Igualdade de gênero no setor de tecnologia sofre retrocesso em 2025: seis em cada dez mulheres veem piora, aponta State of Gender

Seis em cada dez mulheres veem retrocesso na igualdade de gênero no setor de tecnologia

Women in Tech do Web Summit indica que a igualdade de gênero no setor de tecnologia perdeu fôlego com cortes em DEI e tensões políticas, mesmo com 81% prontas para liderar

A percepção de que a igualdade de gênero no setor de tecnologia está andando para trás ganhou força em 2025, e o alerta vem de um recorte global. Segundo o relatório State of Gender, divulgado pelo programa Women in Tech do Web Summit, seis em cada dez mulheres que atuam na área relatam retrocesso nos avanços de diversidade. O estudo, baseado em 671 participantes de diferentes regiões do mundo, associa a tendência a fatores geopolíticos e ao enfraquecimento de iniciativas de diversidade, equidade e inclusão, conhecidas como DEI.

A mesma pesquisa aponta um dado que expõe o paradoxo do momento: 81% das mulheres se sentem preparadas para liderar, embora identifiquem um ambiente mais hostil às pautas de inclusão. Em um setor ainda dominado por homens, a distância entre a prontidão para a liderança e as oportunidades reais parece aumentar, afetando a presença feminina em cargos estratégicos e na inovação.

Outro recorte temporal reforça o recuo. Como destaca o relatório, “Em 2024, 51% das entrevistadas acreditavam em melhorias; em 2025, 60% disseram que o cenário piorou.” Em outras palavras, a confiança no avanço da igualdade de gênero no setor de tecnologia cedeu lugar à preocupação com um possível ciclo de retrocessos.

Hostilidade crescente, cortes em DEI e impacto do cenário global

As entrevistadas apontam que a redução de iniciativas de diversidade e o chamado “clima de guerra” global têm limitado o financiamento de projetos voltados à capacitação feminina, o que resulta em menos recursos para sustentar políticas e programas de inclusão. Esse quadro, somado à pressão por resultados de curto prazo, estaria comprimindo orçamentos, equipes e metas de equidade nas empresas de tecnologia.

Os números do levantamento são contundentes e mantêm a coerência com o retrato de retrocesso. Conforme registrado no relatório, “De acordo com o relatório: 61% discordam que o setor tech esteja tomando medidas eficazes contra a desigualdade; 56,5% dizem precisar escolher entre carreira e família, um aumento de sete pontos percentuais em relação a 2024; 49% afirmam ter sofrido algum tipo de preconceito ou sexismo nos últimos 12 meses.” Essas estatísticas ajudam a dimensionar o quanto a agenda de diversidade e equidade vem sendo pressionada.

Liderança pronta, barreiras reais: o que trava o avanço

Mesmo com grande preparo declarado para liderar, mulheres seguem enfrentando entraves que parecem invisíveis, mas são persistentes. A pesquisa relata falta de representatividade em cargos decisórios, dificuldades em equilibrar vida pessoal e profissional, além de preconceitos sutis no cotidiano, como ser interrompida em reuniões ou ter ideias ignoradas e reapresentadas por colegas homens.

Esse conjunto de obstáculos cria um descompasso entre ambição e oportunidade. Quando mais da metade declara precisar escolher entre carreira e família, cresce a evidência de que políticas de flexibilidade, licenças e redes de apoio ainda são insuficientes para sustentar trajetórias de longo prazo. Reverter esse cenário exige, segundo analistas do ecossistema, compromisso executivo, metas claras e acompanhamento contínuo de indicadores de inclusão.

Para o Brasil, onde o setor digital segue em expansão, o recado é direto: sem fortalecer programas de DEI e sem priorizar a igualdade de gênero no setor de tecnologia na alta gestão, a perda de talentos e a estagnação da inovação tendem a se aprofundar. A competitividade depende, cada vez mais, de equipes diversas e ambientes com segurança psicológica.

IA como aliada, mas com alerta para vieses

Apesar do quadro desafiador, há espaço para otimismo no uso de tecnologia como ferramenta de mudança. O estudo registra que “Cerca de 77% das mulheres entrevistadas usam inteligência artificial diariamente” e, em proporção semelhante, acreditam que soluções de IA podem favorecer a inclusão e a criatividade, ajudando a equilibrar vida profissional e pessoal. Do recrutamento à gestão de performance, aplicações bem desenhadas podem reduzir gargalos e ampliar oportunidades.

O alerta, porém, também vem das participantes. “No entanto, 25% delas ainda temem que essas mesmas ferramentas acabem reforçando vieses de gênero já existentes nos algoritmos.” Isso reforça a urgência de práticas de desenvolvimento responsável, auditoria permanente de modelos e transparência em critérios de decisão. Sem governança, a IA corre o risco de consolidar, em escala, desigualdades que hoje já são visíveis.

O State of Gender chega às vésperas do Web Summit Lisboa e deixa um recado inequívoco: “O estudo, que antecede o Web Summit Lisboa, reforça que a luta pela igualdade de gênero na tecnologia está longe de terminar. Mesmo com avanços individuais, o setor enfrenta um retrocesso estrutural que ameaça conquistas históricas das mulheres na inovação e na liderança.” Em síntese, investir na igualdade de gênero no setor de tecnologia não é apenas uma pauta social, é uma decisão estratégica para sustentar competitividade, criatividade e crescimento.

As informações são do jornal O Globo.

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