COP30: Pacote Azul detalha como o oceano pode cortar 35% das emissões até 2050

COP30: como o oceano pode ajudar a reduzir emissões em 35% até 2050?

Na COP30, em Belém, Marinez Scherer apresenta roteiro com cinco frentes, de energia offshore a transporte marítimo, para acelerar soluções baseadas no oceano

Em destaque na COP30, as soluções climáticas focadas nos oceanos ganharam um plano de ação com metas e investimentos concretos. Segundo estimativas do chamado Pacote Azul, apresentado em Belém pela enviada especial para Oceanos da conferência, “Soluções climáticas focadas nos oceanos podem ajudar a reduzir em até 35% as emissões globais até 2050.”

O roteiro, que alinha as “Iniciativas de Avanço Oceânico” em cinco setores de alto impacto, foi defendido por Marinez Scherer, doutora em Ciências Marinhas e professora da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Para a pesquisadora, as metas são viáveis e dependem de ação coordenada. “Esses não são objetivos abstratos. São ações práticas, baseadas na ciência, que podem ser implementadas agora se agirmos juntos e com urgência”, afirmou.

O que o Pacote Azul leva à mesa da COP30

No coração da COP30, o Pacote Azul dá escala a iniciativas oceânicas com impacto direto na redução de emissões e na biodiversidade marinha. Em conservação marinha, a meta é destinar US$ 72 bilhões (R$ 383 bilhões) para proteger, restaurar e conservar pelo menos 30% do oceano até 2030, garantindo a integridade dos ecossistemas e resiliência diante de ondas de calor marinhas, acidificação e desoxigenação.

Nos alimentos aquáticos, o plano prevê o fornecimento de pelo menos US$ 4 bilhões (R$ 21 bilhões) anualmente para sistemas alimentares aquáticos resilientes, capazes de sustentar a segurança alimentar e nutricional de três bilhões de pessoas, ao mesmo tempo em que contribuem para ecossistemas saudáveis e regenerativos.

Em energia renovável oceânica, a prioridade é instalar pelo menos 380 GW de capacidade offshore, com metas e medidas que assegurem resultados líquidos positivos para a biodiversidade. O roteiro ainda propõe defender a mobilização de R$ 10 bilhões (R$ 53 bilhões) em financiamento concessional para economias em desenvolvimento, impulsionando a transição e a inovação tecnológica.

Portos, navios e a rota da descarbonização marítima

O transporte marítimo é um dos eixos mais decisivos do pacote na COP30. A proposta estabelece que combustíveis com emissão zero representem pelo menos 5% do total até 2030, com a ambição de alcançar 10% do combustível para transporte marítimo internacional e 15% para transporte marítimo doméstico no mesmo período. Para viabilizar a transição, o setor precisa requalificar e treinar 450.000 marítimos até 2030.

Além da frota, a infraestrutura portuária é central. O plano indica que 30% do comércio marítimo deve passar por portos adaptados às mudanças climáticas até 2030, reforçando a resiliência frente a eventos extremos e elevação do nível do mar. Outra meta-chave é reduzir o impacto do transporte marítimo internacional na biodiversidade marinha em 30% até 2030, conectando descarbonização e proteção de ecossistemas.

Segundo Marinez Scherer, o oceano deve ser visto como motor da solução climática, não apenas como vítima das mudanças em curso. A pesquisadora reforçou o chamado à ação: “Mas reconhecimento e metas não bastam. O que é necessário agora é vontade política e investimento para implementar o Pacote Azul. Devemos agir juntos em um Mutirão Azul – um movimento coletivo de governos, comunidades, inovadores e cidadãos trabalhando lado a lado pelo oceano que nos sustenta”.

Conservação, alimentos e turismo costeiro sob a ótica da COP30

No turismo costeiro, o Pacote Azul defende investimento de US$ 30 bilhões (R$ 159 bilhões) anualmente para reduzir pela metade as emissões do setor. A agenda inclui ainda aportes adicionais para fortalecer a resiliência das comunidades locais, promover a gestão sustentável e recuperar ecossistemas em destinos insulares e costeiros mais vulneráveis às mudanças climáticas.

O pacote também enfatiza que a COP30 é uma oportunidade para consolidar a agenda oceânica no centro das políticas climáticas. Hoje, 78% dos países membros da iniciativa Blue NDC Challenge incluem ao menos uma referência explícita ao oceano em seus compromissos climáticos, um aumento de 39% em relação a planos anteriores, sinalizando avanço de governança e coordenação internacional.

Para além das metas setoriais, há um ponto de fundo: o oceano como aliado essencial no equilíbrio climático global, absorvendo o excesso de calor e o dióxido de carbono. Esse papel, porém, vem sob forte pressão, com branqueamento de recifes de coral, erosão de ecossistemas por acidificação e expansão de zonas mortas. Na visão da cientista, a resposta precisa ser sistêmica e inclusiva. “Proteger e restaurar a saúde dos oceanos não é apenas uma prioridade ambiental, mas sim uma questão de sobrevivência e resiliência humana. Nações costeiras e insulares, povos indígenas e comunidades pesqueiras estão na linha de frente das mudanças climáticas e da deterioração da saúde dos oceanos. Suas vozes devem liderar e seu conhecimento deve guiar nossa resposta”, alertou.

Com metas mensuráveis, prazos definidos e financiamento dedicado, o Pacote Azul transforma a ambição em plano operacional, conectando energia offshore, transporte marítimo, conservação marinha, sistemas alimentares aquáticos e turismo costeiro. Se implementado com a urgência defendida na COP30, o conjunto de ações pode destravar ganhos climáticos e de biodiversidade, ao mesmo tempo em que fortalece economias costeiras e comunidades que dependem diretamente do mar.

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