Tecnologia brasileira de cerâmica feita com material reciclado aponta para próteses dentárias mais resistentes, translúcidas e sustentáveis, com foco em ampliar o acesso a tratamentos
Uma cerâmica feita com material reciclado desenvolvida por pesquisadores da Faculdade de Odontologia de Bauru da USP pode redefinir o futuro das próteses dentárias no Brasil. O novo biomaterial, criado a partir do reaproveitamento de resíduos de zircônia, foi formulado para oferecer resistência e estética de alto padrão, além de propriedades antimicrobianas que contribuem para a saúde bucal.
Segundo os pesquisadores, o desempenho do produto é igual ou superior ao das cerâmicas disponíveis hoje no mercado, o que amplia o potencial de uso em odontologia restauradora e protética. Como diferencial, a inovação alia sustentabilidade, ao reduzir o descarte, e biossegurança, por diminuir a adesão bacteriana em restaurações e coroas.
Para além do laboratório, a expectativa é que a cerâmica feita com material reciclado possa contribuir para tornar tratamentos mais acessíveis, com possibilidades futuras de incorporação no Sistema Único de Saúde, SUS, beneficiando milhões de brasileiros que dependem da rede pública para reabilitação oral.
Como funciona a cerâmica multicamada que alia resistência e translucidez
A inovação parte de uma configuração multicamada que combina uma camada de alta resistência, responsável pela estrutura e durabilidade, com outra mais translúcida, voltada à estética. Em cerâmicas odontológicas, resistência e translucidez são propriedades tradicionalmente antagônicas, mas a solução proposta equilibra esses atributos por meio da associação de um vidro inovador à zircônia reciclada.
De acordo com a equipe, esse vidro atua como uma camada multifuncional que reforça a estrutura, melhora a integração entre as camadas e reduz a adesão de bactérias. Em suas palavras: “Esse vidro inovador atua como camada multifuncional, capaz de reforçar a estrutura, melhorar a integração entre as camadas e conferir propriedades antimicrobianas, reduzindo a adesão bacteriana, uma característica de grande relevância clínica na área de reabilitação oral.” A proposta promete ganhos clínicos importantes em durabilidade, higiene e conforto para o paciente.
Essa abordagem atende à demanda por cerâmica odontológica de alto desempenho, especialmente em próteses que exigem resistência mecânica e aparência natural, como coroas e pontes em regiões de grande esforço mastigatório.
Sustentabilidade: zircônia reciclada e redução de impacto ambiental
Um dos pontos mais relevantes é o reaproveitamento de resíduos de zircônia gerados durante a fabricação digital de próteses dentárias. Esse processo, comum em laboratórios que usam fresagem CAD/CAM, pode levar a um descarte elevado de material, algo que a nova técnica busca mitigar com ganhos ambientais e econômicos.
Como explica o professor Estevam Augusto Bonfante, da USP, o desenvolvimento é resultado de um projeto de pós-doutorado que aprimorou uma técnica do grupo para reciclar esse resíduo: “Este novo biomaterial é fruto de um trabalho de pós-doutorado, que aperfeiçoou uma técnica desenvolvida pelo nosso grupo de pesquisa para reciclar resíduos de zircônia gerados durante a fabricação digital de próteses dentárias, material que pode ter até 80% de seu volume descartado sem reaproveitamento.”
Ao transformar esse resíduo em um insumo valioso, a cerâmica feita com material reciclado ajuda a reduzir o impacto ambiental da cadeia de produção e indica um caminho para odontologia mais sustentável. Além do componente ecológico, a solução pode contribuir para otimizar custos em laboratórios e clínicas, sem abrir mão de qualidade e segurança.
Os pesquisadores ressaltam ainda que a cerâmica apresenta desempenho e resistência iguais ou superiores aos materiais tradicionais, além do efeito antimicrobiano aprimorado, um conjunto de benefícios que pode aumentar a longevidade clínica das reabilitações.
O que falta para chegar ao SUS e ao consultório do dia a dia
De acordo com o Jornal da USP, os novos materiais ainda estão em fase de testes laboratoriais. Essa etapa é essencial para avaliar a confiabilidade, a estabilidade e o comportamento do material em diferentes condições, sobretudo em cenários que simulam o uso real na cavidade oral, onde fatores como umidade, temperatura e carga mastigatória exigem alto desempenho.
Se os resultados forem confirmados em estudos clínicos, a cerâmica feita com material reciclado poderá ser adotada por laboratórios e clínicas, com potencial para inclusão em protocolos de saúde pública. Entre as aplicações em perspectiva estão coroas unitárias, próteses fixas e outras reabilitações orais nas quais a resistência, a translucidez e a ação antimicrobiana elevam a qualidade do tratamento.
Para a população, a combinação de acessibilidade e desempenho clínico pode significar próteses mais duráveis e com menor risco de complicações associadas à placa bacteriana. Para gestores públicos, a possibilidade de levar essa inovação ao SUS representa um avanço na oferta de odontologia restauradora de alta qualidade, com melhor custo-benefício e menor pegada ambiental.
Enquanto os testes avançam, a proposta se consolida como um exemplo de inovação brasileira que alia ciência de materiais e saúde pública, apontando para um futuro em que a cerâmica feita com material reciclado seja parte do padrão de cuidado em próteses dentárias no país.

