Roma Antiga: lutas entre gladiadores e felinos selvagens ocorreram fora do Coliseu, revela achado de leopardo na Sérvia

Roma: lutas entre gladiadores e felinos selvagens eram mais comuns que pensávamos

Achado no anfiteatro de Viminacium indica que lutas entre gladiadores e felinos selvagens, inclusive com leopardos africanos, também aconteciam em arenas provinciais

Uma nova pesquisa reacende o debate sobre a escala dos espetáculos sangrentos na Roma Antiga. Evidências encontradas no anfiteatro de Viminacium, na atual Sérvia, sugerem que lutas entre gladiadores e felinos selvagens não eram exclusivas do Coliseu de Roma, como por muito tempo se imaginou. Publicado na revista Archaeological and Anthropological Sciences, o estudo identificou o membro anterior de um leopardo macho no local, ampliando o mapa dos combates com grandes felinos em arenas provinciais.

Até aqui, os registros arqueológicos concentravam ossos de grandes felinos apenas no Coliseu, enquanto anfiteatros fora de Roma costumavam exibir confrontos com ursos pardos e javalis. A nova descoberta ajuda a corrigir essa percepção e reforça que lutas entre gladiadores e felinos selvagens se estendiam para além da capital imperial, alcançando regiões distantes do centro do poder.

O que a nova descoberta revela sobre os combates nas províncias

O fragmento ósseo, preservado em Viminacium, é atribuído a um leopardo, animal que fazia parte do repertório de feras usadas nas venationes, os espetáculos de caça e combate que excitavam plateias romanas. A equipe autora descreve o achado como a “primeira evidência documentada dessa espécie de felino exótico de grande porte nas províncias romanas da Europa, sugerindo sua participação em venationes provinciais [batalhas de gladiadores]”.

O estudo sustenta que essa evidência desloca o foco da historiografia. Em arenas menores, fora de Roma, acreditava-se predominarem animais locais, como ursos e javalis, algo que os próprios ossos achados até então, sobretudo no Coliseu, pareciam confirmar. Com Viminacium, surge um caso concreto de lutas entre gladiadores e felinos selvagens em um anfiteatro provincial, abrindo caminho para revisões em como eram planejados e distribuídos esses espetáculos.

Esse quadro dialoga com relatos literários. Como lembrou o IFLScience, um relato de 55 a.C diz que uma das lutas organizadas pelo político romano Pompeu Magno teria envolvido 410 grandes felinos. A diferença é que, agora, a arqueologia reforça que esse tipo de combate também pode ter ocorrido longe de Roma.

Origem africana do leopardo, dieta selvagem e datação do achado

As análises genéticas realizadas pela equipe indicam que o leopardo de Viminacium veio da África, e não da Ásia, de onde sabia-se que os romanos importavam leopardos para lutar no Coliseu. Esse dado amplia a rota conhecida de captura e tráfico de animais usados em espetáculos, sugerindo redes de suprimento mais diversificadas do que se supunha.

Outro ponto importante é o padrão alimentar do animal. Exames isotópicos apontam que o espécime se alimentava de presas selvagens antes de ser capturado, o que reforça a hipótese de que ele foi trazido diretamente de ambientes naturais e mantido por algum tempo em recintos associados ao anfiteatro. Há indícios de uma estrutura que pode ter servido como cativeiro de feras em Viminacium, o que ajuda a explicar a permanência do leopardo no local.

Quanto à cronologia, o resto mortal do animal é datado de entre 240 e 350 d.C. Esse período coincide com outros vestígios do império, como o caso de um esqueleto de gladiador do século III d.C. encontrado na Inglaterra, cuja análise indica mordidas de leão. Em conjunto, essas pistas sustentam a presença de grandes felinos em arenas espalhadas por diferentes províncias.

Hipóteses para o uso do leopardo na arena e o alcance das venationes

Os pesquisadores evitam conclusões definitivas sobre o destino do leopardo de Viminacium, mas delineiam cenários plausíveis. O animal pode ter sido forçado a lutar contra um gladiador ou contra outra fera na arena, prática comum nas venationes. Outra possibilidade é sua participação em execuções públicas, a damnatio ad bestias, em que condenados eram expostos a animais selvagens diante da multidão.

Há, ainda, a hipótese de adestramento para apresentações com truques, embora os autores considerem essa opção menos provável diante do contexto e do tipo de evidência encontrada. Seja qual for o caso, a presença de um leopardo africano num anfiteatro da Sérvia reforça que lutas entre gladiadores e felinos selvagens integravam o repertório de entretenimento também fora de Roma.

O estudo publicado na Archaeological and Anthropological Sciences contribui para reavaliar a logística e o alcance desses espetáculos, sugerindo cadeias de captura, transporte e manutenção de animais que conectavam o norte da África a arenas europeias. À medida que novas escavações avancem em anfiteatros provinciais, é provável que mais evidências venham à luz, ajudando a dimensionar quão frequentes foram as lutas entre gladiadores e felinos selvagens para além do Coliseu.

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