Identificada em Guangdong, a cratera Jinlin supera a Macha, na Rússia, e indica que impactos recentes foram mais frequentes e intensos do que se pensava
Uma equipe de cientistas chineses anunciou a descoberta da cratera Jinlin, uma estrutura de 900 metros de diâmetro localizada no noroeste da província de Guangdong, no sul da China. Publicado em 15 de outubro na revista Matter and Radiation at Extremes, o estudo classifica a formação como a maior cratera de impacto meteorítico do Holoceno, período geológico que engloba os últimos 11.700 anos.
Com essa dimensão, a cratera Jinlin supera com folga a anterior recordista, a cratera Macha, na Rússia, com 300 metros. Para os pesquisadores, o achado amplia de forma decisiva a compreensão sobre a escala e a frequência de impactos recentes na Terra, em especial os provocados por meteoritos.
“Esta descoberta demonstra que a escala dos impactos de pequenos objetos extraterrestres no Holoceno é muito maior do que a registrada anteriormente”, afirmou o Dr. Ming Chen, pesquisador do Centro de Ciência e Tecnologia de Alta Pressão e autor principal do estudo.
Onde fica a cratera Jinlin e por que surpreende a ciência
Instalada em uma área montanhosa do noroeste de Guangdong, a cratera Jinlin chama atenção pelo seu excepcional estado de preservação. A região é marcada por clima monçônico subtropical, com chuvas abundantes, alta umidade e temperaturas elevadas, condições que normalmente aceleram a erosão e tendem a apagar evidências de impactos antigos.
A conservação da estrutura, portanto, desafia a expectativa de geólogos e planetólogos, que costumam encontrar crateras bem preservadas em ambientes áridos. Até agora, apenas quatro crateras de impacto haviam sido confirmadas na China, todas no árido nordeste do país. O registro no sul, em uma área úmida, contraria o consenso sobre a preservação dessas marcas em regiões tropicais.
Imagens aéreas, incluindo registros de drone feitos em 12 de maio de 2025, ajudaram a mapear a morfologia da cratera Jinlin, reforçando os indícios de uma origem por impacto e orientando o trabalho de campo para coleta de amostras.
Como a cratera Jinlin foi confirmada como impacto de meteorito
A confirmação do impacto veio da análise de amostras de granito coletadas na borda e no interior da estrutura. Os pesquisadores identificaram nelas quartzo com características de deformação planar, microestruturas que se formam apenas sob pressões extremas de 10 a 35 gigapascais, típicas de ondas de choque geradas por impactos cósmicos.
“Na Terra, a formação dessas estruturas no quartzo ocorre apenas pelas intensas ondas de choque de impactos de corpos celestes”, explicou Dr. Chen. “É um efeito que não pode ser reproduzido por nenhum processo geológico terrestre.”
Com base na modelagem do evento e nas evidências mineralógicas, a equipe concluiu que o objeto responsável foi um meteorito, e não um cometa. Segundo os autores, um cometa de tamanho similar teria produzido uma cratera muito maior, com pelo menos 10 quilômetros de diâmetro, incompatível com a estrutura observada em Jinlin.
O novo registro também reposiciona a cratera Macha, na Rússia, como a segunda maior cratera de impacto do Holoceno, com seus 300 metros, destacando a cratera Jinlin como a referência contemporânea para estudos de impactos recentes.
O que a descoberta muda e os próximos passos da pesquisa
A identificação da cratera Jinlin fornece uma peça-chave para reavaliar a frequência de impactos durante o Holoceno e calibrar modelos sobre a distribuição de pequenos corpos no Sistema Solar. Para os cientistas, o título de maior cratera Holocênica já confirmada sugere que eventos de impacto significativos podem ter ocorrido com mais regularidade do que indicava o registro geológico disponível.
“Acredita-se que cada ponto da superfície terrestre teve probabilidades semelhantes de ser atingido”, observou Dr. Chen, “mas as diferenças geológicas fazem com que algumas evidências desapareçam completamente.” Em regiões úmidas, como o sul da China, a erosão acelerada pode apagar crateras em poucas centenas ou milhares de anos, o que destaca o caráter excepcional da preservação da cratera Jinlin.
Além de enriquecer o conhecimento sobre a história recente de impactos na Terra, a descoberta aprimora a avaliação de riscos de impactos futuros. Com mais dados confiáveis sobre tamanho, energia e frequência desses eventos, agências e pesquisadores conseguem refinar modelos de defesa planetária e desenhar estratégias mais eficazes de monitoramento.
Os trabalhos de campo continuam. A equipe ainda busca determinar com precisão a idade do impacto e caracterizar a natureza do meteorito, se metálico ou rochoso. Esses resultados ajudarão a relacionar a cratera Jinlin a possíveis fluxos de detritos do Sistema Solar interno e a entender como corpos de diferentes composições interagem com a superfície terrestre.
Ao se somar às crateras já conhecidas no país, a cratera Jinlin amplia o mapa de evidências de impactos na China e, sobretudo, reforça a necessidade de pesquisas sistemáticas em regiões tropicais e subtropicais, onde a preservação é rara, mas, como mostra o novo estudo, não impossível.

