Na COP30, incêndio no pavilhão adia reuniões, negociações podem se estender e Brasil pressiona por roadmap dos fósseis e pelo Fundo de Florestas Tropicais para Sempre
A sexta-feira (21) marca o último dia oficial da COP30 em Belém, no Pará, mas o desfecho ainda é incerto. Um incêndio no pavilhão na quinta-feira (20) mexeu com a logística e obrigou a organizar reuniões por canais alternativos, elevando a chance de as negociações se estenderem além do previsto.
Em entrevista à TV Brasil, o presidente do evento, André Corrêa do Lago, disse: “Realmente, as coisas mudaram um pouco. Estamos trabalhando nas consultas dos grupos regionais, online e por telefone. Amanhã (21), com a reabertura da Zona Azul, teremos negociações pela manhã e durante todo o dia. Então, vamos ver até quando vai durar. Você sabe que as COPs geralmente se estendem além do previsto. Queríamos adiantar, mas vamos ver como faremos amanhã”.
Com a COP30 em seus momentos decisivos, o rascunho do texto final indica caminhos para colocar o mundo na trilha das emissões líquidas zero até 2050, reforçar o Acordo de Paris e acelerar a transição energética justa, especialmente com o fim dos combustíveis fósseis como eixo central das discussões.
Negociações sob pressão após o incêndio e possibilidade de prorrogação
O episódio no pavilhão atrasou o cronograma e empurrou parte das conversas para formatos remotos. A reabertura da Zona Azul nesta sexta permite retomar as tratativas presenciais, mas o ritmo deverá ser intenso, com rodadas ao longo de todo o dia. A própria organização admite que o desfecho pode avançar para o fim de semana, repetindo o que costuma ocorrer em conferências climáticas.
Em meio à pressão do tempo, Corrêa do Lago sublinhou o clima de disputa geopolítica e financeira, mas também a disposição de convergir. Segundo ele, “Todo mundo já percebeu, com a cobertura de vocês, que as negociações são complexas, a geopolítica está difícil, a questão financeira também. Mas sentimos que há vontade de alcançar um resultado bom e ambicioso aqui em Belém”.
Para o público brasileiro, a COP30 também tem dimensão simbólica. O presidente Lula destacou a importância de sediar o encontro na Amazônia, afirmando: “Era muito importante para nós colocar a Amazônia como ela é, do jeito que ela é, na cabeça dos povos do mundo inteiro”.
O que o rascunho do texto final sinaliza para a COP30
O rascunho divulgado na quarta-feira (19) sugere um pacote com metas e prazos que possam, de forma concreta, recolocar o planeta no “rumo das emissões líquidas zero” até meados do século. O documento frisa que a ambição do Acordo de Paris segue “viva”, mas exige implementação com prazos definidos, sobretudo no enfrentamento à dependência de combustíveis fósseis.
Entre os pontos esperados estão a eliminação progressiva do carvão e a redução massiva do uso de petróleo e gás, somados a mecanismos para garantir uma transição justa em regiões dependentes dessas atividades. O texto também eleva a prioridade do financiamento climático, com foco em adaptação, mitigação, perdas e danos e apoio a povos indígenas e comunidades tradicionais. Como destaca o rascunho, “sem financiamento previsível e suficiente, não há como viabilizar a transição que o planeta exige”.
Outra frente é a aceleração de energias renováveis, a expansão de redes de transmissão e a adoção de sistemas descentralizados de acesso à energia, especialmente em áreas críticas como a Amazônia. Esses investimentos são considerados estratégicos para reduzir emissões com velocidade, protegendo populações vulneráveis e criando empregos de qualidade na nova economia verde.
Brasil em foco: Fundo de Florestas Tropicais para Sempre e o roadmap dos fósseis
Por sediar a COP30, o Brasil elevou o perfil de suas propostas. A principal é o Fundo de Florestas Tropicais para Sempre (TFFF), voltado a financiar projetos de preservação em biomas presentes em 70 países. Segundo o Itamaraty, o TFFF tem potencial para arrecadar cerca de US$ 125 bilhões, aproximadamente R$ 680 bilhões, combinando recursos públicos e privados. Até agora, no entanto, o montante prometido é menor. Com a mais recente doação da Alemanha, de 1 bilhão de euros, o fundo soma US$ 6,6 bilhões em promessas.
Outro eixo brasileiro é o “mapa do caminho para os combustíveis fósseis”, uma proposta de roadmap global para superar petróleo, gás natural e carvão mineral. A ideia, impulsionada pelo presidente Lula durante a Cúpula de Líderes, enfrenta resistência de grandes produtores e consumidores dessas fontes. De acordo com o g1, há lobby para retirar o tema do texto final.
Mesmo assim, mais de 30 países indicaram que não assinarão o documento se o roadmap ficar de fora. Em carta ao governo federal, nações como Colômbia, França, Reino Unido e Alemanha afirmaram que “não podem apoiar um resultado que não inclua um roteiro justo, ordenado e equitativo para deixar os combustíveis fósseis para trás”.
Se confirmado no acordo final, o pacote da COP30 poderá consolidar um roteiro mais claro para a transição energética, com metas escalonadas, financiamento previsível e mecanismos para proteger quem mais precisa. A questão central, contudo, segue sendo transformar ambição em entrega, com prazos e métricas de implementação que mantenham o Acordo de Paris no curso de 1,5°C e acelerem a retirada dos combustíveis fósseis do centro da matriz energética global.
À medida que as conversas avançam em Belém, a expectativa é por um resultado ambicioso e exequível, que responda ao clamor por justiça climática, garanta financiamento e sinalize um horizonte inequívoco de emissões líquidas zero até 2050.

