Apagões na internet global: por que falhas da AWS e Cloudflare estão mais frequentes e o que muda para usuários e empresas

AWS e Cloudflare: por que apagões na internet global estão mais comuns?

Concentração de infraestrutura em poucos provedores e picos de tráfego explicam a escalada de apagões na internet global, dos casos Cloudflare e AWS às lições de resiliência e custo

Um problema técnico na Cloudflare deixou partes da internet fora do ar na manhã desta terça-feira, afetando serviços populares, com reflexos no Brasil e em outros países. Plataformas como X, ChatGPT, Canva, Discord, Letterboxd e até o site do Olhar Digital registraram mensagens de erro, lentidão e dificuldades de conexão, um retrato recente dos apagões na internet global que se tornaram mais recorrentes.

Segundo relatos, o incidente começou por volta das 8h, horário de Brasília. Às 9h, o Downdetector já havia contabilizado mais de 3.500 reclamações relacionadas aos serviços afetados, evidenciando o alcance da instabilidade. Em sua página de status, a Cloudflare reconheceu um problema generalizado e iniciou a investigação.

Pouco depois, às 10h09, a empresa disse ter identificado a origem do erro e começou a aplicar uma correção. Às 10h13, comunicou que mudanças haviam permitido a recuperação dos sistemas, com as taxas de erro voltando aos níveis anteriores ao incidente, enquanto a análise continuou. A Cloudflare informou ao Olhar Digital que observou um “pico de tráfego incomum” por volta das 8h20, o que fez com que parte do tráfego que passava por sua sede, na Califórnia, apresentasse erros.

Em paralelo, a companhia indicou que ainda não conhece a causa do aumento repentino de tráfego e focou em restabelecer os serviços, sinalizando que uma análise mais profunda virá depois. Esse cenário ilustra como apagões na internet global podem surgir de eventos pontuais que atingem provedores centrais da infraestrutura da web.

Cloudflare, proteção e desempenho: por que uma falha se espalha tão rápido

A Cloudflare fornece uma combinação de CDN e serviços de segurança que protegem sites e aplicativos contra ataques, ao mesmo tempo que aceleram o carregamento de páginas. A empresa opera como um ponto de presença distribuído, armazenando em servidores ao redor do mundo arquivos estáticos, como imagens e CSS, e encaminhando tráfego dinâmico com camadas de defesa.

Como explicou Raphael Farinazzo, COO da PM3 e referência em Produtos Digitais no Brasil, a Cloudflare atua como “uma espécie de posto de controle, um intermediário entre o usuário e o site”. Quando esse intermediário enfrenta uma instabilidade, o impacto se propaga de maneira imediata para todos os serviços que dependem de sua rede, o que ajuda a entender a dimensão dos apagões na internet global.

Para Farinazzo, a cautela na divulgação de detalhes técnicos também é parte da estratégia de segurança, pois abrir o funcionamento interno exporia defesas críticas. Nas palavras do especialista: “Quando você revela detalhes técnicos demais, acaba expondo o funcionamento do seu serviço – e, no caso deles, isso significa expor justamente o que mantém os clientes protegidos. Quanto menos informações públicas sobre como o sistema opera e como poderia ser derrubado, mais seguro ele permanece. Então, essa falta de detalhes é uma medida de proteção.”

AWS, CrowdStrike e AT&T: o efeito da concentração em poucos provedores

A Cloudflare não foi a única a sofrer em 2025 com interrupções de grande porte. Em 20 de outubro, a Amazon Web Services (AWS) passou por uma falha global que afetou centenas de plataformas, incluindo Zoom, Canva, Duolingo, Signal e Slack. No Brasil, iFood, Mercado Livre, Mercado Pago e serviços da própria Amazon, como Prime Video e Alexa, tiveram instabilidades.

Sobre o episódio, a AWS informou posteriormente que a origem foi um bug em seu sistema de banco de dados. Como descrevem os relatos, “O problema durou o dia inteiro. Alguns dias depois, a AWS revelou que o motivo da falha foi um bug no DynamoDB, seu sistema de banco de dados.”

Em 2024, uma falha no software da CrowdStrike interrompeu operações em escala global, travando computadores e causando prejuízos estimados em US$ 5 bilhões, além de impactos em serviços essenciais e cancelamentos de voos. Também no ano passado, a AT&T enfrentou um colapso de 11 horas que cortou a conexão de clientes, afetando uma ampla base de usuários.

Especialistas consultados pela CNN alertaram que os apagões na internet global são resultado de causas variadas, mas a frequência crescente expõe um ponto crítico: a dependência em poucos provedores de computação em nuvem e conectividade. Quando um desses gigantes falha, os efeitos se alastram rapidamente, ampliando a sensação de fragilidade digital.

Como mitigar o risco: custo, resiliência e o equilíbrio necessário

Para empresas que dependem de nuvem e de intermediários como a Cloudflare, a melhor defesa é investir em resiliência e em um robusto plano de recuperação de desastres. Isso passa por estratégias como multi-região, redundância entre provedores, testes de caos, monitoramento ativo e caminhos de fallback que reduzam o tempo de indisponibilidade.

Farinazzo resume o dilema entre disponibilidade e orçamento, destacando que evitar novos apagões na internet global exige escolhas difíceis: “O aprendizado é que o plano de recuperação de desastres precisa ser cada vez melhor. Tem uma coisa difícil para quem trabalhar com tecnologia que é como a gente se antecipa para esses riscos do ponto de vista de custos. Os riscos sempre vão existir, mas as empresas têm que trabalhar em duas frentes. Primeiro em reduzir o risco. Segundo, reduzir o impacto, caso aconteça. E geralmente, para trabalhar nisso, existe custo. Você pode ter uma aplicação igual em outros servidores esperando para ser utilizada ou distribuída no caso de falha, mas você vai pagar o dobro por isso. Seriam dois servidores. Em alguns casos, a empresa pensa: se a falha acontecer, eu vou perder uma certa quantia de dinheiro… mas eu vou gastar o triplo ou dez vezes mais para evitar. Às vezes, as empresas acabam tomando decisões difíceis a respeito de como equilibrar o custo para não parar a operação e não comprometê-la com custos elevados. Eu acho que o aprendizado é esse balanceamento. O que vale a pena ter no ar para evitar que isso aconteça.”

Na prática, arquiteturas com alta disponibilidade e multi-cloud podem diminuir significativamente o impacto de falhas, embora impliquem despesas adicionais e maior complexidade operacional. A decisão passa por estimar perdas em caso de interrupção, definir objetivos de recuperação, como RTO e RPO, e testar periodicamente os planos de contingência.

Enquanto a internet seguir concentrada em poucos provedores e o tráfego global continuar crescendo, incidentes como os recentes continuarão no radar. O caminho para reduzir os apagões na internet global combina boa engenharia, transparência responsável e investimentos proporcionais ao risco, para que a próxima falha, inevitavelmente, cause menos danos.

Rolar para cima