Explosão da Starship na Starbase, em Boca Chica, danifica o tanque de LOX do Super Heavy Booster 18 durante teste de pressão e reacende dúvidas sobre o cronograma da SpaceX e a meta de reabastecimento em órbita
A explosão da Starship registrada na última quinta-feira, 20, na Starbase, em Boca Chica, no sul do Texas, interrompeu os testes da nova versão do veículo espacial da SpaceX antes mesmo da instalação dos motores. O incidente ocorreu durante um teste de pressão do sistema de gás e atingiu de forma seletiva uma lateral da seção inferior do propulsor, deixando o restante da estrutura aparentemente intacto.
Em comunicado, a SpaceX informou que ninguém se feriu, já que a área estava isolada para o procedimento, e que as equipes precisam de tempo para investigar as causas. O evento, porém, adiciona incerteza a um cronograma já desafiador, especialmente porque a empresa mira demonstrações críticas de reabastecimento em órbita para viabilizar missões lunares e, no futuro, a Marte.
O que se sabe sobre o incidente com o Super Heavy Booster 18
Imagens compartilhadas na manhã de sexta-feira, 21, pelo perfil Starship Gazer no X, que acompanha os testes há anos, mostram o Super Heavy Booster 18 com grande parte da seção inferior amassada. A postagem descreveu, textualmente, “Danos muito significativos em toda a seção do tanque de LOX [oxigênio líquido]”. O dano se concentrou no tanque de LOX, um dos elementos mais sensíveis do estágio Super Heavy, responsável por alimentar os motores com o oxidante criogênico.
Diferentemente de falhas anteriores que renderam grandes bolas de fogo, esta explosão da Starship causou danos localizados, o que pode facilitar a análise da falha e orientar reforços estruturais e ajustes de procedimentos. Ainda assim, o impacto no Booster 18 é visível, e qualquer reparo, substituição ou reprojeto exigirá tempo e validação em novos testes de pressão.
O equipamento afetado integra o que a SpaceX classifica como Starship versão três (V3), descrita nas fontes como uma evolução maior, mais potente e mais confiável em relação às iterações anteriores. O salto mais importante está na capacidade de transferência de propelente em órbita, uma tecnologia considerada essencial para missões de longa duração, incluindo o pouso lunar sob o programa Artemis.
Impacto no cronograma da SpaceX e na Artemis 3
A principal dúvida agora é se a explosão da Starship alterará marcos previstos para os próximos meses. A empresa mantém o objetivo de demonstrar a transferência de combustível entre naves Starship em órbita ainda em 2026, etapa chave para a missão da NASA que prevê o uso da Starship como módulo de pouso na Lua. Segundo as fontes, a SpaceX hoje prevê a missão para 2028, enquanto a NASA oficialmente ainda trabalha com 2027.
Esse histórico recente ajuda a contextualizar o desafio. Em 2025, a V2 voou cinco vezes e explodiu em três, um retrato de um programa que, embora avance, ainda convive com eventos de perda de veículo durante testes e voos. Nos dois voos mais recentes bem-sucedidos, a SpaceX parecia pronta para iniciar a campanha da V3 com menos sobressaltos, mas o incidente em Boca Chica relembra que a maturação de um sistema super heavy totalmente reutilizável segue um caminho não linear.
Por ora, a empresa indicou que deve priorizar a investigação das causas, o que pode reordenar tarefas, desde inspeções estruturais até ajustes de pressurização, válvulas, linhas criogênicas e protocolos de segurança. Enquanto isso, a explosão da Starship tende a reaquecer discussões internas e externas sobre prazos, riscos técnicos e a necessidade de planos de mitigação para manter marcos críticos em 2026 e 2028.
Pressão da NASA e concorrência da Blue Origin entram em cena
O programa lunar da SpaceX já vinha sob escrutínio dentro da NASA. De acordo com as fontes, o administrador interino, Sean Duffy, manifestou preocupações públicas quanto ao ritmo de desenvolvimento e sinalizou a possibilidade de conceder à Blue Origin, concorrente direta, a chance de assumir contratos lunares, caso a cadência não se confirme.
A conjuntura fica ainda mais apertada diante dos avanços da Blue Origin. Na semana anterior ao incidente, a empresa realizou com sucesso o segundo lançamento do New Glenn, entregou carga útil comercial para a NASA e recuperou seu primeiro propulsor, além de revelar planos para uma versão ampliada do foguete. Esse pacote de resultados posiciona a companhia como competidora direta no segmento de lançadores superpesados, justamente onde a Starship V3 busca demonstrar vantagem com reuso rápido e capacidade de reabastecimento em órbita.
No curto prazo, todos os objetivos relacionados à explosão da Starship devem entrar em compasso de espera, enquanto a SpaceX conduz a apuração do evento no Booster 18. A clareza técnica sobre a origem do problema, se ligada a pressurização, a algum componente do sistema de gás ou a comportamento estrutural sob carga, será decisiva para o ritmo de retomada.
Apesar do revés, a estratégia de iteração rápida da empresa costuma transformar falhas em dados acionáveis para reforçar hardware e processos. A pergunta, agora, é se a investigação e a correção virão com rapidez suficiente para preservar as metas de transferência de propelente em 2026 e a janela de Artemis 3. Até lá, a explosão da Starship no Texas funcionará como um novo teste, não apenas de engenharia, mas de gestão de prazos em um cenário de competição crescente e expectativas elevadas.

