Papéis internos relatam 15 bilhões de anúncios fraudulentos por dia entre 2021 e 2024, além de metas para reduzir a fatia de golpes na receita, enquanto a empresa contesta e afirma combater fraudes de forma agressiva
Documentos internos citados pela Reuters indicam que a Meta, dona de Facebook, Instagram e WhatsApp, obteve em 2024 cerca de 10% de sua receita com anúncios fraudulentos e produtos proibidos, o equivalente a US$ 16 bilhões (mais de R$ 85 bilhões). Os arquivos, que abrangem áreas de finanças, segurança e engenharia, sugerem que a plataforma manteve uma enorme base de anunciantes suspeitos, apesar de políticas de moderação e mecanismos de detecção.
Segundo a agência, entre 2021 e 2024, a empresa teria exibido aproximadamente 15 bilhões de anúncios fraudulentos por dia. Os mesmos relatórios estimam uma arrecadação anual de US$ 7 bilhões (R$ 37 bilhões) especificamente com campanhas classificadas como de alto risco, aquelas com indícios claros de golpe. A Meta contesta a interpretação dos dados e afirma que combate abusos intensamente.
O que os documentos mostram sobre a escala dos anúncios fraudulentos
Os relatórios internos, conforme descritos pela Reuters, detalham o tamanho do problema dos anúncios fraudulentos nas plataformas da Meta. A indicação de 15 bilhões de exibições diárias para conteúdos suspeitos entre 2021 e 2024 ajuda a dimensionar o desafio de moderar publicidade em larga escala. Mesmo quando parte dessas exibições é neutralizada por bloqueios e quedas de desempenho em campanhas, os dados apontam para impacto financeiro relevante.
Além da publicidade paga, há um contingente ainda maior de fraude orgânica, que não envolve pagamento direto, como perfis falsos e golpes no Facebook Marketplace. Uma apresentação interna de dezembro de 2024, citada pela Reuters, estima que usuários das plataformas da Meta são expostos a 22 bilhões de tentativas de golpe por dia, o que pressiona os sistemas defensivos e os times de integridade.
Em outra frente, os documentos indicam que a empresa teria projetado internamente a relação entre risco regulatório e retorno financeiro. Estariam em consideração potenciais multas de até US$ 1 bilhão (R$ 5,3 bilhões), valor que, segundo os papéis, seria inferior ao lucro gerado pela manutenção de parte desses anúncios fraudulentos em circulação.
Como a Meta lida com anunciantes suspeitos, segundo a Reuters
A Reuters relata que, embora os sistemas internos da Meta sinalizem atividades potencialmente abusivas, a companhia adotaria um padrão rigoroso para banimento definitivo. Segundo os documentos mencionados, a remoção ocorrerá apenas quando houver pelo menos 95% de certeza de fraude. Enquanto isso, para quem não atinge esse limiar, mas é considerado provável golpista, a empresa teria aplicado taxas mais altas em leilões de anúncios, supostamente para dificultar a vida de atores mal-intencionados e reduzir a exposição dos usuários, ainda que a receita com anúncios fraudulentos continue existindo.
Os relatórios também apontam restrições orçamentárias aos times de segurança. No primeiro semestre de 2025, a equipe responsável por avaliar anunciantes questionáveis teria sido impedida de tomar medidas que pudessem custar à companhia mais de 0,15% da receita total, o que limitaria intervenções mais agressivas.
À Reuters, o porta-voz da Meta, Andy Stone, contestou a leitura dos dados, afirmando que os documentos apresentam uma "visão seletiva", que a estimativa é "excessivamente abrangente" e que inclui também anúncios legítimos. Ele afirmou que a empresa combate fraudes "de forma agressiva" e que já removeu mais de 134 milhões de anúncios fraudulentos em 2025. A Meta sustenta que investe continuamente em medidas para reduzir anúncios fraudulentos, ampliar a checagem de anunciantes e aprimorar seus modelos de risco.
Pressão regulatória cresce, e a Meta estipula metas para reduzir fraudes
A divulgação dos documentos ocorre em um momento de fiscalização mais intensa. Nos Estados Unidos, a SEC, a Comissão de Valores Mobiliários, investiga a empresa por veicular anúncios ligados a golpes financeiros. No Reino Unido, autoridades afirmam que as plataformas da Meta estiveram envolvidas em mais da metade das perdas com fraudes de pagamento em 2023, cenário que reforça a pressão por respostas mais contundentes e maior transparência.
Internamente, a Meta ainda teria reconhecido a facilidade de operação de criminosos em seus ambientes. Uma análise de abril de 2025 teria concluído que "é mais fácil anunciar golpes em plataformas Meta do que no Google". Diante desse quadro, executivos estipularam metas para reduzir a participação de golpes na receita para 7,3% até o fim de 2025 e para 5,8% em 2027.
Na prática, o desafio combina escalabilidade e incentivos econômicos. O uso de leilões, a complexidade do ecossistema de anúncios e a necessidade de equilibrar integridade com resultados de negócios criam tensões que aparecem nos números. A insistência da Meta em afirmar que combate anúncios fraudulentos intensamente, combinada à contestação de que as estimativas seriam imprecisas, mostra que a disputa agora inclui não apenas a remoção de golpes, mas também a narrativa sobre o que deve ser considerado fraude ou erro de classificação.
Enquanto autoridades aprofundam investigações e a empresa promete metas e melhorias, os dados trazidos pela Reuters, como 10% da receita em 2024 vinculada a anúncios fraudulentos e a escala de 15 bilhões de exibições suspeitas por dia no período analisado, mantêm o tema no centro do debate público sobre segurança digital, responsabilidade das plataformas e proteção de consumidores.

