Com a China liderando quase 70% da produção global de terras raras, Putin ordena um plano nacional de extração e refino, enquanto Brasil e EUA correm por espaço
A Rússia entrou de vez na corrida global das terras raras, um conjunto de metais estratégicos para semicondutores, ímãs permanentes, baterias e turbinas eólicas, além de equipamentos médicos e militares. O presidente Vladimir Putin determinou que o governo finalize, até 1º de dezembro, um plano de longo prazo para ampliar a extração e o refino desses elementos, segundo a CNBC. O objetivo é reduzir a dependência da China, que domina a cadeia de suprimentos, e garantir participação em uma das cadeias industriais mais lucrativas deste século.
O movimento acontece enquanto grandes economias travam uma disputa por controle de reservas, processamento e separação química dos elementos. O interesse cresceu com a transição energética e com a chamada guerra dos chips, que elevou a importância dos insumos críticos para a indústria de alta tecnologia. Nesse cenário, a Rússia tenta acelerar projetos e atrair investimentos, mesmo enfrentando sanções econômicas e os efeitos da guerra na Ucrânia, que limitam o acesso a mercados e tecnologias ocidentais.
Por que a Rússia quer entrar de vez nas terras raras
Apesar do potencial geológico, a participação russa no mercado ainda é pequena. O país responde por apenas 0,64% da produção global de terras raras, de acordo com o Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS). Enquanto isso, a China concentra quase 70% da produção mundial, sustentada por décadas de investimento em exploração, refinarias e conhecimento químico.
Analistas ouvidos pela CNBC dizem que Moscou vê nas terras raras uma chance de reposicionar sua economia, hoje dependente de petróleo e gás. Para o consultor Willis Thomas, do CRU Group, “os russos estão correndo por uma oportunidade, enquanto os americanos correm por necessidade”. A leitura ajuda a explicar a pressa do Kremlin em ter um plano nacional para explorar jazidas, viabilizar o refino e criar parcerias com compradores asiáticos.
Especialistas lembram, porém, que minerar é a parte fácil. A vantagem chinesa está nas etapas mais complexas, como refino e separação química, processos que exigem tecnologia, escala, rigor ambiental e capital intensivo. É justamente aí que a Rússia, assim como outros países emergentes, precisa correr para reduzir gargalos e elevar sua competitividade.
China, restrições e a guerra dos chips
As terras raras voltaram ao centro da disputa entre China e Estados Unidos após Pequim anunciar novas restrições à exportação, exigindo licenças especiais para a venda ao exterior. A medida foi apresentada como forma de “proteger a segurança nacional” e é vista como resposta às sanções de Washington contra a indústria chinesa de semicondutores.
Com o controle da cadeia produtiva, a China sustenta uma clara vantagem estratégica. O cientista político Henry Farrell, da Universidade Johns Hopkins, afirma que a China “aprendeu a jogar o mesmo jogo dos EUA — e, em certos pontos, joga melhor”. Ao mesmo tempo, há alertas de que o bloqueio pode sair caro para Pequim, ao afetar sua imagem como fornecedora confiável, o que abre espaço para a reorganização da oferta global e estimula projetos em países como Rússia e Brasil.
Para os EUA, a reação envolve reativar cadeias domésticas, diversificar fornecedores e investir em processamento fora da China. É nesse tabuleiro que a decisão russa de priorizar terras raras ganha relevância, já que novos centros de refino e separação podem redesenhar fluxos comerciais e reduzir riscos de interrupções na guerra dos chips.
Onde o Brasil entra na corrida das terras raras
As terras raras são um grupo de 17 elementos químicos, formados pelos lantanídeos, mais o escândio e o ítrio. Apesar do nome, não são exatamente raros, mas ocorrem em baixas concentrações e exigem processos complexos de separação e refino. São essenciais para produtos de tecnologia de ponta, de ímãs e semicondutores a baterias de carros elétricos e turbinas eólicas.
Nesse cenário, o Brasil surge como um ator com potencial. Segundo o Serviço Geológico do Brasil, o país possui a segunda maior reserva mundial de terras raras, com 21 milhões de toneladas, atrás apenas da China. Ainda assim, a produção brasileira é mínima, foram 20 toneladas em 2024, menos de 1% do total global, reflexo de entraves tecnológicos e de infraestrutura em refino e separação.
Nos últimos meses, surgiram sinais de mudança. Em Aparecida de Goiânia, Goiás, foi inaugurada a primeira fábrica do país voltada ao processamento de terras raras para ímãs, usados em motores elétricos e turbinas eólicas. A planta utiliza argila iônica extraída no interior do estado e alcança pureza superior a 95%, segundo a empresa responsável. É um passo inicial para inserir o Brasil em uma cadeia estratégica que combina transição energética, inovação industrial e soberania tecnológica, tema que deve ganhar força no debate da COP30.
Para a Rússia, o avanço brasileiro serve de referência e alerta. O desafio comum é transformar reservas e projetos-piloto em capacidade competitiva de refino e separação química, etapa onde a China ainda reina. Se Moscou conseguir cumprir o cronograma, superar barreiras de financiamento e mitigar os efeitos das sanções, ampliará seu peso nas terras raras e reduzirá vulnerabilidades na economia. Se o Brasil acelerar a industrialização, pode converter suas reservas em empregos, divisas e protagonismo tecnológico.
No curto prazo, a disputa deve se intensificar. Com China consolidada na liderança, EUA em alerta e Rússia e Brasil tentando ganhar tração, o mercado de terras raras tende a se tornar ainda mais estratégico para cadeias de ímãs, baterias e semicondutores. E, para consumidores e indústrias, isso significa que a geopolítica dos materiais críticos continuará a influenciar preços, oferta e inovação nos próximos anos.

