COP30: aquecimento no Brasil pode chegar a 4,5 °C, quase o dobro do global, alerta Paulo Artaxo

COP30: aquecimento no Brasil pode ser quase o dobro do global, alcançando 4,5°C

O debate sobre COP30 ganhou novas camadas de urgência após alerta feito pelo físico e climatologista Paulo Artaxo, na Zona Azul da conferência, no estande da Finlândia, na sexta-feira, 14. Segundo o pesquisador, o planeta está perto de ultrapassar o limite de 1,5 ºC definido pelo Acordo de Paris, e segue em trajetória que pode alcançar 2,8 °C de aquecimento médio. Nesse cenário, o Brasil, por estar em uma região tropical continental, tende a aquecer mais do que a média global, com risco de atingir entre 4 °C e 4,5 °C acima dos níveis pré-industriais.

As declarações, feitas no contexto da COP30, reforçam que o país deve se preparar para impactos climáticos mais intensos e frequentes, desde ondas de calor prolongadas até chuvas extremas e incêndios florestais, ao mesmo tempo em que acelera a descarbonização e a transição energética.

Por que o Brasil pode aquecer mais do que a média global

Em regiões continentais e tropicais, a elevação das temperaturas tende a ser mais acentuada, o que ajuda a explicar por que o aquecimento no Brasil pode ser quase o dobro do global. Com menos influência moderadora de grandes massas oceânicas e sob variabilidade climática intensa, o país experimenta extremos mais duros, que afetam tanto a saúde das pessoas quanto a economia e os ecossistemas.

Esse quadro, discutido na COP30, é especialmente crítico na Amazônia e em áreas urbanas densas, onde a combinação de desmatamento, ilhas de calor e eventos extremos coloca pressão sobre infraestrutura, agricultura e segurança hídrica. Como resumiu uma das fontes consultadas, "A elevação do calor pode trazer diversas consequências ruins para o país, prejudicando a qualidade de vida das pessoas".

Os números apresentados na COP30

Artaxo foi taxativo ao descrever a trajetória atual do clima. Em suas palavras, "o mundo está prestes a superar o limite de 1,5 ºC de aquecimento médio, estando no caminho para chegar a 2,8 °C." O cientista destacou ainda a vulnerabilidade brasileira: "o Brasil, por estar em uma região tropical continental, corre o risco de sofrer impactos mais intensos, chegando a um aumento de 4 ºC a 4,5 ºC em relação ao período pré-industrial."

O alvo de 1,5 ºC do Acordo de Paris, firmado em 2015, é apontado pela comunidade científica como referência para evitar agravamentos irreversíveis da crise climática. No entanto, com a tendência de aquecimento descrita na COP30, cresce a necessidade de medidas de adaptação e redução acelerada de emissões, sobretudo em países como o Brasil, que podem aquecer acima da média global.

O que fazer: remoção de CO2 e transição energética

Para frear a curva, Artaxo lembrou que é preciso combinar cortes rápidos de emissões com iniciativas de remoção de dióxido de carbono. Segundo ele, é necessário "adotar técnicas como a chamada carbon dioxide removal, ou seja, remover dióxido de carbono (CO2) que já foi emitido para a atmosfera nas últimas décadas. Há algumas potenciais maneiras de fazer isso, sendo uma delas a recuperação ecológica em larga escala, ou seja, recuperar áreas de florestas, replantando o que desmatamos."

O especialista porém pondera sobre limites atuais de escala e custo: "o problema é que nenhuma técnica existente hoje efetivamente funciona na escala necessária e com um preço que possa ser pago. O alto custo chega a milhares de dólares por tonelada de CO2 removida. O que não quer dizer que a ciência daqui a 20, 30, 40 anos não desenvolva outras técnicas inovadoras. Por isso, a melhor solução é atacar o problema pela raiz, fazendo uma transição energética justa e rápida e acabando com a exploração de combustíveis fósseis." Ele ressalta ainda que "Não vai ser possível plantar árvores suficientes na superfície da Terra para sequestrar CO₂ se continuarmos emitindo como hoje", o que torna a transição energética ainda mais urgente no debate da COP30.

Impactos e urgência de adaptação para o Brasil

No Pavilhão de Ciências Planetárias da COP30, a comunidade científica alertou para a escalada de riscos a cada fração de grau. De acordo com a declaração citada, "Cada aumento de 0,1 °C no aquecimento global resulta em impactos e riscos substancialmente maiores, incluindo ondas de calor mais longas e mortais, incêndios florestais mais frequentes e intensos, tempestades e precipitações extremas, com danos desproporcionais a comunidades vulneráveis, economias frágeis e povos indígenas. Isso significa que a adaptação deve ser um foco importante na COP30".

Paralelamente, o Brasil trabalha nos bastidores para oficializar um roadmap, um mapa do caminho para a descarbonização de setores da economia, com previsão de conclusão na sexta-feira, 21, e adesão de países europeus e nações em desenvolvimento. Esse plano pode orientar investimentos em energia limpa, restauração ecológica e infraestrutura resiliente, pilares essenciais para enfrentar um aquecimento no Brasil potencialmente próximo de 4,5 °C, enquanto o mundo se esforça para conter o aquecimento global.

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