O boom de conteúdos nas redes e a escalada da testosterona sem necessidade
Uma onda de vídeos curtos tem transformado a testosterona em suposto atalho para desempenho, energia e masculinidade. Em perfis no TikTok e no Instagram, criadores incentivam exames e sugerem reposição hormonal mesmo para quem não recebeu diagnóstico médico, normalizando a testosterona sem necessidade entre homens jovens e saudáveis. Segundo reportagem do The Guardian, endocrinologistas do NHS, o sistema público de saúde do Reino Unido, registram aumento de pacientes influenciados por esse conteúdo, muitos deles já em uso de TRT, a terapia de reposição de testosterona, sem indicação clínica.
Especialistas relatam que a narrativa de “baixa testosterona” virou produto de marketing, com influenciadores promovendo clínicas privadas e pacotes de exames como porta de entrada para a testosterona sem necessidade. Embora medicamentos controlados tenham publicidade proibida no Reino Unido e no Brasil, a reportagem identificou criadores oferecendo códigos de desconto e sorteios, vendendo a ideia de que é possível “assumir o controle” do corpo por conta própria.
Vídeos viralizam, testes privados disparam e clínicas surfam a moda
O fenômeno avança em paralelo ao culto ao desempenho e à estética, ancorado em figuras da chamada “manosfera digital”, que associa força e virilidade a níveis hormonais mais altos. Na prática, a promessa de melhora rápida se apoia em sinais inespecíficos, como cansaço, falta de foco ou queda de motivação, que têm múltiplas causas possíveis, e acaba empurrando muitos para a testosterona sem necessidade.
De acordo com o The Guardian, esse conteúdo tem levado homens a buscar clínicas privadas que, após exames laboratoriais, encaminham para TRT mesmo com níveis dentro da normalidade. A endocrinologista Chana Jayasena, presidente da Rede de Andrologia da Sociedade de Endocrinologia do Imperial College London, descreveu o impacto direto na rede pública: “Endocrinologistas do Reino Unido estão atendendo pacientes dessas clínicas semanalmente […] e isso está afetando seriamente o atendimento do NHS.”
O resultado é uma porta giratória em que pacientes chegam ao NHS já em uso de hormônios, frequentemente sem acompanhamento adequado, e com dúvidas ou efeitos colaterais. Nessa dinâmica, a testosterona sem necessidade deixa de ser apenas um modismo e se torna desafio de saúde pública.
Riscos reais: infertilidade, coágulos e problemas cardíacos
Embora a testosterona tenha papel reconhecido quando há hipogonadismo confirmado, a reposição indiscriminada traz riscos. Especialistas alertam que a terapia pode suprimir a produção natural do hormônio pelo organismo, sobretudo em jovens, elevando o risco de infertilidade. Também há associação com coágulos sanguíneos, problemas cardíacos e transtornos de humor, efeitos que se contrapõem à promessa de desempenho propagada nas redes.
Como reforçou Jayasena ao The Guardian, a indicação deve ser criteriosa e baseada em exames repetidos e sintomas compatíveis. “Essas clínicas estão prescrevendo testosterona para homens que não precisam. Não há evidências de que níveis acima de 12 nmol/L tragam benefícios.” Em outras palavras, para quem já tem níveis normais, a testosterona sem necessidade é ineficaz e potencialmente perigosa.
Apesar de o tema ser complexo, alguns pontos são centrais para o público entender a dimensão do problema: a reposição pode inibir o eixo hormonal, complicar a fertilidade, e nem sempre melhora sintomas inespecíficos. Há ainda relatos de atendimento a menores de 18 anos em clínicas privadas, o que amplia a preocupação entre médicos.
TRT é cara, tem indicação restrita e sobrecarrega o sistema público
Além dos riscos clínicos, há o custo. Segundo a apuração, a terapia de reposição de testosterona custa entre £ 1.800 e £ 2.200 por ano, com consultas, medicação e acompanhamento incluídos. Em reais, o gasto anual pode passar de R$ 12 mil. Muitos entram nessa jornada via pacotes de exames e promessas de benefícios rápidos, sem o devido crivo diagnóstico, o que configura mais um motor da testosterona sem necessidade.
Médicos do NHS relatam que o volume de casos oriundos de clínicas privadas, impulsionados por influenciadores, tem efeito cascata sobre a rede pública, que precisa revisar prescrições, manejar efeitos adversos e orientar a suspensão segura quando não há indicação. Para especialistas, trata-se de mais um capítulo em que a desinformação online pressiona orçamentos e equipes, desviando atenção de casos que de fato exigem terapia hormonal.
Nesse cenário, compreender as indicações legítimas de TRT é crucial. O diagnóstico de hipogonadismo exige sintomas consistentes, avaliação clínica e exames repetidos, com faixas de referência claras e interpretações cautelosas. Para quem tem níveis dentro da normalidade, reforçam os especialistas, a testosterona sem necessidade não entrega os supostos ganhos de performance e ainda expõe a riscos. Na dúvida, a orientação é buscar avaliação endocrinológica, fugir de atalhos e desconfiar de promessas que começam com cupom de desconto e terminam em receituário.
Enquanto a cultura do desempenho continuar a premiar soluções instantâneas, redes sociais seguirão testando limites. A resposta, apontam médicos, passa por informação de qualidade, regulação ativa sobre publicidade disfarçada e por um recado direto aos usuários: saúde hormonal não é trend, e testosterona sem necessidade não é sinônimo de bem-estar.

