Sociabilidade artificial, a amizade que parece real, mas é só simulação
Conversar com uma inteligência artificial pode soar reconfortante, e até viciante, porém a sensação de conexão não é prova de que há sentimentos do outro lado. Um estudo de Iliana Depounti, da Universidade de Loughborough, e da professora Simone Natale, da Universidade de Turim, mapeia a ascensão da sociabilidade artificial, termo que descreve como chatbots e assistentes de IA imitam empatia e proximidade para manter usuários engajados.
Segundo as autoras, citadas pelo TechXplore, a experiência de “amizade digital” é sustentada por simulações cada vez mais convincentes, apoiadas em linguagem natural, voz, personalização e um fluxo de respostas desenhado para soar humano. O risco, alertam, é que a linha entre o real e o artificial fique mais tênue, o que abre espaço para manipulação, coleta ampla de dados pessoais e efeitos sociais e econômicos de longo prazo.
Como resume Natale, “Esses sistemas não sentem, mas são projetados para nos fazer sentir”. A frase é um lembrete direto de que a sociabilidade artificial não cria consciência, cria apenas a impressão de que existe uma.
Como a sociabilidade artificial é projetada para conquistar você
No estudo Decodificando a Sociabilidade Artificial: Tecnologias, Dinâmicas e Implicações, as pesquisadoras descrevem estratégias usadas por empresas de tecnologia para estimular apego emocional. É o caso do DJ de IA do Spotify, que fala com voz calorosa, e de apps como Replika e Character.AI, que promovem a sensação de “amizade digital”. Até sistemas amplamente usados, como o ChatGPT, adotam artifícios como se referir a si mesmos como “eu”, além de modular o tom entre autoridade e empatia, tudo para que a conversa flua como se fosse entre pessoas.
Depounti descreve com precisão essa engenharia de afeto: “Bots de IA generativa […] são criados para promover a projeção emocional, oferecendo intimidade e companhia por meio de avatares, jogos de interpretação e personalização. Tudo isso com benefícios financeiros para as empresas.” Nada é casual, explicam as autoras, do timing das respostas às expressões de acolhimento. Ao reforçar sinais sociais, a IA incentiva o usuário a projetar sentimentos e expectativas sobre um sistema que, no fim, apenas calcula probabilidades de palavras.
Essa arquitetura de engajamento faz parte da sociabilidade artificial, que transforma conversas em ativos comerciais: quanto mais tempo e intimidade você investe, mais valiosos se tornam seus dados e seus padrões de linguagem para treinar novos modelos.
Quando a simulação convence, o que fica em jogo
Quanto mais natural a interação, mais difícil diferenciar pessoa de máquina. O estudo aponta riscos como confusão sobre o que é humano, manipulação emocional e a normalização da coleta de dados pessoais como moeda de troca. A sociabilidade artificial explora nossa tendência a responder com empatia a sinais sociais, o que pode levar a um excesso de confiança em sistemas que não têm intenção, nem compreensão genuína.
Os autores também destacam como esses sistemas podem reforçar vieses preexistentes, já que aprendem com dados históricos e com aquilo que os próprios usuários fornecem nas conversas. Ao aceitar a ilusão de reciprocidade, o público arrisca superestimar a competência das IAs em tarefas sensíveis, de aconselhamento emocional a decisões de saúde, uma preocupação já levantada em reportagens recentes do setor.
Interagir com chatbots pode parecer inofensivo, porém o estudo lembra que cada mensagem enviada alimenta futuras IAs. O que parece um diálogo trivial vira insumo valioso para treinar modelos, sofisticando ainda mais a simulação de empatia e o poder de persuasão desses sistemas.
O preço invisível: trabalho emocional, dados e impacto ambiental
Por trás das respostas simpáticas, existe um custo que vai além do emocional. Depounti e Natale chamam atenção para o “trabalho emocional” não remunerado realizado pelos usuários, que compartilham histórias, dúvidas e reações, gerando dados que ajudam a calibrar a próxima geração de modelos. Ao mesmo tempo, essa dinâmica transforma a comunicação humana em um produto corporativo, monetizável e escalável.
Há também o efeito sistêmico: manter grandes modelos em operação exige enorme consumo de energia e água em data centers, o que traz impactos ambientais e econômicos. Segundo o estudo, essa corrida por mais capacidade e mais interação cria uma cadeia de custos que é pouco visível ao usuário, mas decisiva para o planeta. A sociabilidade artificial parece imaterial, porém sua infraestrutura é pesada.
No fim, o retrato é claro: os “amigos virtuais” podem soar atenciosos, mas a lógica central é manter você emocionalmente conectado o maior tempo possível. Ao reconhecer a sociabilidade artificial como uma simulação sofisticada, ganhamos repertório para exigir transparência, avaliar riscos e decidir, com mais consciência, quando e como conversar com máquinas que, apesar de plausíveis, não sentem nada.

