Sondas solares registraram o cometa 3I/ATLAS mais azul que o Sol, mas pesquisadores explicam que o brilho vem da coma gasosa, não de uma transformação física
O cometa 3I/ATLAS, o terceiro objeto interestelar já detectado cruzando o Sistema Solar, voltou aos holofotes depois que sondas solares o flagraram aparentemente mais azul durante a passagem pelo Sol no fim do mês passado. A interpretação rápida foi que o cometa teria mudado de cor, o que viralizou em redes sociais. Pesquisadores, porém, esclarecem que o 3I/ATLAS não mudou de cor. O que as câmeras viram, explicam, foi o brilho reforçado de sua coma gasosa, que pode deixar o objeto “nitidamente mais azul” em certas imagens, principalmente quando comparado à luz do Sol.
As conclusões fazem parte de um estudo preliminar disponível no arXiv, que ainda aguarda revisão por pares. Segundo os autores, a coloração azulada já vinha sendo registrada antes do encontro com a estrela. A diferença agora é a ênfase do gás na luminosidade total, algo típico quando cometas se aproximam do periélio, o ponto de maior aquecimento em suas órbitas.
Por que o 3I/ATLAS pareceu mais azul, e o que a ciência diz
Cometas são compostos por gelo, rochas e poeira. Quando se aproximam do Sol, parte desse gelo evapora e forma a coma, uma nuvem de gases que pode dominar o brilho do objeto e alterar a aparência nas imagens, dependendo dos filtros e sensores utilizados. Foi exatamente esse efeito que deixou o 3I/ATLAS com um tom azulado mais evidente nas recentes observações solares.
De acordo com Qicheng Zhang, do Observatório Lowell, membro da equipe que analisou os dados, não há evidência de alteração intrínseca na cor do cometa. Em suas palavras, “Nosso resultado apenas mostrou que a coma gasosa provavelmente ainda está presente e contribuindo substancialmente para o brilho geral”, disse o astrônomo ao site Space.com. Zhang também enfatiza que o cometa segue luminoso, “mas sem alteração real na cor”.
Os cientistas ressaltam que o 3I/ATLAS já exibira essa tonalidade azul esverdeada em imagens anteriores, incluindo registros de astrônomos amadores, o que reforça a interpretação de que o novo aspecto se deve principalmente à contribuição de gases na coma, não a uma mudança física do núcleo ou dos grãos de poeira.
Do periélio às câmeras: o que os instrumentos viram e quando
Descoberto em julho, o 3I/ATLAS atingiu o periélio em 29 de outubro, quando foi observado por três observatórios solares. Nessa ocasião, o objeto apresentou um aumento de brilho considerado rápido e superior ao esperado para cometas em distâncias semelhantes do Sol. As imagens mostraram o cometa mais azul que o Sol em certos filtros, o que contrasta com registros anteriores nos quais a poeira avermelhada parecia mais dominante.
As equipes compararam as capturas lado a lado, incluindo composições com uma estrela de referência e filtros múltiplos, sempre alinhadas com o norte para cima. Esses conjuntos de imagens ajudam a separar os efeitos da luz solar, dos filtros e da própria física do cometa, permitindo concluir que a coma foi a grande responsável pelo visual mais azulado, não uma mudança de coloração do material do 3I/ATLAS.
Registros em longa exposição, como o do Espectrógrafo Multiobjeto Gemini no Telescópio Gemini Sul, do NOIRLab, já mostravam detalhes do cometa antes do periélio. Além disso, o Telescópio Espacial Hubble capturou o 3I/ATLAS já azul em 21 de julho de 2025, quando o objeto estava a 445 milhões de quilômetros da Terra, reforçando que a coloração não surgiu apenas perto do Sol.
Quando o 3I/ATLAS passa mais perto da Terra, e por que ele é importante
Depois de contornar o Sol, o 3I/ATLAS segue sua trajetória para fora do Sistema Solar. A expectativa agora é pela aproximação mínima da Terra em 19 de dezembro, quando o cometa interestelar passará a cerca de 270 milhões de quilômetros do nosso planeta. Mesmo distante, ele seguirá sendo monitorado por telescópios profissionais e por uma rede de observadores ao redor do mundo, inclusive com transmissões online.
Por ser um visitante interestelar, o 3I/ATLAS oferece uma oportunidade rara de comparar materiais e processos físicos com aqueles de cometas nativos do Sistema Solar. Sondas e observatórios já apontaram suas câmeras para ele, entre elas a ExoMars Trace Gas Orbiter, da Europa, e a Tianwen-1, da China, que orbitam Marte. O satélite Mars Reconnaissance Orbiter, da NASA, também deve ter feito registros durante a passagem próxima ao planeta vermelho, embora a agência ainda não tenha divulgado dados devido à paralisação do governo dos EUA.
Para o público, a mensagem é direta e baseada nas evidências reunidas até aqui. O cometa 3I/ATLAS não passou por uma transformação cromática, ele apenas exibiu com mais força a luz de sua coma gasosa, o que o deixou “nitidamente mais azul” em determinadas imagens. À medida que se afasta do Sol, o brilho deve variar, a atividade pode diminuir, e a ciência seguirá esmiuçando cada detalhe desse raro viajante, que ajuda a contar a história de ambientes além da nossa vizinhança cósmica.

