Mulheres em perigo: como a falha histórica nos testes de segurança de veículos e aviões aumenta o risco de lesões e o que precisa mudar

Mulheres em perigo: a falha histórica dos testes de segurança de veículos e aviões

Por que o debate sobre segurança veicular e aeronáutica voltou com força

Nos últimos anos, estudos e relatos de especialistas reacenderam a discussão sobre como os testes de segurança de veículos e aviões foram desenhados de forma desigual. Em vez de contemplar a diversidade corporal da população, os protocolos priorizaram por décadas o manequim masculino médio, criando um cenário de mulheres em perigo em colisões e pousos de emergência. Um artigo no The Conversation, repercutido pelo Olhar Digital, aponta que pesquisas recentes mostram risco maior de ferimentos graves em mulheres, inclusive em acidentes leves, o que expõe uma lacuna crítica de segurança pública.

A especialista australiana Natasha Heap, Diretora do Programa de Bacharelado em Aviação da Universidade do Sul de Queensland, sintetiza a urgência do tema ao afirmar, em suas palavras exatas, que “Fiquei chocada com a pouca quantidade de testes práticos que ainda são realizados para garantir a segurança das mulheres no ar e nas estradas.” A constatação reforça que há mulheres em perigo pela combinação de protocolos defasados e manequins que não representam adequadamente metade dos ocupantes de carros e aeronaves.

Essa discussão é relevante para consumidores, reguladores, montadoras e fabricantes de aviões, como Boeing e Airbus, e também para quem pesquisa biomecânica de impactos e certificações. Colisões em baixas velocidades, desacelerações bruscas e pousos de emergência são situações em que pequenas diferenças de postura, musculatura e proporções corporais podem significar uma grande diferença no tipo e na gravidade das lesões.

O que os manequins não medem hoje

Os chamados dispositivos de teste antropomórficos, criados em 1949 para uso militar e adaptados para carros nos anos 1960, moldaram os protocolos que conhecemos. O Hybrid III, desenvolvido em 1976, virou o padrão masculino, com 175 cm e 78 kg, a referência de um homem de estatura média. Por muito tempo, quando se tratava de mulheres, a indústria usou versões reduzidas do mesmo manequim, a exemplo do Hybrid HIII-5F, com 139 cm e 48 kg, dimensões mais próximas de uma adolescente de 13 anos do que de uma mulher adulta.

Somente apenas três anos atrás uma equipe sueca, liderada por Astrid Linder, apresentou um manequim que simula a mulher média, com 162 cm e 62 kg. Ainda assim, esse manequim feminino médio não é exigido de forma obrigatória em testes que embasam certificações de carros e aviões. Na prática, isso significa manter mulheres em perigo, já que os sistemas de proteção, como cintos, airbags e suportes estruturais, continuam otimizados para o corpo masculino médio.

Como ressalta Natasha Heap, em citação literal do artigo no The Conversation, “As mulheres não são homens menores. As proporções corporais, a massa muscular e o comprimento dos membros diferem entre os sexos.” Esses fatores, somados a diferenças hormonais que afetam a estabilidade articular, exigem um paradigma de testes que contemple biomecânica feminina com a mesma profundidade dedicada ao corpo masculino.

Carros e aviões, o mesmo padrão que falha com as passageiras

Pesquisas compiladas pelo Olhar Digital mostram que, em acidentes de trânsito, mulheres sofrem mais ferimentos graves mesmo em baixas velocidades. Entre as razões estão a tendência de se sentarem mais à frente ao dirigir, a diferença na largura dos quadris e maior frouxidão ligamentar, além do fato de que sistemas de segurança testados em manequins masculinos podem amplificar a severidade das lesões nelas. O resultado é que o desenho do interior do veículo, a geometria dos bancos e a calibração de airbags e pré-tensionadores de cinto podem acabar protegendo menos quem foge do padrão masculino médio.

Na aviação, a lacuna se repete. Os testes de pouso de emergência utilizam apenas manequins masculinos médios, independentemente do sexo dos passageiros. Boeing e Airbus seguem normas internacionais de certificação, porém essas regras não exigem a aplicação do manequim feminino médio. Esse descompasso significa que, em cenários críticos de desaceleração, turbulência severa e evacuação, variáveis decisivas para passageiras continuam subestimadas ou simplesmente não mensuradas.

Sem a inclusão sistemática de corpos representativos, o risco é perpetuar o ciclo de mulheres em perigo nos dois ambientes de transporte de maior uso no mundo. E, quando normas e padrões globais não empurram a mudança, o avanço tende a ser lento e desigual.

Como corrigir a rota e reduzir lesões agora

O primeiro passo é tornar obrigatório o uso de um manequim feminino médio em todas as famílias de testes regulamentares, desde colisões frontais e laterais até avaliações de chicote cervical e cenários de pouso de emergência. Com medições comparáveis entre sexos, fabricantes podem recalibrar cintos de segurança, melhorar a geometria de bancos, otimizar airbags e ajustar softwares de restrição, elevando a proteção de todos.

Outra frente é a atualização das normas de certificação para carros e aeronaves, incluindo requisitos de desempenho específicos para a mulher média. Reguladores podem estabelecer metas graduais de redução de lesões por região corporal, estimulando soluções como materiais com melhor absorção de energia, posicionamento refinado de ancoragens e estratégias adaptativas de contenção.

Em paralelo, a comunicação com consumidores deve ser mais transparente. Relatórios públicos com resultados separados para manequins masculinos e femininos podem orientar escolhas e pressionar o mercado por melhorias. É um caminho que também favorece inovação, já que dados mais ricos alimentam pesquisas acadêmicas e desenvolvimento industrial, reduzindo o número de mulheres em perigo em todo o ciclo de vida do produto.

O recado final do material citado é direto e pragmático. Se queremos segurança projetada para todos os corpos, precisamos medir corretamente, padronizar com justiça e certificar com evidências. Somente assim deixaremos de tratar mulheres como uma exceção e passaremos a protegê-las como parte central do público que usa, todos os dias, carros e aviões.

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