Golfinhos-corcunda-australianos, Sousa sahulensis, foram vistos oferecendo esponjas como se fossem buquês, um ritual de cortejo que pode fortalecer a reprodução da espécie
Uma cena inusitada conquistou as águas da Austrália Ocidental e intrigou pesquisadores. Em recifes e enseadas da Península de Burrup, golfinhos usam chapéus de esponja sobre a cabeça, exibem o item como um adereço e parecem apresentá-lo às fêmeas, em uma espécie de oferta romântica. O comportamento foi documentado por cientistas do Department of Biodiversity, Conservation and Attractions, o DBCA, e rapidamente virou assunto entre especialistas em comportamento animal e conservação marinha.
Segundo o DBCA, a prática, observada entre golfinhos-corcunda-australianos (Sousa sahulensis), é “semelhante a oferecer um buquê de flores”. Em outras palavras, as esponjas funcionam como uma oferenda de corte usada para encantar fêmeas. Para os pesquisadores, exibições desse tipo costumam estar associadas à seleção sexual, em que machos mostram habilidades, criatividade e vigor, o que pode aumentar suas chances de acasalamento.
Onde e como o comportamento foi registrado
O registro dos chapéus de esponja ocorreu na Península de Burrup, na Austrália Ocidental, área conhecida por agregações de golfinhos e recifes ricos em invertebrados. Em uma publicação no Instagram, o DBCA detalhou que a moda marinha foi flagrada por equipes de campo e por profissionais do WA Parks and Wildlife Service, chamando atenção pelo caráter performático. As imagens mostram machos carregando esponjas marinhas no topo da cabeça e interagindo com fêmeas nas proximidades.
Embora golfinhos sejam famosos por sua inteligência e por tradições culturais aprendidas em grupo, a utilização de esponjas como adereço de cortejo entre Sousa sahulensis era desconhecida. A prática se diferencia de outros usos de esponjas já documentados em cetáceos, o que reforça a hipótese de que se trata de uma inovação comportamental local, possivelmente transmitida socialmente entre machos da mesma população.
Por que as esponjas funcionam como “oferenda” e o que dizem os cientistas
Os pesquisadores relatam que as esponjas apresentadas possuem tamanhos, formas e cores variadas, o que pode tornar a exibição mais chamativa e, portanto, mais eficiente em contextos de corte. A bióloga marinha Holly Raudino, do DBCA, explicou à Australian Broadcasting Corporation que as esponjas usadas têm “formatos e tamanhos diferentes, cores diferentes, mas todas parecem estar concentradas nesta área específica [da Austrália Ocidental]”. Para além do apelo visual, carregar, equilibrar e oferecer uma esponja pode sinalizar destreza e qualidade física, traços valorizados em disputas reprodutivas.
Há registros de que golfinhos-nariz-de-garrafa (Tursiops truncatus) utilizam esponjas no bico para proteger o rosto durante a caça, algo comparado a um nariz de palhaço, e que compostos bioativos desses invertebrados marinhos podem auxiliar em infecções de pele. A novidade, no entanto, está na motivação. Neste caso, golfinhos usam chapéus de esponja como parte de um ritual de corte, uma performance cujo objetivo central é atrair e impressionar parceiras, e não apenas facilitar a alimentação ou o cuidado com a saúde.
Uma espécie vulnerável e o papel do comportamento na conservação
O golfinho-corcunda-australiano é classificado como uma espécie vulnerável. Estimativas apontam que haja menos de 10 mil adultos, e que a perda e a degradação de seu habitat estão associadas às indústrias de petróleo e minerais, de acordo com um estudo publicado em 2023 e liderado por Holly Raudino. Em cenários assim, cada comportamento que possa estimular o interesse reprodutivo ganha relevância, já que pequenos aumentos no sucesso de acasalamento podem ter impactos positivos na dinâmica populacional.
Para gestores ambientais e equipes de conservação, entender quando, como e por que golfinhos usam chapéus de esponja ajuda a identificar áreas e períodos críticos de exibição reprodutiva, o que pode orientar políticas de proteção de habitats costeiros, inclusive com regras de navegação mais restritivas em zonas de cortejo. Também reforça a importância de monitorar tradições culturais em mamíferos marinhos, dado que comportamentos sociais inovadores podem desempenhar um papel subestimado na resiliência de populações ameaçadas.
Embora ainda sejam necessárias mais observações para quantificar a frequência e o impacto reprodutivo exato do ritual, o consenso inicial entre os pesquisadores é que se trata de uma exibição de corte com potencial adaptativo. Entre ciência e curiosidade, a moda subaquática dos chapéus de esponja destaca, mais uma vez, a plasticidade comportamental dos golfinhos e a urgência de manter seus ambientes intactos e funcionais para que suas tradições, inclusive as mais improváveis, sigam florescendo.

