UNFCCC publica versão com 59 indicadores da GGA, mas sem ‘fim dos combustíveis fósseis’, enquanto Brasil e aliados pedem um roadmap claro e criticam a presença de 1.602 lobistas
O secretariado da UNFCCC divulgou nesta sexta-feira, 21, uma nova versão do rascunho do texto final da COP30, e o documento reacendeu o impasse central da conferência. Embora traga um anexo com 59 indicadores para a Meta Global de Adaptação (GGA), o rascunho retira as menções ao fim dos combustíveis fósseis que constavam em versões anteriores.
A ausência do chamado “mapa dos combustíveis fósseis”, como o Brasil vinha se referindo à proposta, frustrou países e entidades que defendem metas explícitas para eliminar o uso de petróleo, gás natural e carvão mineral. O objetivo do mapa era definir um roadmap, com prazos e etapas, para a transição energética global. A pressão de países produtores de petróleo e carvão, porém, ganhou força e o tema foi suprimido do rascunho mais recente, enquanto o texto final ainda não foi divulgado.
O impasse se soma a entraves logísticos da conferência. Um incêndio no pavilhão, na quinta-feira, 20, afetou a programação, e as negociações podem se estender além do prazo oficial. Em meio à tensão, permanece a dúvida sobre se o acordo final da COP30 incluirá um compromisso explícito com o fim dos combustíveis fósseis ou se seguirá apenas com formulações genéricas.
O que mudou no rascunho e o que ficou de fora
Segundo a nova versão publicada pelo secretariado da UNFCCC, o anexo com 59 indicadores da GGA busca orientar ações de adaptação nos países, mas não estabelece um “fim dos combustíveis fósseis”. Entidades ambientais apontam que a expressão “transição para longe dos combustíveis fósseis” não aparece em nenhum dos 13 textos colocados em consulta até agora.
O Observatório do Clima criticou a retirada das menções, afirmando que os textos seguem “desequilibrados” e não atendem à demanda de 82 países, entre eles o Brasil, por um roteiro de transição energética com metas e prazos claros. A organização também destaca que o Programa de Trabalho de Transição Justa (JTWP) não traz diretrizes para eliminar combustíveis fósseis nem para conter o desmatamento, atribuindo o esvaziamento do tema à influência de lobby.
Nesta edição da COP30, foram credenciados 1.602 representantes da indústria fóssil, o maior número proporcional já registrado, o que reforçou as críticas de que a presença de lobistas teria contribuído para a remoção de referências ao fim dos combustíveis fósseis do rascunho.
Pressão de países e sociedade civil por um roadmap
O impasse político se intensificou após a divulgação, pelo g1, de que mais de 30 países avisaram que não assinarão o documento caso o roadmap volte a ser excluído. Em carta enviada ao governo federal, países como Colômbia, França, Reino Unido e Alemanha afirmaram que “não podem apoiar um resultado que não inclua um roteiro justo, ordenado e equitativo para deixar os combustíveis fósseis para trás”.
O termo roadmap, ou mapa do caminho, descreve um plano de ação que organiza etapas e metas para alcançar um objetivo concreto. A proposta ganhou força no início da Cúpula de Líderes da COP30, quando o presidente Lula conclamou os países a construir um calendário global para superar o uso de petróleo, gás natural e carvão mineral. A retirada do tema do rascunho atual amplia a disputa diplomática e coloca em xeque o grau de ambição do acordo final.
Para organizações da sociedade civil, manter a linguagem sobre o fim dos combustíveis fósseis é condição para uma transição energética justa, com sinais claros ao mercado e aos governos. Sem um roadmap, avaliam, o texto corre o risco de perder efetividade e atrasar políticas de descarbonização, financiamento e planejamento de longo prazo.
Próximos passos, negociações estendidas e clima político
Esta sexta-feira, 21, é o último dia oficial da COP30, mas a expectativa é de que as tratativas avancem ao longo do fim de semana. O presidente do evento, André Corrêa do Lago, indicou que o cronograma foi afetado pelo incêndio de quinta-feira, 20, e que as conversas seguirão intensas. “Realmente, as coisas mudaram um pouco. Estamos trabalhando nas consultas dos grupos regionais, online e por telefone. Amanhã (21), com a reabertura da Zona Azul, teremos negociações pela manhã e durante todo o dia. Então, vamos ver até quando vai durar. Você sabe que as COPs geralmente se estendem além do previsto. Queríamos adiantar, mas vamos ver como faremos”, disse em entrevista à TV Brasil.
Nos bastidores, negociadores avaliam a possibilidade de o secretariado publicar novas versões do rascunho, reintroduzindo, ainda que com ajustes, menções ao fim dos combustíveis fósseis. Esse movimento poderia abrir caminho para um consenso mínimo entre os blocos, conciliando a demanda por um roadmap com a resistência de produtores de petróleo e carvão.
Enquanto isso, o foco recai sobre o equilíbrio do texto entre adaptação, mitigação e transição justa. A inclusão dos 59 indicadores da GGA é vista como um avanço técnico, porém não supre a ausência de compromissos claros com a eliminação progressiva de combustíveis fósseis. Se a versão final não contemplar o fim dos combustíveis fósseis, países e entidades alertam que a conferência pode entregar um resultado aquém do necessário para orientar políticas e investimentos na próxima década.
O desfecho da COP30 dependerá da capacidade de costurar uma linguagem comum que garanta previsibilidade, sinalize a transição para longe dos combustíveis fósseis e ofereça um roteiro verificável. Até lá, permanece a disputa entre os que defendem ambição climática com metas explícitas e os que preferem manter um texto mais genérico, sem firmar um compromisso claro com o fim dos combustíveis fósseis.

