Meta teria ocultado impactos na saúde mental de usuários, dizem documentos de ação de distritos escolares, e encerrou estudo ‘Projeto Mercúrio’

Meta teria ocultado evidências sobre impactos na saúde mental de usuários

Papéis judiciais nos EUA alegam que a empresa ocultou impactos na saúde mental e enfraqueceu a segurança para menores, enquanto a Meta nega e aponta falhas na metodologia

Documentos apresentados em um processo movido por distritos escolares nos Estados Unidos afirmam que a Meta teria escondido evidências sobre impactos na saúde mental de usuários, sobretudo de crianças e adolescentes. Segundo os autores, papéis internos descrevem que a própria companhia conduziu o “Projeto Mercúrio”, que indicou efeitos negativos associados ao uso de redes sociais como o Facebook.

De acordo com o material citado na ação, após conclusões consideradas desfavoráveis, a pesquisa foi interrompida e seus resultados não foram divulgados publicamente. Em paralelo, a firma de advocacia Motley Rice move processos contra Meta, Google, TikTok e Snapchat em nome de distritos escolares, alegando que essas empresas ocultaram potenciais riscos de seus produtos de usuários, pais e professores, e que priorizaram crescimento e engajamento.

O que mostram os documentos e o ‘Projeto Mercúrio’

Os documentos apontam que um estudo interno da Meta, o “Projeto Mercúrio”, trouxe achados sensíveis sobre impactos na saúde mental. Em um trecho citado na ação, o relatório interno registrou que “pessoas que pararam de usar o Facebook por uma semana relataram menor sensação de depressão, ansiedade, solidão e comparação social”. Ainda segundo os papéis, a pesquisa teria sido descontinuada após as conclusões negativas e seus resultados não foram publicados.

Em resposta, a Meta afirma que suspendeu o estudo por questões de método. Em comunicado de sábado, o porta-voz Andy Stone disse que “o estudo foi interrompido porque sua metodologia era falha e que a empresa trabalhou para melhorar a segurança de seus produtos”. A companhia sustenta que investe de forma contínua em recursos de segurança infantil e ferramentas para pais e responsáveis, negando ter escondido evidências sobre impactos na saúde mental.

Acusações específicas contra a Meta

Segundo informações citadas pelos autores e atribuídas a documentos internos, com referência da Reuters, as acusações contra a Meta são mais detalhadas que as de outras plataformas. Uma das passagens diz que a empresa exigia que usuários fossem flagrados 17 vezes tentando traficar pessoas para exploração sexual antes de removê-los da plataforma, o que um documento descreveu como “um limite de infrações muito, muito, muito alto”. A Meta também teria, de acordo com a ação, projetado recursos de segurança para jovens de forma a serem pouco eficazes e raramente utilizados.

Os papéis ainda dizem que a companhia reconheceu internamente que otimizar produtos para elevar o engajamento de adolescentes poderia resultar em oferta de conteúdo mais prejudicial, porém que avançou nessa direção mesmo assim. Outra alegação é de que a Meta teria atrasado por anos esforços para impedir que predadores contatassem menores, por receio de afetar o crescimento, além de pressionar equipes internas de segurança a apresentarem justificativas para a decisão de não agir de imediato. Todas essas afirmações são apresentadas pelos autores como evidências de que a empresa priorizou métricas de crescimento frente a riscos e impactos na saúde mental de jovens usuários.

O que dizem Mark Zuckerberg e a Meta

Os documentos mencionam ainda uma mensagem de texto de 2021 atribuída a Mark Zuckerberg, na qual ele teria dito que não diria que a segurança infantil era sua principal preocupação “quando tenho várias outras áreas em que estou mais focado, como construir o metaverso”. O material também relata pedidos do então chefe de políticas públicas globais da Meta, Nick Clegg, por mais financiamento para segurança infantil, que teriam sido rejeitados ou ignorados.

A Meta contesta a narrativa apresentada no processo. Além de reiterar que o “Projeto Mercúrio” foi interrompido por falhas metodológicas, a empresa afirma que a ação deturpa seus esforços, destacando que desenvolve ferramentas de controle parental e recursos específicos para proteger adolescentes e crianças. O porta-voz da companhia sustenta que as medidas implementadas são amplamente eficazes e que o compromisso com a segurança é contínuo, rechaçando a acusação de ter escondido impactos na saúde mental de seus produtos.

Os documentos internos da Meta citados pelos autores não são públicos, e a empresa entrou com uma moção para retirar o material do processo. Uma audiência está marcada para 26 de janeiro no Tribunal Distrital do Norte da Califórnia, etapa em que o juiz deverá avaliar a manutenção das peças no caso e os próximos passos. Até lá, as alegações permanecem sob disputa judicial, e não há decisão sobre o mérito.

Além da Meta, os autores sustentam que Google, TikTok e Snapchat também teriam ocultado riscos potenciais de suas plataformas, inclusive durante o horário escolar, e que teriam incentivado o uso por menores de 13 anos e falhado no combate a conteúdo de abuso sexual infantil. As empresas citadas contestam acusações semelhantes e afirmam ter políticas e tecnologias para reduzir danos, reforçando que seguem trabalhando para mitigar riscos, incluindo potenciais impactos na saúde mental de seus públicos mais jovens.

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