Monumento maia Aguada Fénix, com 3.050 anos, pode representar um mapa do Universo, aponta estudo na Science Advances

Monumento maia representa mapa do Universo, revela estudo

Pesquisadores sugerem que o monumento maia Aguada Fénix, no sudeste do México, foi usado por cerca de 300 anos como modelo do cosmos, com alinhamentos solares e artefatos rituais

Um novo estudo publicado na revista Science Advances apresenta evidências de que o monumento maia Aguada Fénix, no sudeste do México, funcionava como uma representação do universo para essa antiga civilização. Com 3.050 anos de idade e uso estimado por cerca de 300 anos, o complexo foi identificado por meio de equipamentos de sensoriamento remoto durante um sobrevoo, revelando um platô artificial de terra com calçadas, canais e corredores.

De acordo com os cientistas, o sítio recebeu o nome de Aguada Fénix e é o mais antigo e maior sítio arquitetônico da área ocupada pelos antigos maias. A descoberta reforça a relevância da astronomia maia e da sua visão de mundo, confirmando a sofisticação de suas práticas rituais e urbanísticas muito antes das construções mais famosas, como Chichén Itzá.

Descoberta, datação e a escala monumental de Aguada Fénix

As análises conduzidas por arqueólogos indicam que Aguada Fénix foi erguido há 3.050 anos, tendo sido utilizado por cerca de 300 anos. O complexo é formado por um vasto platô artificial feito de terra, com amplas calçadas, além de canais e corredores, compondo uma paisagem cerimonial planejada.

No centro do sítio há uma grande plataforma retangular elevada, descrita como uma praça com capacidade para reunir mais de mil pessoas. Essa plataforma está localizada na intersecção de duas longas vias, uma orientada no sentido norte-sul e outra leste-oeste, que, segundo os pesquisadores, possivelmente eram usadas como rotas processionais em eventos públicos e rituais.

Segundo o estudo, o monumento maia Aguada Fénix antecede construções icônicas do mundo maia, sendo mais antigo do que as construções mais famosas associadas à civilização, caso de Chichén Itzá. A publicação na Science Advances detalha como o conjunto arquitetônico foi identificado e mapeado, e como a sua organização espacial se conecta a crenças cosmológicas.

Forma cruciforme, artefatos de jade e o modelo do cosmos

O que mais chamou a atenção dos pesquisadores foi o formato da construção. O local apresenta cruzes de tamanhos crescentes e uma cavidade cruciforme no centro, onde foram encontrados preciosos artefatos rituais. Dentro desse espaço havia ainda uma cavidade menor que continha um conjunto de artefatos de jade, também dispostos em forma de cruz.

Essa disposição sustenta a interpretação de que o monumento maia Aguada Fénix foi concebido como uma representação do universo, um modelo cosmológico materializado na arquitetura. Em palavras do autor principal do estudo, Takeshi Inomata, professor da Universidade do Arizona: “É como um modelo do cosmos ou universo. Eles acreditavam que basicamente o universo era ordenado com base nesse padrão cruciforme, e isso estava ligado à ordem do tempo. Antes deste sítio não havia construções substanciais. Não havia praticamente nada arqueologicamente; eles nem mesmo usavam cerâmica.

Esse depoimento reforça a ideia de que a arquitetura maia, desde períodos muito antigos, já sintetizava cosmologia, tempo e ritual, dando forma física a crenças estruturantes da sociedade, ainda em uma fase em que a materialidade arqueológica era escassa.

Alinhamentos solares, calendário maia e uso ritual

O estudo também descreve que o eixo leste-oeste da estrutura monumental está alinhado com a direção do nascer do sol em 17 de outubro e 24 de fevereiro. Esses alinhamentos sugerem que o monumento maia Aguada Fénix pode ter funcionado como um local ritual em dias importantes do calendário maia, integrando observações astronômicas com celebrações e práticas coletivas.

A presença das duas vias principais, norte-sul e leste-oeste, reforça a hipótese de rotas processionais que convergiam para a praça elevada, onde a comunidade poderia se reunir, observar os fenômenos celestes e realizar ritos marcados pela passagem do tempo. As evidências indicam que o complexo não era permanentemente ocupado, sendo possivelmente utilizado como local de reunião e adoração durante a estação seca, quando a visibilidade do céu e a disponibilidade de recursos favoreciam grandes congregações.

Com a combinação de plataformas monumentais, geometria cruciforme e alinhamentos solares precisos, o monumento maia Aguada Fénix se destaca como peça-chave para entender a astronomia maia, a organização social e a dimensão ritual da civilização. Além de ser o mais antigo e maior sítio arquitetônico desse território, o complexo oferece um raro vislumbre de como os maias estruturaram sua visão de mundo e traduziram o cosmos em arquitetura e paisagem.

Ao iluminar a relação entre espaço sagrado e ordem do tempo, a pesquisa reforça Aguada Fénix como um marco para a arqueologia mesoamericana, contribuindo para debates sobre a origem de centros cerimoniais, a evolução do calendário maia e a forma como sociedades antigas converteram céu e terra em um só mapa.

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