Astronautas chineses da Shenzhou-20 pousam em Dongfeng pouco antes das 4h45, após uma semana extra em órbita, e comandante soma 418 dias no espaço
Depois de um retorno adiado por problemas técnicos, os astronautas chineses Chen Dong, Chen Zhongrui e Wang Jie chegaram com segurança à Terra na madrugada desta sexta-feira, 14, pousando na região de Dongfeng, na Mongólia Interior, pouco antes das 4h45, horário de Brasília. Segundo a agência Xinhua, os três integrantes da missão Shenzhou-20 saíram da cápsula com aparência de boas condições de saúde, encerrando uma semana extra em órbita que chamou atenção para os riscos do lixo espacial.
O plano original previa o retorno na quarta-feira, 5, porém a cápsula designada para a reentrada sofreu impactos antes do desacoplamento da estação Tiangong, possivelmente causados por detritos espaciais, o que levou a Agência Espacial Tripulada da China, CMSA, a classificar a nave como insegura para a descida. A solução foi recorrer à cápsula Shenzhou-21, que estava acoplada à estação após levar uma nova tripulação duas semanas antes, possibilitando a volta segura dos astronautas chineses.
Impactos de detritos, troca de cápsula e como a China contornou o problema
De acordo com a CMSA, a nave Shenzhou-20 apresentou pequenas rachaduras na janela de visualização, atribuídas a impactos de detritos espaciais. Trata-se de um tipo de ocorrência que, apesar de rara, vem se tornando mais frequente diante do aumento de fragmentos em órbita. Para reduzir o risco, a equipe deixou a estação em outra cápsula, a Shenzhou-21, enviada previamente para apoiar a rotação de tripulações.
Os três astronautas chineses se separaram da Tiangong às 23h14 de quinta-feira, 13, e seguiram a trajetória de reentrada até o pouso em Dongfeng. A Xinhua informou que o desembarque ocorreu de forma nominal, permitindo avaliação médica imediata da tripulação. A estratégia, possível porque a Tiangong suporta operações com duas equipes simultâneas, mostrou a importância de redundâncias para lidar com imprevistos em órbita.
A missão Shenzhou-20 foi lançada em 24 de abril de 2025, por um foguete Long March-2F. No retorno antecipado da nova equipe, quando chegar a hora, a CMSA planeja lançar uma cápsula Shenzhou-22 vazia, em momento oportuno, para garantir a descida em segurança. Esse modelo de rotação, apoiado por veículos de reserva, tem sido um pilar nas operações da China na Tiangong.
Pouso seguro, saúde estável e um novo recorde para Chen Dong
Logo após o pouso, os astronautas chineses foram retirados da cápsula e avaliados no local. Segundo a Xinhua, eles apresentaram boas condições de saúde, um indicativo de que todos os protocolos de reentrada foram cumpridos. Em uma publicação nas redes sociais, traduzida do inglês, um observador resumiu a experiência da tripulação na descida: “Os astronautas da Shenzhou 20 retornaram suavemente e deixaram a cápsula. Foi constatado que o estado é muito bom. Você sabe, é difícil antes de pousar”.
Com a volta, o comandante Chen Dong, veterano do programa, ampliou seu próprio recorde e se tornou novamente o chinês com mais tempo em órbita. Ele já somava 416 dias no espaço e agora chegou a 418 dias. Para Chen Zhongrui e Wang Jie, esta foi a primeira experiência em missão, marcada por uma agenda intensa de pesquisa e manutenção.
Durante a estadia, o trio realizou experimentos científicos, ações de divulgação e quatro caminhadas espaciais, instalando escudos contra detritos e outros equipamentos no exterior da Tiangong. A estação, com 55 metros de comprimento divididos em três módulos, tem cerca da metade do tamanho da Estação Espacial Internacional, o que permite acomodar rotinas complexas, inclusive com duas tripulações em transição quando necessário.
Tiangong em operação, o que vem a seguir e por que o caso importa
A Shenzhou-21, lançada em 31 de outubro, levou a nova equipe para um ciclo de trabalho de seis meses. Por causa do problema com a Shenzhou-20, a cápsula da missão mais recente permaneceu menos tempo do que o previsto acoplada ao laboratório orbital, já que foi utilizada para trazer de volta os três astronautas chineses. A CMSA informou que, quando chegar a vez de a equipe atual retornar, a Shenzhou-22 será enviada vazia, garantindo a continuidade das operações com uma nave de descida em condições ideais.
O episódio reforça uma preocupação crescente no setor espacial, a necessidade de mitigar o lixo orbital e de planejar sistemas de resgate. A situação lembra o caso dos astronautas da NASA Butch Wilmore e Suni Williams, que permaneceram cerca de nove meses na Estação Espacial Internacional após uma falha da cápsula Boeing Starliner, em uma missão originalmente planejada para oito a 10 dias. Especialistas defendem que episódios de “pessoas presas no espaço” sirvam de base para protocolos internacionais de contingência.
Mesmo com o contratempo, a China segue fortalecendo seu programa espacial tripulado. A Tiangong mantém cronograma de experimentos, manutenção e acoplamentos, e as medidas de proteção contra detritos espaciais vêm sendo ampliadas, da instalação de escudos a ajustes de órbita quando necessário. Para os astronautas chineses, a volta segura fecha um capítulo complexo, enquanto o aprendizado operacional, do diagnóstico de danos ao uso de uma cápsula alternativa, deve orientar os próximos passos do país em suas missões de longa duração.

