Ocupação da Amazônia por povos antigos: LiDAR revela engenharia de água nos lagos Rogaguado e Ginebra, na Bolívia, com agricultura resiliente entre 600 e 1400 d.C.

Ocupação da Amazônia por povos antigos revela lições de sustentabilidade

Arqueologia, clima e gestão da água: uma leitura atual de um passado amazônico sofisticado

Novas evidências no sudoeste da Amazônia, nos grandes lagos Rogaguado e Ginebra, mostram que a Ocupação da Amazônia por povos antigos foi muito mais planejada e engenhosa do que se supunha. Sob pastagens e águas rasas, pesquisadores identificaram terraplenagens, campos elevados e sistemas de canais que redesenharam a paisagem para viver e produzir em ambientes sazonalmente inundados. “Lagos Ginebra foi um dos locais ocupados pelos humanos no passado”, registram os autores.

A área estudada integra a Área Protegida Municipal dos Grandes Lagos Tectónicos de Exaltación, na Bolívia, e pertence ao complexo de pântanos Río Yata Ramsar. Como destacam os pesquisadores, trata-se de um território “reconhecido pela UNESCO por sua importância ecológica e cultural”. Essa localização estratégica, aliada a ferramentas modernas como o mapeamento LiDAR, ajudou a revelar uma ocupação de longa duração e altamente adaptativa.

Por meio de escavações e de LiDAR, os cientistas localizaram uma rede de sítios arqueológicos e reconstruíram a cronologia da presença humana. “Ocupação humana na floresta data de cerca de 600 a 1400 d.C.” e “As conclusões foram descritas em estudo publicado na revista Frontiers in Environmental Archaeology”. Os achados oferecem um espelho valioso para o presente, sobretudo diante do avanço do desmatamento e do agravamento da crise climática.

Infraestrutura hidráulica e agricultura adaptada às cheias

Os registros identificados incluem valas circulares e quadrangulares, canais de drenagem, campos elevados e aglomerados de montes, compondo um complexo sistema de controle hídrico e de cultivo. Em síntese, “Sinais de terraplenagens, campos elevados e sistemas de canais complexos foram descobertos”, evidenciando um conhecimento profundo das dinâmicas de cheias e vazantes.

Segundo o estudo, essas estruturas “foram cuidadosamente projetadas para gerenciar inundações, canalizar água e criar espaços habitáveis e cultiváveis em um ambiente sazonalmente inundado”. Elas não seguiram um único plano, mas sim um repertório diversificado de soluções: “Sua variedade, de recintos geométricos a plataformas de cultivo alongadas, sugere não um único plano, mas séculos de experimentação local e adaptação às mudanças nas condições ecológicas e sociais”.

Em termos de sustentabilidade, a Ocupação da Amazônia por povos antigos demonstra que é possível alinhar produção de alimentos, conservação de recursos hídricos e habitação em cenários desafiadores. O uso de campos elevados, por exemplo, reduz o estresse das plantas durante alagamentos, melhora a drenagem e aumenta a resiliência das colheitas, um princípio que ecoa em práticas agrícolas de baixa emissão e de manejo integrado da água.

Paquío e Jasschaja: cronologia, manejo da água e diversidade de cultivos

Entre os sítios estudados, Paquío se destaca. As primeiras evidências humanas no local datam de aproximadamente 600 d.C., e a ocupação mais intensa ocorreu entre 1000 e 1200 d.C.. Depósitos de cerâmica, uma rede elaborada de canais e campos elevados foram associados a uma agricultura baseada no milho, sugerindo uma economia flexível e adaptada às inundações sazonais.

Já em Jasschaja, datado entre 1300 e 1400 d.C., emergem transformações mais amplas da paisagem e maior diversidade de plantas. Essa combinação aponta para a intensificação do manejo florestal e das culturas, incorporando áreas de várzea e terra firme ao mosaico produtivo. A alternância e a sobreposição de estratégias, do cultivo de milho à gestão de espécies nativas, revelam um processo contínuo de experimentação, resposta a pressões ambientais e inovação social.

Esse retrato reforça a tese central do estudo: a Ocupação da Amazônia por povos antigos foi baseada em um uso inteligente da água, na engenharia da paisagem e na diversificação agrícola, pilares que sustentaram a permanência humana por séculos em ambientes alagáveis.

Dieta diversa e lições para o presente

As escavações indicam uma dieta pré-hispânica ampla, combinando pesca, caça e cultivos. Conforme o estudo, “Peixes-lobo e tucunaré, além de répteis como jacarés e tartarugas, e mamíferos como capivaras, pacas e tatus eram alimentos nesse período. Além disso, os povos consumiam milho e leguminosas.” Esse cardápio ressalta a integração entre várzeas, canais e campos elevados, e explica parte da resiliência dessas sociedades diante de variações climáticas e hidrológicas.

Os autores sintetizam que se trata de “Descobertas que oferecem lições de sustentabilidade em tempos de desmatamento e crise climática”. Mais do que revelar técnicas do passado, o trabalho aponta direções práticas para o presente: “Estudo aponta como as sociedades antigas transformaram as inundações sazonais da Amazônia em oportunidades de crescimento.” Em outras palavras, a água, tratada como aliada, pode estruturar paisagens produtivas, reduzir riscos e ampliar a segurança alimentar.

Para o Brasil, onde a Amazônia enfrenta pressões crescentes, esses resultados revalorizam soluções baseadas na natureza e no conhecimento tradicional, como o manejo de várzeas, a recuperação de campos elevados e a conexão entre canais, lagos e áreas de cultivo. Ao combinar ciência moderna, como o LiDAR, com o legado arqueológico, ganhamos um roteiro de adaptação climática que prioriza água, solo e biodiversidade como infraestrutura essencial.

Em última análise, a trajetória revelada pela Ocupação da Amazônia por povos antigos mostra que a segurança hídrica e alimentar pode emergir de paisagens planejadas, conectando engenharia tradicional, agricultura resiliente e valores culturais. Esse é um chamado para olhar as cheias não como ameaça, mas como oportunidade, replicando, com tecnologia atual e governança participativa, a inteligência ambiental que sustentou essas comunidades entre 600 e 1400 d.C..

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