Guerra dos chips: entenda como a disputa entre China e Holanda travou a Nexperia, atingiu montadoras e colocou o Brasil em alerta

Como guerra dos chips chegou aos carros – e deixou montadoras em alerta no Brasil

Na guerra dos chips, o impasse em torno da Nexperia levou à suspensão de exportações pela China, pressionou Mercedes, Stellantis e Nissan e fez o Brasil negociar para manter os carros flex em produção

A guerra dos chips ganhou uma frente decisiva no setor automotivo, depois que a disputa entre China e Holanda atingiu a Nexperia, fabricante de semicondutores controlada pela chinesa Wingtech. O imbróglio acendeu um alerta global, expôs a dependência de um componente minúsculo, porém vital para motores, freios e eletrônica embarcada, e chegou ao Brasil, onde montadoras correram para evitar novas paralisações.

Segundo o New York Times e fontes do setor, o governo holandês interveio na Nexperia por “razões de segurança econômica”, temendo a transferência da produção para a China. A reação de Pequim foi imediata, com suspensão temporária de exportações de chips, o que travou parte da cadeia global de fornecimento e obrigou empresas a reverem planos de produção.

No Brasil, a Nexperia é apontada como a principal fornecedora de chips usados em carros flex, o que colocou o país na linha de frente dos impactos. Para evitar um desabastecimento, o vice-presidente e ministro da Indústria, Geraldo Alckmin, acionou a diplomacia e conseguiu a manutenção dos envios de semicondutores, aliviando, por ora, o risco de fábrica parada.

Disputa na Holanda acende crise global

A crise começou na Europa, onde autoridades holandesas intervieram na Nexperia, citando “razões de segurança econômica”. A medida foi interpretada como um movimento para impedir que a produção migrasse para a China, o que provocou forte irritação em Pequim e desencadeou a interrupção temporária das exportações de chips.

O NYT relatou que o impasse pegou o setor automotivo de surpresa, ao expor a dependência de semicondutores de alta e baixa complexidade. Especialistas como Chris Miller, autor de Chip War, alertaram para o risco de queda na produção global de veículos caso não surgisse um acordo em breve, reforçando que a guerra dos chips já extrapola a economia e reflete disputas geopolíticas entre grandes potências.

A Nexperia, peça central dessa cadeia, fabrica milhares de chips básicos usados em automóveis, eletrodomésticos, radares e equipamentos militares. Por isso, a crise rapidamente transbordou para além das montadoras e passou a pressionar toda a indústria de eletrônicos e de defesa, evidenciando um gargalo que não se resolve da noite para o dia.

Montadoras correm para reorganizar cadeias

Com a suspensão das exportações chinesas, Mercedes-Benz, Stellantis, Nissan e Bosch reduziram o ritmo e passaram a buscar alternativas emergenciais para manter as linhas rodando. O CEO da Mercedes-Benz, Ola Källenius, atribuiu o impasse diretamente às tensões entre governos, enfatizando que a crise não decorre de falhas industriais, mas da geopolítica dos semicondutores.

Para a analista Antonia Hmaidi, do Instituto Mercator de Estudos sobre a China, reorganizar a cadeia levaria pelo menos quatro a seis meses, já que a Nexperia depende de etapas de fabricação e empacotamento feitas majoritariamente na China. Em outras palavras, mesmo com planos de contingência, não existe substituição rápida para volumes, prazos e qualidade exigidos pela indústria automotiva.

Essa corrida por alternativas expõe a falta de diversificação fora da Ásia e reforça a urgência de novos polos de produção, algo que governos e empresas discutem desde a pandemia. A guerra dos chips serviu de catalisador, lembrando que semicondutores simples, muitas vezes ignorados no debate público, são tão críticos quanto os de ponta para manter um carro funcionando.

Brasil evita desabastecimento, mas segue vulnerável

No Brasil, a Anfavea soou o alarme ao perceber o risco imediato para os carros flex, dependentes dos componentes da Nexperia. A resposta veio de Brasília, com Geraldo Alckmin acionando o embaixador chinês Zhu Qingqiao e pedindo prioridade nos embarques para o país. O pleito foi atendido, segundo o governo, o que garantiu a continuidade das linhas e evitou a repetição do cenário de 2021, quando a escassez global paralisou montadoras.

O acordo foi recebido como um alívio temporário. Volkswagen e Stellantis confirmaram operações normais, porém em estado de alerta, monitorando cada lote e ajustando cronogramas. Para o presidente da Anfavea, Igor Calvet, a ação do governo impediu um colapso imediato, mas a dependência internacional continua como ponto sensível da indústria.

Enquanto a disputa entre China e Holanda permanece sem solução definitiva, a guerra dos chips segue como variável crítica no planejamento das montadoras. A produção nacional continua, mas com consciência de que qualquer novo desentendimento no exterior pode, de novo, parar fábricas no Brasil.

No médio prazo, a saída passa por diversificar fornecedores, ampliar estoques estratégicos e estimular capacidades locais, inclusive em estágios de empacotamento e testes. Até lá, diplomacia ativa e coordenação com a cadeia global seguem como as melhores ferramentas para blindar, tanto quanto possível, a produção de veículos no país da próxima turbulência geopolítica.

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