Amazônia enfrenta incêndios e conflitos agrários: por que São Félix do Xingu lidera as queimadas no Pará mesmo com queda no desmatamento

Amazônia enfrenta incêndios e conflitos agrários mesmo com queda no desmatamento

Amazônia enfrenta incêndios e conflitos agrários, com quase 18 milhões de hectares queimados em 2024 e mais de 7 mil incêndios em São Félix do Xingu, apesar da queda no desmatamento e às vésperas da COP30 no Pará

Fogo fora de controle e impactos ambientais

Mesmo com redução do desmatamento pelo quarto ano consecutivo, a Amazônia enfrenta incêndios e conflitos agrários que expõem um cenário crítico para a floresta e para as comunidades locais. Segundo a AFP, a combinação de estiagem prolongada, práticas rurais que dependem do uso do fogo e falta de fiscalização alimenta uma crise ambiental e social que reacende o debate sobre o futuro do bioma.

Em São Félix do Xingu, no Pará, apelidado de “país do boi”, o fogo segue como ferramenta corrente entre pecuaristas. Conhecida como “João Vermelho”, a técnica de queimar a pastagem para limpar áreas é vista como barata, porém arriscada. “Mão de obra e pesticidas são caros, e aqui não há apoio público”, afirmou o fazendeiro Antônio Carlos Batista, que possui 900 cabeças de gado. Na seca extrema, esse expediente se transforma em incêndios que saem do controle com rapidez.

A seca recorde de 2024, associada às mudanças climáticas, agravou o problema e levou a uma destruição inédita. Segundo a AFP, “devastaram quase 18 milhões de hectares da Amazônia brasileira. Pela primeira vez, a área de floresta queimada superou a de pastagens”. A vegetação seca tornou o fogo mais intenso e difícil de conter, elevando as emissões associadas às queimadas e comprometendo serviços ecossistêmicos essenciais.

De acordo com os dados relatados, a maioria dos focos começou em fazendas de gado, avançando sobre áreas de floresta com velocidade. Em 2024, “São Félix do Xingu registrou mais de 7 mil incêndios, tornando-se o município com o maior número de ocorrências do país”. O quadro reforça como a paisagem dominada pela pecuária e pela expansão agropecuária permanece vulnerável a queimadas, especialmente sob calor intenso e estiagem prolongada.

Conflitos e desigualdade agravam a crise

O Pará, que sediará a COP30 em 2025, concentra as maiores emissões de dióxido de carbono ligadas ao desmatamento no país, conforme a AFP. Em São Félix do Xingu, com 2,5 milhões de cabeças de gado, o contraste entre grandes produtores e pequenos agricultores evidencia tensões no campo e a pressão sobre a floresta. Para muitos moradores, a ausência do Estado e a insegurança fundiária são fatores que perpetuam o ciclo de fogo e desmatamento.

Enquanto empresas de grande porte, como a Agro SB, dona da fazenda Lagoa do Triunfo, acumulam multas ambientais não pagas desde 2013, agricultores familiares relatam falta de assistência e perseguição. “Nos chamam de criminosos da Amazônia, mas ninguém nos ajuda”, diz o agricultor Dalmi Pereira, morador da comunidade de Casa de Tábua. O descompasso entre fiscalização efetiva de grandes infrações e o cotidiano de pequenos produtores aprofunda desigualdades e alimenta tensões locais.

A infraestrutura precária para combate ao fogo também é um gargalo. Em diversas comunidades, não há brigadas de incêndio ou equipamentos básicos. “Quando há fogo, quem apaga somos nós”, afirmou o prefeito e pecuarista Fabrício Batista, que já foi multado por desmatamento. Sem suporte contínuo, pequenos e médios produtores seguem recorrendo ao fogo como manejo, apesar dos riscos crescentes, o que mantém viva a realidade de que a Amazônia enfrenta incêndios e conflitos agrários de forma recorrente.

Além da escassez de políticas públicas no território, pesam a dependência histórica do fogo como ferramenta de limpeza de área, a presença limitada do Estado em regiões remotas, conflitos fundiários e a concentração de terras, incentivos econômicos que favorecem a expansão da pecuária e o alto custo de métodos sustentáveis de manejo. O resultado é um ambiente propício a incêndios, especialmente durante secas severas.

Fiscalização, 2025 e o que esperar com a COP30

Apesar do cenário de 2024, há sinais positivos para 2025. Segundo a AFP, “dados recentes apontam uma redução no número de incêndios em 2025, o menor índice desde 1998”. Especialistas relacionam essa melhora à fiscalização intensificada durante o governo Lula e à neutralização dos efeitos de El Niño e La Niña, que reduziram as condições extremas no início do período seco.

O desafio, porém, permanece identificar e punir os responsáveis por incêndios criminosos. Como explicou o presidente do Ibama, Rodrigo Agostinho, “É preciso perícia, imagens de satélite e inteligência artificial para encontrar os responsáveis”. Avançar nessa investigação depende de integração entre órgãos ambientais, Ministérios Públicos e forças de segurança, além de tecnologia e monitoramento contínuo por satélite.

Para a diretora científica do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia, Ane Alencar, a recuperação exige políticas públicas duradouras e o engajamento da população. Isso inclui assistência técnica e crédito para transição a manejo sem fogo, apoio a brigadas comunitárias e segurança fundiária, medidas que reduzem a vulnerabilidade das áreas rurais. Sem esse conjunto, a Amazônia enfrenta incêndios e conflitos agrários de forma cíclica, com impactos sobre clima, biodiversidade e a economia local.

Com a COP30 marcada para Belém em 2025, o Pará estará no centro da agenda climática global. O estado, que hoje concentra emissões atreladas ao desmatamento, tem a oportunidade de demonstrar capacidade de reduzir queimadas, fortalecer a fiscalização e apoiar produtores na transição para práticas sustentáveis. A mensagem que sai da região de São Félix do Xingu é clara, sem ações coordenadas e de longo prazo, a floresta e seus povos seguirão sob risco.

As informações citadas nesta reportagem são da AFP e reforçam a urgência de políticas consistentes para que a Amazônia enfrenta incêndios e conflitos agrários deixe de ser o retrato recorrente da estação seca.

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