Desastres causados por tornados no Brasil: piores casos, números do Cemaden e por que o Sul sofre mais

Saiba quais foram os piores desastres causados por tornados no Brasil

Levantamento reúne desastres causados por tornados no Brasil desde 1959, traz dados recentes do Paraná, Santa Catarina e São Paulo, e explica o que dizem Cemaden e INPE

O recente tornado que destruiu cerca de 90% de Rio Bonito do Iguaçu, Paraná, com registro de sete mortes, não foi um evento isolado. Em pouco mais de uma década, o país acumulou dezenas de desastres causados por tornados no Brasil, com impactos humanos e materiais expressivos, especialmente na região Sul. Dados oficiais ajudam a dimensionar esse cenário e revelam também um desafio adicional, a subnotificação e a confusão com outros fenômenos severos de vento.

Segundo o Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), desde 2013 o país registrou 87 desastres atrelados a tornados. Desse total, 34 tiveram reconhecimento de situação de emergência e, somados, resultaram em 19 mortos, mais de 1,2 mil feridos, 873 desabrigados e cerca de 17 mil desalojados. O episódio mais recente, na sexta-feira, 7, no Paraná, foi o que mais deixou vítimas fatais nesse intervalo, com seis mortos em Rio Bonito do Iguaçu e uma em Guarapuava.

O que mostram os números oficiais do Cemaden

Os registros do Cemaden dão base a um panorama consistente dos desastres causados por tornados no Brasil, embora ainda haja lacunas na identificação precisa de cada evento. De acordo com o pesquisador Victor Marchezini, do Cemaden, os desastres são documentados por meio de formulários municipais, que contemplam danos materiais, como casas destruídas, e danos humanos, como mortos, feridos, desabrigados e desalojados. A prática, no entanto, pode diluir a especificidade do fenômeno tornádico quando ocorre simultaneamente a chuvas fortes, inundações e deslizamentos.

Marchezini observa que, em geral, os municípios acabam registrando uma ocorrência única para diferentes danos, o que pode mascarar a presença do tornado. Como ele descreveu em entrevista publicada pelo g1, “Imagino que, às vezes, as pessoas não saibam reconhecer o que foi um tornado e isso está aparecendo como vendaval”. Essa distinção é crucial para calibrar políticas de prevenção, alerta e resposta, já que a natureza do fenômeno e sua intensidade, muitas vezes medida pela Escala Fujita Aprimorada, exigem protocolos específicos.

Os piores desastres causados por tornados no Brasil, de 1959 ao Paraná

Embora os bancos de dados recentes consolidem a gravidade dos episódios, o evento mais letal ocorreu em 1959, na divisa entre Santa Catarina e Paraná. De acordo com o especialista em tornados do INPE, Ernani Lima, “cerca de 90 pessoas morreram” atingindo União da Vitória e Palmas, no Paraná, e Canoinhas, em Santa Catarina. Outro marco histórico foi o tornado de 1991 em Itu, São Paulo, que deixou 15 mortos, com ventos que chegaram a 300 km/h.

No levantamento contemporâneo, o Paraná volta a se destacar pela violência dos ventos. Em Rio Bonito do Iguaçu, o tornado que devastou a cidade se formou a partir de um ciclone extratropical que atravessou o Sul. Os ventos chegaram a 250 km/h, classificação de categoria 3 na Escala Fujita Aprimorada, e os números são expressivos: sete mortos, 800 feridos, 205 desabrigados e 29 mil desalojados. Em Xanxerê, Santa Catarina, em 2015, as rajadas variaram entre 100 e 300 km/h, com quatro mortos, 95 feridos e cerca de 2,1 mil desalojados ou desabrigados. Já em Taquarituba, São Paulo, em 2013, os ventos passaram de 100 km/h, deixando dois mortos, 64 feridos e cerca de 1,3 mil pessoas sem suas casas.

O interior do Paraná também registrou impacto em Itaperuçu, em 2018, com ventos de 100 km/h segundo o SIMEPAR, resultando em duas mortes, 87 desalojados e 12 desabrigados. No Rio Grande do Sul, Círiaco, em 2018, teve uma morte, um ferido e 528 desalojados. Em São Francisco de Paula, em 2017, um tornado de 140 km/h deixou uma morte, 370 desabrigados e 600 desalojados. Em Erebango, em 2014, o fenômeno alcançou F2, com ventos de até 252 km/h, e terminou com uma morte e 26 desabrigados. Mais recentemente, Palmitos, Santa Catarina, em maio de 2025, registrou um morto e 75 desabrigados.

Ao reunir esses episódios, reforça-se a relevância de compreender e contabilizar corretamente os desastres causados por tornados no Brasil, sobretudo para orientar políticas de adaptação, licenciamento urbano e protocolos de defesa civil.

Por que prever e confirmar um tornado ainda é tão difícil no país

Além das limitações de catalogação, há obstáculos técnicos na previsão e na confirmação de um tornado. Como explica o pesquisador Daniel Cândido, da Unicamp, “Como esse tipo de evento ainda não é amplamente monitorado ou registrado no país, o que temos oficialmente são bases de desastres, onde os tornados aparecem junto com outros eventos”. Isso significa que a leitura do risco, a emissão de alertas e a coleta de evidências de dano nem sempre distinguem tornados de outras tempestades severas.

Ainda segundo Cândido, não é possível prever com muita antecedência a ocorrência exata de um tornado, tampouco antecipar os danos ao longo de sua trilha. Em muitos episódios, os estragos se confundem com fenômenos como microexplosões atmosféricas, vendavais e frentes de rajada, que também provocam ventos muito intensos. Como ele alerta, “Você pode ter microexplosões atmosféricas, vendavais, frentes de rajada, outros eventos que causam também episódios de vento muito intenso, muita destruição, mas não necessariamente é o tornado”.

Com o avanço de radares meteorológicos, sensores e protocolos de campo, tende a melhorar a identificação da assinatura tornádica, bem como o refinamento da resposta emergencial. Até lá, a experiência recente reforça que os desastres causados por tornados no Brasil exigem campanhas de educação para risco, comunicação clara e integração entre Cemaden, Defesa Civil e prefeituras, para reduzir perdas humanas e materiais quando a natureza impõe sua força.

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