COP30 enfrenta críticas após a exclusão do ‘mapa dos combustíveis fósseis’ do rascunho; Paulo Artaxo e Carlos Nobre pedem roteiro claro e alertam para risco de até 4,5 °C no Brasil
A COP30, realizada em Belém, termina a sexta-feira, 21, com negociações em aberto, e as conversas devem se estender pelo fim de semana. Além de um incêndio nas instalações do evento, o estopim foi a retirada do trecho que previa o fim do uso de combustíveis fósseis do rascunho do acordo final. A exclusão do chamado “mapa dos combustíveis fósseis” gerou reação imediata de governos e da sociedade civil, com a União Europeia sinalizando veto ao texto caso não haja mudanças.
No centro do impasse está a disputa entre ciência, diplomacia e interesses econômicos. Especialistas ouvidos por veículos especializados apontam que, ainda que a COP30 tenha sido histórica em mobilização e agenda, a influência do lobby do petróleo permanece como o maior obstáculo para decisões alinhadas às metas do Acordo de Paris. Segundo interlocutores, mais de 80 países pressionam pela reinclusão de metas para o fim dos combustíveis fósseis no documento final.
O ‘elefante na sala’ e o lobby do petróleo
Para o físico Paulo Artaxo, professor do Instituto de Física da USP e referência em mudanças climáticas, o debate que muitos evitavam finalmente ganhou centralidade. “[O elefante] ficou desaparecido de quase todas as outras 29 COPs e agora ele está explícito em cima da mesa” afirmou, ao comentar que o rascunho reflete diretamente a atuação do lobby das indústrias de petróleo, que buscam evitar qualquer acordo que ameace seus lucros.
Apesar da pressão das petroleiras, Artaxo avalia que o fato de os combustíveis fósseis dominarem a agenda já representa um avanço no processo. “É imprevisível saber quem vai ganhar no fim, mas o que eu acho é que é importante que o elefante no meio da sala tenha aparecido […] isso eu considero que já é um ponto positivo”. Ele destaca que mais de 80 países cobram a reinclusão do plano para eliminar petróleo, gás e carvão no texto final da COP30.
Roteiro para zerar fósseis e metas de desmatamento
O climatologista Carlos Nobre, também da USP e copresidente do Painel Científico para a Amazônia, considerou positiva a presença de metas como desmatamento zero até 2030 e regeneração das florestas tropicais. No entanto, classificou como uma “grande lacuna” a ausência de qualquer referência à eliminação dos combustíveis fósseis. Em suas palavras: “O nosso documento dizia, idealmente, zerar o uso de combustíveis fósseis em 2040, não mais que em 2045, para não deixar a temperatura do planeta aquecer demais, não deixar em 2050, por exemplo, chegar a dois graus, que isso vai ser um ecocídio, um suicídio ecológico.”
Nobre relatou que, durante a COP30, o recém-criado Pavilhão de Ciência Planetária apresentou estudos e promoveu debates com ampla participação, entregando aos negociadores um documento com metas claras para abandonar os fósseis até meados do século. Ele também destacou que, a partir de abril de 2026, será lançado um novo painel científico de transição energética, a partir de uma reunião internacional na Colômbia, com foco em soluções viáveis e baseadas em evidências.
Financiamento, Amazônia e por que o Brasil é mais vulnerável
Mesmo com o impasse climático, a COP30 registrou avanços em financiamento e valorização das florestas tropicais. Artaxo cita o fundo TFFF, Florestas Tropicais para Sempre, que ganhou novo fôlego com aporte de € 1 bilhão cerca de R$ 6,1 bilhões da Alemanha, somando agora mais de US$ 6 bilhões. O mecanismo financia a preservação em países em desenvolvimento, como nações da Bacia do Congo e do Sudeste Asiático, além de reforçar a proteção da Amazônia. Também houve progressos na arquitetura de financiamento para a transição energética e adaptação, ainda que o fundo global de adaptação esteja longe da meta de US$ 1,3 trilhão por ano.
Para Artaxo, apoiar a descarbonização no Sul Global é estratégico e eficiente. “Muitas vezes é muito mais barato você cortar emissões ajudando países em desenvolvimento a implementarem a sua transição energética do que alterarem complexos processos e infraestrutura em países desenvolvidos. Então, além de tudo, é um bom negócio.”
No caso do Brasil, a urgência é ainda maior. Modelos climáticos indicam que, se o mundo mantiver o ritmo atual de emissões, a temperatura média global pode subir 2,8 °C, enquanto o Brasil pode enfrentar até 4,5 °C de aumento. “Vocês podem facilmente imaginar o que é um aumento de 4,5 graus em Palmas, em Teresina, em Cuiabá ou em Belém, este impacto é muito maior do que um aumento de 4 graus em Estocolmo, em Montreal ou em Moscou…” A avaliação coloca o país entre os mais vulneráveis, especialmente em áreas com desmatamento, pobreza e infraestrutura precária.
No plano político, o discurso do presidente Lula pela eliminação dos fósseis e pela proteção das florestas foi elogiado por especialistas. Agora, o foco está em refletir essa posição no texto final da COP30. O evento também foi marcante em escala e participação: “Nós tivemos 195 países formalmente participando, e nós tivemos mais de 42 mil participantes…”
Para que a conferência entre para a história como a mais importante, o consenso é que o documento final precisa conter um roteiro claro para a eliminação dos combustíveis fósseis. Nas palavras de Artaxo: “Na minha opinião, o documento final tem que conter pelo menos uma proposta de rota para o fim de combustíveis fósseis,” concluiu. “E se isso acontecer, esta COP provavelmente vai ser a mais importante das 30 COPs realizadas até agora. Porque pela primeira vez a gente colocou o dedo na ferida, porque nós só estamos enfrentando essa emergência climática por causa da indústria de combustíveis fósseis, não há outra razão.”

