COP30 em Belém entra em fase decisiva: o que está em jogo no financiamento climático de US$ 1,3 trilhão, nas metas de adaptação até 2030 e no futuro dos combustíveis fósseis

COP30 entra em fase decisiva nesta semana; entenda o que está em jogo

Ministros chegam à COP30 para destravar acordos sobre financiamento, metas de adaptação e decisões de capa, com pressão das ruas e da indústria fossil no centro do debate

A COP30, em Belém, entrou oficialmente na segunda fase, a etapa mais política e tensa das negociações. Com a chegada de ministros e representantes de alto nível, governos precisam dizer o que estão dispostos a ceder para fechar um acordo global sobre o clima. A abertura desta etapa reúne falas de Geraldo Alckmin, vice-presidente e ministro do Desenvolvimento, André Corrêa do Lago, presidente da COP30, Simon Stiell, da UNFCCC, e Annalena Baerbock, com a pauta girando em torno de financiamento climático, adaptação e combustíveis fósseis.

Um documento-chave divulgado no fim do domingo sintetiza o diagnóstico técnico da primeira semana e as consultas sobre quatro pontos que ficaram pendentes, os mais sensíveis desta COP30: financiamento climático, comércio internacional, lacuna de ambição e relatórios de implementação. A presidência separou esses itens da agenda formal para permitir avanços, enquanto diplomatas destravaram mais de 100 temas técnicos. O consenso sobre financiamento, considerado o “fiel da balança”, é visto como determinante para liberar os demais assuntos.

Financiamento climático vira “fiel da balança” e expõe divergências

O financiamento climático chegou à segunda semana como o tema mais delicado. O plano brasileiro de mobilizar US$ 1,3 trilhão por ano até 2035 enfrentou resistência de países como Japão, China e Quênia, que questionaram a legitimidade do debate e evitaram apoiar o texto preparado pelas presidências da COP29 e COP30.

Para complicar, o resumo técnico publicado no fim de semana não incorporou os “mapas do caminho” defendidos pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o que esvazia o peso político da proposta justamente quando o tema entra no centro das tratativas. Ainda assim, surgiram sinais positivos. A Alemanha indicou que pode anunciar “nos próximos dias” quanto pretende aportar no Fundo Florestas Tropicais para Sempre (TFFF), iniciativa liderada pelo Brasil.

O grande teste passa por avançar no compromisso de “triplicar o financiamento global para adaptação até 2030”, condição tida como essencial para dar substância às negociações. Sem clareza sobre números e fontes de recursos, todo o pacote político da COP30 corre o risco de emperrar, afetando também os debates sobre comércio, metas e prestação de contas.

Implementação, NDCs e indicadores de adaptação entram no foco ministerial

Com a chegada dos ministros, a orientação da presidência é cristalina, esta deve ser uma COP da implementação, não de novas obrigações. Há consenso sobre a urgência de acelerar a execução das NDCs, ampliar financiamento para adaptação e avançar em reformas da arquitetura financeira internacional, em linha com o Acordo de Paris.

O desafio imediato é fechar indicadores globais de adaptação, já presentes em rascunho e fundamentais para medir o avanço real dos países. A proposta de triplicar o financiamento para adaptação também está na mesa, mas depende de acordo político. Se a adoção formal desses indicadores atrasar, ações e investimentos podem desacelerar, alertam especialistas, segundo o UOL. Isso ameaça a ambição da conferência e o objetivo de apresentar resultados concretos ainda em Belém.

Ao mesmo tempo, cresce a cobrança por transparência e relatórios de implementação robustos, capazes de mostrar progresso concreto entre esta COP30 e as próximas. Sem métricas claras, governos, investidores e sociedade civil têm dificuldade de acompanhar a entrega do que foi prometido, inclusive nos temas de adaptação e perdas e danos.

Decisões de capa, protestos e presença fóssil ampliam a pressão política

As decisões de capa, textos políticos que servem como guarda-chuva para amarrar o resultado final, voltaram ao centro das conversas em Belém. Embora o Brasil diga preferir não usar esse instrumento, a pressão internacional por um recado claro sobre combustíveis fósseis, desmatamento e financiamento reacendeu a discussão. Essas decisões não pertencem a um item específico da agenda e não passam pelo mesmo processo rígido de negociação linha a linha, o que gera desconfiança em muitos países.

Nos bastidores, cresce a avaliação de que os quatro temas mais polêmicos, financiamento, metas, prestação de contas e medidas unilaterais de comércio, podem acabar “empacotados numa única saída política”, possivelmente transformada em decisão de capa. Esse arranjo permitiria registrar avanços mesmo fora da agenda formal, incluindo a disputa sobre como se afastar ou eliminar os fósseis, descrita por organizações como uma “nuvem tóxica” sobre as negociações.

Fora das salas, a Marcha Global por Justiça Climática levou milhares às ruas em Belém, com a imagem de três caixões marcados com “carvão”, “petróleo” e “gás” circulando dentro e fora da conferência. A marcha foi transmitida nas telas da COP30, inclusive fora da Zona Azul, lembrando aos negociadores a cobrança crescente da sociedade.

A presença da indústria de óleo e gás também gerou críticas. O prêmio satírico “Fóssil do Dia” foi entregue à Indonésia, acusada por organizações de levar um dos maiores grupos de lobistas do setor entre países em desenvolvimento e de repetir seus argumentos numa fala oficial sobre o mercado de carbono (Artigo 6.4). Um levantamento citado nas referências aponta mais de 1,6 mil pessoas ligadas ao setor fóssil credenciadas na COP30, superando delegações inteiras de países vulneráveis.

Outro destaque foi a Aldeia COP, na UFPA, que reuniu mais de três mil indígenas do Brasil e do exterior. Eles relatam impactos já sentidos no cotidiano, como plantio perdido por chuvas irregulares e calor fora de época, e defendem participação direta nas decisões. Para essas lideranças, o debate climático atravessa a vida diária e exige estar “na mesa onde as escolhas são feitas”.

Com a COP30 entrando na reta final, os próximos dias dirão se o pacote político vai refletir a ambição demonstrada nas ruas e nos plenários, destravando o financiamento climático, a adaptação e um caminho claro para reduzir a dependência de combustíveis fósseis.

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