COP30 em Belém termina sem consenso sobre o fim dos combustíveis fósseis, Arábia Saudita barra proposta brasileira apoiada por 80 países

COP30 termina sem acordo sobre fim de combustíveis fósseis

Sem acordo sobre o fim dos combustíveis fósseis, Brasil manterá roteiro paralelo, enquanto financiamento climático avança com € 1 bilhão da Alemanha ao TFFF e o fundo supera US$ 6 bilhões

A 30ª Conferência do Clima das Nações Unidas, a COP30, terminou em Belém sem consenso sobre o fim dos combustíveis fósseis. A proposta brasileira de um “mapa do caminho” para eliminar gradualmente petróleo, gás e carvão, apoiada por mais de 80 países, não entrou na declaração final após forte resistência de nações petrolíferas, com destaque para a Arábia Saudita. As negociações avançaram até a madrugada deste sábado, 22, sem que o impasse fosse superado.

O resultado expõe a distância entre o reconhecimento da emergência climática e a implementação de medidas para atacar a principal causa do aquecimento, a queima de combustíveis fósseis. Organizações da sociedade civil e especialistas alertam que, sem metas e prazos claros, corre-se o risco de prolongar ciclos de desigualdade e destruição ambiental, especialmente em regiões vulneráveis como a Amazônia.

Impasse na COP30: por que o fim dos combustíveis fósseis ficou de fora

Segundo negociadores, a coalizão de países favorável ao fim dos combustíveis fósseis pressionou por linguagem explícita de eliminação progressiva, enquanto produtores de petróleo defenderam que referências mais duras poderiam comprometer seus planos de desenvolvimento econômico. O bloqueio, liderado por nações petrolíferas, repetiu impasses de conferências anteriores, evidenciando os limites da diplomacia climática multilateral diante de interesses divergentes.

Para o climatologista Carlos Nobre, ouvido pelo Olhar Digital News, a ausência de um compromisso claro com a eliminação de petróleo, gás e carvão representa uma “grande lacuna”. Em suas palavras: “O nosso documento dizia, idealmente, zerar o uso de combustíveis fósseis em 2040, não mais que em 2045, para não deixar a temperatura do planeta aquecer demais, não deixar em 2050, por exemplo, chegar a dois graus, que isso vai ser um ecocídio, um suicídio ecológico”. O alerta de Nobre reforça a leitura de que, sem cortes rápidos nas emissões, as metas do Acordo de Paris ficam fora de alcance.

O prolongamento das conversas além do prazo original, algo comum nas COPs, não foi suficiente para redesenhar o consenso. No balanço de participantes e observadores, o desfecho da COP30 confirma uma tendência: a ciência avança, mas os compromissos políticos seguem aquém da urgência indicada pelos dados.

Brasil manterá proposta paralela e reação de especialistas

Em entrevista à CNN, André Corrêa do Lago, presidente da COP30, confirmou que a proposta brasileira não foi incorporada ao texto final. Ao mesmo tempo, anunciou que o Brasil seguirá com a iniciativa como um programa independente, buscando manter vivo o debate sobre um roteiro de transição energética que leve ao fim dos combustíveis fósseis.

A decisão contrasta com o tom ambicioso que marcou a abertura da conferência, quando o governo brasileiro mobilizou dezenas de países em defesa de metas concretas para superar a era do petróleo, do gás e do carvão. Para especialistas, a manutenção da agenda em via paralela pode preservar o capital político acumulado, embora a ausência de um sinal coletivo no documento final reduza a força simbólica da mensagem.

A expectativa é que o Brasil tente articular, nos próximos meses, novos apoios para transformar a proposta em referência técnica e política de descarbonização acelerada, alinhada à ciência climática. A leitura predominante entre analistas é que o tema voltará com força nas próximas rodadas de negociação, especialmente diante da pressão de países vulneráveis e da opinião pública global.

Avanços em financiamento, florestas tropicais e a próxima etapa

Apesar do impasse sobre o fim dos combustíveis fósseis, houve avanços em financiamento climático e na valorização de florestas tropicais. O fundo TFFF (Florestas Tropicais para Sempre) recebeu um aporte de € 1 bilhão da Alemanha, elevando o total para mais de US$ 6 bilhões. O mecanismo financia países em desenvolvimento na proteção de biomas-chave, como as nações da Bacia do Congo e do Sudeste Asiático, além de criar incentivos para manter a floresta em pé e ampliar a resiliência das comunidades locais.

Houve também a consolidação de instrumentos para apoiar a transição energética, crucial para acelerar a substituição de combustíveis fósseis por fontes renováveis. Ainda assim, o fundo global de adaptação permanece distante de sua meta de US$ 1,3 trilhão por ano, valor citado como necessário para adequar países em desenvolvimento aos impactos já em curso, como eventos extremos, seca e elevação do nível do mar. O reforço em relação à COP anterior indica uma tendência positiva, mas insuficiente diante da escala do desafio.

No balanço final, a COP30 entregou sinais relevantes na agenda de financiamento e florestas, porém deixou aberta a questão central: quando e como o mundo vai realizar o fim dos combustíveis fósseis. A avaliação recorrente entre delegações é que o lobby do petróleo manteve influência decisiva, repetindo o roteiro de conferências passadas, apesar dos apelos de grandes economias e do protagonismo do Brasil.

Com a proposta brasileira seguindo em trilho próprio e a pressão da ciência por cortes rápidos, o debate tende a se intensificar. Até lá, o sucesso da agenda climática dependerá de transformar compromissos financeiros em projetos de descarbonização com resultados mensuráveis e de recolocar, no centro das negociações, o passo inevitável: a eliminação ordenada, justa e responsável dos combustíveis fósseis.

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