Consumo global de água sobe 25% em 20 anos, diz Banco Mundial, com estresse hídrico avançando em América Central, Leste Europeu, norte da Índia e Sudeste do Brasil

Relatório revela aumento de 25% no consumo global de água no período de 20 anos

Relatório Seca Continental, do Banco Mundial, aponta que um terço do aumento do consumo global de água ocorre em áreas em seca e defende eficiência, reciclagem, dessalinização e distribuição justa

O consumo global de água avançou rapidamente nas últimas duas décadas e acendeu um alerta entre especialistas e formuladores de políticas públicas. De acordo com o Relatório Global de Monitoramento da Água do Banco Mundial, intitulado “Seca Continental: Uma Ameaça ao Nosso Futuro Comum”, divulgado em novembro deste ano, “houve um aumento de 25% no uso global de água desde 2000.” Os dados revelam um quadro de escassez hídrica mais frequente e severo, inclusive em regiões tradicionalmente reconhecidas pela abundância de recursos hídricos, o que reforça a urgência de políticas que aliem eficiência no uso, distribuição justa e ampliação de fontes alternativas.

O documento detalha pontos críticos de vulnerabilidade e indica onde a pressão sobre o recurso é maior. Em uma constatação particularmente preocupante, o estudo afirma que “um terço do aumento vem acontecendo em locais que estão em seca.” Isso significa que, justamente onde a água se torna mais escassa, a demanda cresce com força, elevando riscos para a segurança hídrica, a produção agrícola, o emprego e a saúde.

O que o Banco Mundial viu no consumo global de água

Segundo o relatório, a tendência de alta no consumo global de água está distribuída de forma desigual e expõe desequilíbrios estruturais. Há locais com infraestrutura limitada, baixa governança de recursos e poucos mecanismos de gestão de demanda enfrentando pressões que se somam a eventos climáticos extremos. O documento sublinha que “A América Central já sofre com a escassez de água doce. O mesmo ocorre em grande parte do Leste Europeu e no norte da Índia.”

O alerta também alcança o Brasil. Mesmo em áreas com tradição de disponibilidade hídrica, a pressão está aumentando. O relatório registra que “Até lugares com maior abundância de água, como o sudeste brasileiro, vêm enfrentando um estresse hídrico.” Na prática, isso se traduz em reservatórios mais pressionados, conflitos entre usos urbano, industrial e agrícola, risco de racionamento em períodos críticos e custos mais altos para os sistemas de abastecimento.

Ao conectar o aumento do consumo com a recorrência de secas, o Banco Mundial mostra que a crise não é apenas climática, mas também de gestão e eficiência. O crescimento econômico, a urbanização e a expansão de áreas irrigadas sem a devida modernização tecnológica amplificam a demanda, enquanto a variabilidade climática reduz a oferta confiável.

Regiões sob estresse hídrico e impacto social

O relatório descreve um mapa de vulnerabilidade que concentra impactos sociais relevantes em países de baixa e média renda, especialmente onde a agricultura é base econômica. Na África Subsaariana, a ligação entre seca e mercado de trabalho é direta e dramática. O documento aponta que “Na África Subsaariana, as secas deixam entre 600 mil e 900 mil pessoas sem emprego todos os anos, afetando principalmente os agricultores sem terra, mulheres, idosos e trabalhadores com pouca qualificação.”

Esse efeito chega à mesa das famílias e ao planejamento dos governos, já que a queda de renda se combina com encarecimento de alimentos, piora do acesso a água segura e aumento de gastos públicos com respostas emergenciais. Temas como segurança alimentar, saúde pública e migração tendem a se agravar quando a sequência de eventos de seca é mais longa e a infraestrutura de armazenamento e distribuição é limitada.

Para o Brasil e países vizinhos, o recado é claro. Mesmo regiões com histórico de abundância precisam se preparar para um cenário de estresse hídrico mais frequente, com planejamento integrado que considere oferta, demanda, qualidade da água e resiliência climática. Sem isso, setores estratégicos como energia, agropecuária e indústria ficam expostos a choques recorrentes.

Soluções: eficiência, distribuição e novas fontes

O relatório do Banco Mundial destaca que a melhora na eficiência do uso é uma alavanca decisiva. Ele afirma que “a utilização eficiente da água pode ajudar a economizar mais de um terço da água utilizada na agricultura no mundo inteiro.” Para isso, recomenda o gerenciamento eficaz da demanda por vias tecnológicas, a conscientização e a regulamentação, citando o papel conjunto de governos e empresas em acelerar a adoção de soluções.

Além de usar melhor a água disponível, o estudo enfatiza a importância de regras para que o recurso chegue a quem mais precisa e onde tenha maior retorno social. Nas palavras do documento, “Outra maneira é a garantia de uma distribuição justa e eficaz entre os setores e regiões.” Sem governança, mesmo investimentos robustos em infraestrutura podem falhar em reduzir desigualdades e gargalos.

Por fim, a diversificação de fontes aparece como caminho para aumentar a segurança hídrica em contextos de escassez e variabilidade climática. O relatório recomenda ampliar a oferta por meios alternativos e registra que “Além disso, há a sugestão de uma expansão do fornecimento alternativo de água por meio da reciclagem, dessalinização e melhoria do armazenamento.” Em conjunto, essas estratégias ajudam a suavizar picos de demanda, reduzir perdas e construir resiliência para cidades e polos produtivos.

A mensagem central é inequívoca. Diante do avanço do consumo global de água e do avanço das secas, a combinação entre eficiência, planejamento e novas fontes é o caminho para proteger a segurança hídrica, a economia e o bem-estar da população. Quanto antes essas medidas forem implementadas, menores serão os custos sociais e econômicos da crise da água.

Rolar para cima