Inteligência artificial na COP30: aliada, ameaça ou ambas? O que ONU, AI Climate Academy e o plano do Brasil revelam em Belém

Aliada, ameaça ou os dois? Como a IA aparece em debates na COP30

Na COP30, em Belém, a inteligência artificial na COP30 ganha status de virada, acelera pesquisa e monitoramento ambiental, mas eleva consumo de energia e pressiona a infraestrutura digital, enquanto o Brasil lança um plano de governança multinível

A presença da inteligência artificial na COP30 deixou de ser tendência abstrata e entrou no centro das conversas de clima. Em Belém, negociadores, cientistas e organismos internacionais trataram a tecnologia como um possível ponto de virada para a ação climática, mas também como fonte de novos riscos e pressões sobre infraestrutura e energia.

O debate amadureceu em relação à COP28, quando os países reconheceram oficialmente o potencial da IA para o combate às mudanças climáticas, mas alertaram para seus riscos. Agora, a discussão ganhou tom pragmático: explorar ganhos imediatos em pesquisa, monitoramento e previsão, sem perder de vista consumo energético, desigualdades de acesso e desinformação.

Como a IA entrou no centro do debate climático

Especialistas e negociadores apontam que a inteligência artificial na COP30 se destaca por acelerar tarefas críticas. Há sistemas usados para prever eventos extremos, monitorar nível do mar, acompanhar poluição e mapear desmatamento, como o PrevisIA. Pesquisadores relatam ganhos de eficiência em análises complexas, e jornalistas ambientais têm usado técnicas de IA para investigações sobre carbono e desmatamento.

Em países como a Índia, algoritmos ajudam agricultores a planejar safras diante de riscos climáticos, o que reduz endividamento e favorece culturas de maior valor. Esses exemplos reforçam a percepção de utilidade imediata em frentes de adaptação, resiliência e prevenção de perdas.

No entanto, a leitura dominante em Belém é de ambivalência. Como está no relato da conferência, “A percepção é que a IA passou a ser tratada como aliada e ameaça ao mesmo tempo, segundo a Folha de S. Paulo”. Em outras palavras, a tecnologia pode acelerar soluções, mas também criar novas camadas de risco que precisam ser enfrentadas com regras, métricas e transparência.

Riscos, energia e desinformação, o paradoxo que preocupa a ONU

Relatórios apresentados à conferência destacam a necessidade de encarar o custo energético da revolução digital. Antes do encontro, a UNFCCC publicou análises que soaram como alerta. O texto registra que “o alto consumo energético de data centers pode neutralizar parte dos benefícios climáticos da IA”.

Também ficou evidente a ausência de padrões consistentes para medir impactos da infraestrutura digital nas metas climáticas. Transparência, explicabilidade e justiça algorítmica aparecem como prioridades urgentes, sobretudo para evitar vieses, decisões opacas e danos ambientais não contabilizados.

Há ainda a dimensão geopolítica. Países de baixa renda têm infraestrutura limitada para aproveitar os benefícios da IA, o que amplia desigualdades. Em paralelo, cresce o temor de usos indevidos, como suporte a novas frentes de exploração de combustíveis fósseis, além da desinformação climática. Em Belém, a avaliação foi direta: “Ao mesmo tempo, a entidade reforça que a desinformação sobre clima impulsionada por IA já representa um risco real à segurança pública”.

Para dar base ao debate, lembrou-se que “UNFCCC significa United Nations Framework Convention on Climate Change (em português, Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima)”, o tratado que estrutura a governança climática desde 1992 e organiza as Conferências das Partes.

Documentos, AI Climate Academy e o plano brasileiro de governança multinível

Em Belém, a ONU apresentou relatórios com aplicações bem-sucedidas e cobrou métricas globais para mensurar efeitos da infraestrutura digital nas políticas de clima. O movimento anda junto com a criação de diretrizes para que sistemas sejam transparentes, justos e responsáveis, reduzindo vieses e prevenindo danos ambientais.

Nesse contexto, foi anunciada a AI Climate Academy, iniciativa conjunta da Unesco, da UIT e da Anatel. Segundo o programa, “O programa oferecerá cursos e capacitações presenciais para países em desenvolvimento, começando pelos amazônicos”. A ambição é crescer, “E deve evoluir para um instituto dedicado a estudos sobre tecnologias digitais e clima”. A ideia central é democratizar conhecimento, evitar que só países ricos colham benefícios da IA e responder de forma coordenada à onda de desinformação.

Em paralelo, o Brasil aproveitou os holofotes para lançar o Plano de Aceleração de Soluções (PAS) em Governança Multinível, integrando níveis municipal, estadual e federal na implementação das metas do Acordo de Paris. O documento se ancora em quatro pilares, citados exatamente como no anúncio: “Decisão informada por risco; Capacitação técnica; Financiamento público e privado; Governança inclusiva”.

Há metas objetivas, com prazo. O governo informou: “Ele prevê metas até 2030, como a incorporação de estruturas de governança multinível em pelo menos 120 planos climáticos nacionais e locais, além da capacitação de seis mil servidores e profissionais de países parceiros”. O país também foi nomeado co-presidente da coalizão CHAMP, que aproxima governos nacionais e subnacionais para acelerar projetos climáticos e financeiros.

Numa síntese pragmática, o recado do Ministério do Meio Ambiente reforça a importância da cooperação em dados e financiamento: “Para o Ministério do Meio Ambiente, sem compartilhamento de dados, tecnologia e financiamento entre todos os níveis, nenhuma meta climática sai do papel”. Esse é o ponto em que a inteligência artificial na COP30 se conecta diretamente ao desenho institucional das políticas públicas.

No balanço final, a conferência consolidou a IA como ferramenta estratégica, e ao mesmo tempo, como um desafio regulatório. O próximo passo será transformar diretrizes em práticas mensuráveis, com métricas de energia, transparência e impacto. Se Belém apontou um caminho, ele passa por capacitação, governança multinível e por garantir que os ganhos da IA, no clima, superem seus custos.

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