo, 82,1% da população demonstra preocupação com a crise climática, o que reforça a centralidade do tema no debate público. Ao mesmo tempo, os dados indicam que a forma como o assunto é percebido e priorizado varia conforme a posição política, e que a cultura vem se tornando uma aliada estratégica para a conscientização e a mobilização.
Os pesquisadores ressaltam que a percepção de risco associada ao aquecimento global convive com sentimentos de ansiedade e incerteza, ao passo que a participação em atividades culturais, a confiança na ciência e a busca por informação qualificada se mostram vetores importantes de engajamento. O estudo será apresentado durante a COP30, em Belém, o que amplia a visibilidade do tema em um momento em que governos, empresas e sociedade civil discutem metas de sustentabilidade e justiça climática.
Preocupação cresce, junto com a sensação de impotência
Os resultados do levantamento revelam uma população atenta aos impactos das mudanças climáticas, porém dividida entre a urgência de agir e a dificuldade de visualizar caminhos práticos. O estudo registra que “Entre os entrevistados, 53,4% afirmaram estar “profundamente preocupados” com as mudanças climáticas. Ainda assim, 52,4% disseram se sentir impotentes diante da crise ambiental.” O contraste entre a alta preocupação e a sensação de impotência sugere um desafio de comunicação pública e de políticas que convertam a atenção já existente em ações consistentes.
De acordo com a diretora-executiva da C de Cultura, Mariana Resegue, esse descompasso reflete a falta de orientação concreta sobre como cada pessoa pode contribuir de maneira efetiva no dia a dia. Ainda assim, há sinais claros de engajamento informacional. O estudo aponta que 54,6% dos participantes buscam se informar sobre mudanças climáticas por meio de produtos e instituições culturais, um dado que reforça a potência da cultura na tradução de evidências científicas para públicos diversos.
O tema chega à agenda pública impulsionado por eventos extremos mais visíveis e pela ampla cobertura de mídia. Nesse contexto, a prioridade é transformar a preocupação com a crise climática em atitudes cotidianas e participação cívica, conectando ciência, cultura e políticas públicas.
A força da cultura na conscientização climática
Uma das conclusões mais robustas do estudo é a centralidade do setor cultural na educação climática. Os pesquisadores apontam, de forma textual, que “Segundo os pesquisadores, a cultura desempenha papel central na conscientização ambiental.” Esse papel se materializa quando atividades culturais, como exposições, filmes, peças de teatro, podcasts e eventos em centros culturais, ajudam a tornar o tema mais próximo e compreensível.
Os dados reforçam essa leitura com indicadores específicos: “A pesquisa destaca que 83,5% dos entrevistados acreditam que atividades culturais ajudam na compreensão do problema e 73,3% enxergam nelas ferramentas para enfrentar a crise climática. Além disso, 62,6% afirmam já ter mudado hábitos ambientais ou sociais após se inspirarem em obras culturais.” Esses percentuais mostram que a cultura não apenas informa, mas também influencia mudanças de comportamento, gerando um ciclo virtuoso de consciência, debate público e ação coletiva.
Para os organizadores, o fortalecimento de pontes entre ciência e sociedade por meio da cultura é decisivo para popularizar conceitos, desmistificar falsas controvérsias e ampliar a adesão a práticas sustentáveis. Nesse sentido, campanhas educativas, mostras itinerantes e parcerias com escolas e comunidades podem acelerar a tradução da ciência do clima em escolhas concretas de consumo, mobilidade e uso de recursos.
Política, COP30 e o papel de comunidades tradicionais
O estudo também observa diferenças de engajamento conforme a orientação política, o que tem impacto direto nas prioridades eleitorais e no apoio a políticas de sustentabilidade. O levantamento registra que “Quase 90% dos entrevistados defendem que políticos adotem compromissos com sustentabilidade e justiça social, número que chega a 98,8% entre pessoas de esquerda, mas cai para 52,1% entre as de direita.” Além disso, 55,1% dos eleitores de esquerda consideraram o tema climático decisivo em 2024, enquanto 40,4% dos de direita fizeram o mesmo.
As percepções sobre comunidades tradicionais também se destacam. De acordo com o estudo, 77,5% dos entrevistados reconhecem que povos indígenas e quilombolas podem contribuir no combate à mudança climática, mas apenas 34,3% os percebem como mais vulneráveis aos efeitos da crise. O dado sugere a necessidade de aprofundar a compreensão pública sobre vulnerabilidades socioambientais e sobre como políticas de adaptação e resiliência devem considerar contextos territoriais, culturais e históricos.
Na agenda internacional, a COP30, que acontece em Belém, consolida o Brasil como palco de discussões estratégicas sobre transição ecológica e financiamento climático. Segundo os organizadores do estudo, “os resultados indicam que a cultura pode ser uma ponte entre ciência e sociedade, fortalecendo a mobilização diante dos desafios ambientais.” O documento completo será apresentado durante a conferência, que, de acordo com as informações, teve início nesta segunda-feira, dia 10, e segue até 21 de novembro, ampliando a oportunidade de conectar ciência, cultura e políticas públicas.
Com o avanço da preocupação popular, a combinação entre mudanças climáticas no centro do debate, linguagem acessível e experiências culturais transformadoras aparece como um caminho promissor para reduzir a sensação de impotência, engajar novos públicos e acelerar soluções de mitigação e adaptação no país.

