Para o cientista climático, a COP30 deve acelerar cortes de emissões, impulsionar energias renováveis e cumprir o Acordo de Paris para manter a temperatura abaixo de 2 °C
Os olhares do mundo se voltam para Belém, no Pará, onde a COP30, a Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas de 2025, reúne países para negociar saídas concretas para a crise climática. Um dos principais nomes da ciência do clima no Brasil, Carlos Nobre, afirma que a reunião precisa ser, de fato, transformadora. Em entrevista à Agência FAPESP, ele defendeu que a COP30 seja a mais importante em termos de ações efetivas, com foco em cortes acelerados de emissões e na transição energética.
Para Nobre, a janela de oportunidade está se fechando. Em tom de alerta, o pesquisador sublinha: “Estamos cada vez mais perto de uma tragédia climática”. Por isso, ele reforça que a COP30 não pode se limitar a declarações de intenção, mas sim pactuar compromissos verificáveis, cronogramas e mecanismos de financiamento que permitam aos países reduzir rapidamente gases de efeito estufa e ampliar o uso de energias renováveis.
Amazônia e o risco de ponto de não retorno
Um dos pontos mais sensíveis para o Brasil na COP30 é a Amazônia. Nobre explica que evitar um ponto de não retorno depende de segurar o aquecimento global. A ciência estima que cruzar certos limiares acelera a degradação da floresta, desequilibra o regime de chuvas e reduz a capacidade de absorção de carbono, agravando o aquecimento.
Segundo o pesquisador, se a temperatura média do planeta subir além de 2 °C, o risco de colapso de serviços ecossistêmicos cresce. Ele destaca exatamente: “O cientista explica que, se esse nível for atingido, a Amazônia deixaria de funcionar como floresta e passaria a emitir mais carbono do que absorve. Isso criaria um círculo vicioso, alternando ainda mais o equilíbrio climático do nosso planeta.” Em outras palavras, sem ação contundente na COP30, o bioma pode passar de solução a problema climático.
Metas de emissões e a urgência de cortes até 2030 e 2050
Nobre recorda que, na COP26, em Glasgow, países concordaram em limitar o aquecimento a 1,5 °C. Para isso, ele enfatiza a necessidade de reduzir 43% das emissões até 2030 e zerar o saldo de emissões líquidas até 2050. Essa trajetória, segundo o cientista, ainda está distante, e exige que a COP30 recoloque o mundo no rumo do Acordo de Paris, com metas mais ambiciosas e prazos realistas, mas firmes.
Em suas palavras: “Portanto, na minha opinião, a COP30 tem que ser, assim como foi a COP21, com o Acordo de Paris, e depois a COP26, a COP mais importante. Todos os países, ainda que os Estados Unidos não estejam dentro, têm de acelerar demais a redução das emissões. É um enorme desafio. A China colocou pequenas metas de redução até 2035. Precisa acelerar demais. Hoje é o país que mais emite, junto com a Índia. Já os Estados Unidos têm de esperar que o próximo presidente mude essa política.” A fala espelha o entendimento de que as maiores economias, especialmente China, Índia e Estados Unidos, precisam liderar cortes e destravar cooperação e financiamento para países em desenvolvimento.
Para o Brasil, que sedia a COP30, o desafio adicional é articular ambição global com uma agenda doméstica que acelere a transição energética, combata o desmatamento e promova inovação em energias renováveis, ao mesmo tempo em que incentiva novas cadeias produtivas de baixo carbono na Amazônia.
O que está em jogo acima de 2 °C
O cientista alerta que romper o limite de 2 °C abre caminho a danos profundos e, em grande parte, irreversíveis. Ele cita a possibilidade de colapso de ecossistemas marinhos, perdas de biodiversidade em terra e aceleração de processos que aquecem ainda mais o planeta.
Nas palavras do pesquisador: “Nós vamos fazer com que descongele o solo congelado da Sibéria, norte do Canadá e norte do Alasca, o chamado permafrost, que congelou há milhões e milhões e milhões de anos e represou uma quantidade gigantesca de gás de efeito estufa, como o metano, que é 28 a 30 vezes mais poderoso para reter o calor em comparação com o gás carbônico. E já começou a descongelar. Até 2100, mais de 200 bilhões de toneladas desses gases do permafrost vão ser lançados na atmosfera. Nós vamos acelerar demais o derretimento do manto de gelo na Groenlândia. Isso vai aumentar muito o nível do mar e também de parte da Antártica Ocidental. Vamos praticamente derreter o gelo do mar Ártico e ali do oceano do lado da Antártica.”
O alerta é claro: a COP30 precisa sinalizar cortes imediatos, ampliar investimentos em energias limpas e estruturar mecanismos para viabilizar a descarbonização global. Na prática, isso envolve acelerar a substituição de combustíveis fósseis, eliminar subsídios ineficientes e fortalecer o financiamento climático.
Ao fim, Nobre resume o que se espera de Belém: a soma da ambição com a execução. Para evitar o cenário descrito, ele frisa que todos os países têm que concordar em acelerar a redução das emissões e que é preciso incentivar o uso de energias renováveis, impulsionando a transição energética global. Se o recado for ouvido, a COP30 pode marcar o início de um novo ciclo de ação climática, capaz de manter o aquecimento sob controle e proteger a Amazônia e o clima do planeta.
Entrevista e dados: Agência FAPESP.

