Ciclones tropicais elevam risco de morte por semanas, diz BMJ: até 92% mais óbitos por doenças renais e chuvas mais letais que ventos

Ciclones tropicais elevam riscos de morte semanas após o evento

Estudo global analisou 14,8 milhões de mortes em 1.356 comunidades de nove países entre 2000 e 2019 e mostra que os impactos dos ciclones tropicais vão além da destruição imediata

Ciclones tropicais, também conhecidos como furacões ou tufões, não são apenas eventos de vento e chuva extrema que causam afogamentos e danos materiais imediatos. Novas evidências mostram que seus efeitos sobre a saúde humana persistem por semanas, com impacto direto na mortalidade por diversas doenças. Em um trabalho publicado na revista BMJ, pesquisadores detalham como a combinação de infraestrutura danificada, interrupções no atendimento médico e estresse físico e psicológico se traduz em mais óbitos após a passagem dos sistemas.

Segundo o estudo, “Os ciclones tropicais, também conhecidos como furacões ou tufões, estão entre os desastres climáticos mais destrutivos do planeta.” No Brasil e em outros países expostos, compreender essa dinâmica é vital para ajustar planos de resposta em saúde pública, especialmente em comunidades vulneráveis.

Como o estudo foi feito e onde os efeitos chamam atenção

“A pesquisa, publicada na revista científica BMJ, analisou 14,8 milhões de mortes em 1.356 comunidades de nove países, entre 2000 e 2019, que enfrentaram 217 ciclones tropicais.” A amostra abrangeu Austrália, Brasil, Canadá, Coreia do Sul, México, Nova Zelândia, Filipinas, Taiwan e Tailândia, oferecendo um panorama global e comparável sobre os impactos na mortalidade.

Os autores observaram picos de efeitos tardios após a passagem dos ciclones tropicais, quando parte da infraestrutura crítica ainda está comprometida e o acesso a serviços de saúde e medicamentos segue instável. Nesse intervalo, a exposição prolongada a inundações, a água contaminada e a falhas na rede elétrica cria um ambiente que favorece complicações clínicas e agravos de doenças crônicas.

De acordo com os autores, “Os cientistas observaram que os riscos de morte aumentam significativamente após a passagem dos ciclones, com o pico ocorrendo nas duas primeiras semanas.” Esse sinal é consistente em diferentes contextos e reforça a necessidade de monitoramento ativo e reforço assistencial além do período do impacto direto.

Quais causas de morte mais crescem nas semanas seguintes

O levantamento identificou aumentos importantes em várias causas específicas de óbito. A maior alta ocorreu em doenças renais, com 92% mais mortes. Houve ainda crescimento em lesões, com 21% por dia de ciclone na primeira semana, além de diabetes, com 15%, distúrbios neuropsiquiátricos, com 12%, doenças infecciosas, com 11%, doenças gastrointestinais, com 6%, doenças respiratórias, com 4%, e doenças cardiovasculares e câncer, com 2%. Esses percentuais refletem tanto o agravamento de condições preexistentes quanto novos riscos desencadeados pelo ambiente pós-desastre.

Entre os fatores que amplificam o risco, o estudo destaca a combinação de falhas na rede de suporte e estresse. Como pontuam os autores, “Os pesquisadores apontam que a falta de acesso a cuidados médicos, interrupções no fornecimento de energia e transporte, além do estresse físico e psicológico, são fatores que agravam a situação.” Em especial, pacientes com condições crônicas, que dependem de tratamentos regulares, ficam expostos a lacunas perigosas no cuidado. “Pacientes com doenças crônicas, como insuficiência renal, são particularmente vulneráveis, pois podem ter seus tratamentos interrompidos devido a apagões ou enchentes.”

Para sistemas de saúde do Brasil, a leitura é direta: a coordenação de nefrologia, endocrinologia, saúde mental e vigilância de doenças infecciosas precisa ser reforçada por semanas após a passagem de ciclones tropicais, considerando rotas alternativas de transporte, geradores, reposição de insumos e busca ativa de pacientes mais frágeis.

Chuvas mais letais que ventos, desigualdade e preparação

Um achado central do estudo é que o perigo não está apenas nas rajadas. “O estudo também mostrou que as chuvas provocadas pelos ciclones tropicais representam um risco maior de morte do que os ventos fortes, principalmente por doenças cardiovasculares, respiratórias e infecciosas.” Essa conclusão dialoga com a realidade de áreas sujeitas a enchentes prolongadas e deslizamentos, nas quais a água contaminada e a dificuldade de deslocamento agravam o quadro clínico. Como reforça o trabalho, “A contaminação da água e as inundações aumentam o risco de surtos de doenças e dificultam o acesso a serviços médicos.”

O peso é maior onde a estrutura é mais frágil. “De acordo com os pesquisadores, os países mais pobres sofrem de forma desproporcional, já que possuem sistemas de saúde menos estruturados e populações mais vulneráveis.” A desigualdade se traduz em maior tempo de restabelecimento de serviços básicos e em maior exposição a condições precárias de habitação, saneamento e transporte, o que potencializa o impacto dos ciclones tropicais.

O cenário tende a se agravar com o aquecimento do planeta. “Além disso, regiões que historicamente não enfrentavam ciclones estão agora mais expostas por causa das mudanças climáticas, o que pode ampliar os impactos futuros.” Na mesma linha, o estudo lembra a escala do problema: “Os autores destacam que, a cada ano, os ciclones tropicais afetam mais de 20 milhões de pessoas e causam cerca de US$ 51,5 bilhões em prejuízos.” E conclui: “Com o aquecimento global, esses eventos estão se tornando mais intensos e duradouros, exigindo novas estratégias de preparação e resposta.”

Nesse sentido, a agenda de mitigação proposta é explícita e acionável para gestores públicos e redes de saúde. “Para mitigar os efeitos, o estudo recomenda que os sistemas de saúde e meteorologia adotem medidas integradas, como incluir dados epidemiológicos nos alertas climáticos, fortalecer o atendimento em comunidades vulneráveis e ampliar o foco dos planos de emergência para além dos danos físicos imediatos.” Para o Brasil, isso significa antecipar riscos em áreas suscetíveis, mapeando pacientes crônicos dependentes de energia, reforçando estoques de medicamentos essenciais e garantindo comunicação contínua entre vigilância, defesa civil e atenção primária.

Ao colocar uma lupa na mortalidade pós-evento, o estudo da BMJ amplia a compreensão sobre ciclones tropicais e saúde pública. O recado é claro: preparar-se para a tempestade inclui planejar o depois da tempestade, quando os riscos, muitas vezes invisíveis, ainda estão no auge.

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