Coletiva em Goddard, Maryland, detalha o que cada missão viu do cometa 3I/ATLAS, um raro visitante interestelar, e explica por que a análise ficou parada por mais de 40 dias
A NASA apresentou nesta quarta-feira, 19 de novembro de 2025, em coletiva no Centro de Voos Espaciais Goddard, em Maryland, imagens inéditas do cometa 3I/ATLAS, o mais novo visitante interestelar a cruzar o Sistema Solar. A transmissão foi ao vivo em todas as plataformas do Olhar Digital e reuniu líderes da agência para contextualizar as descobertas e os próximos passos.
Participaram da apresentação Amit Kshatriya, administrador associado da NASA, Nicky Fox, líder da Diretoria de Missões Científicas, Shawn Domagal-Goldman, diretor interino da Divisão de Astrofísica, e Tom Statler, cientista-chefe para corpos pequenos do Sistema Solar. O grupo detalhou como diferentes missões, de sondas em órbita de Marte a observatórios solares, acompanharam o cometa 3I/ATLAS em sua passagem, oferecendo uma visão rara e multiespectral do fenômeno.
Por que o cometa 3I/ATLAS é um visitante raro e valioso
Descoberto em julho por astrônomos do Sistema de Último Alerta para Impacto de Asteroides com a Terra (ATLAS), projeto financiado pela NASA para monitorar objetos potencialmente perigosos, o cometa 3I/ATLAS é apenas o terceiro objeto interestelar já identificado em trânsito pelo nosso Sistema Solar. Por isso, cada registro é tratado como uma oportunidade científica excepcional, capaz de revelar pistas sobre a formação de sistemas planetários em outras estrelas.
Entre 2 e 3 de outubro, o 3I/ATLAS passou relativamente perto de Marte, a cerca de 30 milhões de km, e segue trajetória que levará o objeto a uma aproximação máxima da Terra de 270 milhões de km em dezembro. Esses marcos permitiram a observação coordenada por múltiplas plataformas, comparando brilho, dinâmica da coma, estrutura da cauda e interação do cometa com o vento solar.
Para a comunidade científica, ver um cometa interestelar sob tantos ângulos e em diferentes regimes de comprimento de onda ajuda a calibrar modelos, testar hipóteses sobre atividade cometária em ambientes extremos e entender como materiais voláteis se comportam fora do contexto típico de cometas ligados gravitamente ao Sol.
O que cada missão viu do cometa 3I/ATLAS
Do entorno marciano, a câmera HiRISE, a bordo da sonda Mars Reconnaissance Orbiter (MRO), obteve imagens de alta resolução do cometa 3I/ATLAS em 2 de outubro, com resolução de cerca de 30 km por pixel. Os registros ajudam a refinar parâmetros de brilho, morfologia e dinâmica da cauda durante a passagem próxima ao planeta vermelho.
Missões de heliofísica, que enxergam regiões muito próximas ao Sol, foram decisivas para acompanhar o cometa quando ele ficou atrás do disco solar, fora do alcance dos telescópios terrestres. É a primeira vez que instrumentos desse tipo observam, de forma direcionada, um objeto vindo de outro sistema estelar, ampliando a janela de observação contínua do 3I/ATLAS.
O Observatório de Relações Sol-Terra (STEREO) registrou o cometa entre 11 de setembro e 2 de outubro, rastreando o deslocamento em uma área normalmente difícil de monitorar a partir do solo. O Observatório Solar e Heliosférico (SOHO), uma missão conjunta entre NASA e ESA, complementou o acompanhamento com observações em 15 e 16 de outubro, oferecendo uma visão adicional do comportamento do objeto próximo ao brilho intenso do Sol.
O Polarímetro para Unificar a Coroa e a Heliosfera (PUNCH), lançado em março, produziu imagens entre 20 de setembro e 3 de outubro, revelando detalhes da cauda do cometa e sua interação com o vento solar. Já a sonda Psyche, destinada a estudar o asteroide metálico homônimo, realizou quatro observações nos dias 8 e 9 de setembro, a 53 milhões de quilômetros, contribuindo para refinar a trajetória do 3I/ATLAS.
Mais distante, a sonda Lucy, que investiga os asteroides troianos de Júpiter, registrou imagens em 16 de setembro, a 386 milhões de quilômetros, destacando detalhes da coma e da cauda a partir da sobreposição de exposições. A combinação desses registros, cobrindo diferentes geometrias de observação, deve permitir análises comparativas inéditas sobre a atividade do cometa 3I/ATLAS.
Shutdown de 43 dias atrasou a divulgação das imagens
Apesar do valor científico, as imagens do cometa 3I/ATLAS ficaram retidas por mais de 40 dias sem análise ou divulgação. O motivo foi o shutdown de 43 dias do governo dos Estados Unidos, que impactou diretamente a NASA e levou setores inteiros a operações mínimas, com equipes reduzidas e cronogramas suspensos.
Como relatou a imprensa especializada, os efeitos foram amplos no fluxo de trabalho. Em suas palavras, “Segundo o Space.com, muitos especialistas ficaram impedidos de acessar laboratórios, bancos de dados e sistemas internos essenciais para processar o material captado pelos telescópios.” Com revisões e validações atrasadas, formou-se um acúmulo de tarefas que só agora começa a ser equalizado.
Mesmo com o processamento retomado, o desafio persiste. A própria avaliação interna reconhece o impacto prolongado, conforme a observação de que “Embora o processamento já tenha sido retomado, a interrupção deixou um atraso acumulado que a NASA ainda tenta compensar.” A agência afirma que, com a normalização do acesso a laboratórios e sistemas, novas análises do 3I/ATLAS serão priorizadas.
Para os cientistas, a publicação coordenada dos dados, cobrindo desde as imagens de HiRISE e SOHO até os registros do STEREO, PUNCH, Psyche e Lucy, será crucial para construir uma linha do tempo completa da atividade do cometa 3I/ATLAS, incluindo sua passagem a 30 milhões de km de Marte e a aproximação de 270 milhões de km da Terra em dezembro.
Com o interesse global renovado por objetos interestelares, a visão integrada dessas missões da NASA promete estabelecer um novo patamar para o estudo de cometas vindos de outros sistemas estelares, estimulando futuras campanhas de observação com ainda mais cobertura e precisão.

